Seu mais recente livro, O Vendedor de Passados, fala sobre um especialista em reescrever a biografia dos fregueses na
emergente sociedade urbana de Angola.... pintando um retrato dos novos ricos angolanos, que têm o dinheiro e o poder, mas aos
quais falta um passado consistente!!!! |
José Eduardo Agualusa, um dos mais importantes escritores africanos da
última década, nasceu
em 1960 na cidade de Huambo, em Angola.
Estudou agronomia e silvicultura, em Lisboa, Portugal, mas a sedução pelas letras crescia em
seu interior e depressa se dedicou ao jornalismo e a escrita. Sua
família é portuguesa pelo lado paterno e
brasileira pelo lado materno.
Casado, pai de dois filhos, seus livros são sucesso de vendas na língua
de origem e são traduzidos
em diversos idiomas. É romancista, contista, poeta e jornalista e divide
seu tempo entre Luanda, Lisboa e viagens ao Brasil.
Conhece como ninguém a realidade angolana, a da guerra e a do
pós-guerra, as intermináveis
lutas e abusos de poder, a luta diária de um povo pelos seus direitos
básicos, a miséria desse povo enquanto a riqueza do país está a saque e
nas mãos de largas dúzias de governantes corruptos.
É esta realidade que ele nos traz em alguns dos seus livros.
José Eduardo Agualusa virou um escritor em moda no Brasil. O visual de
galã de novela e principalmente os romances leves e povoados de
aventuras .....contribui para o seu sucesso.
Mas, certamente, não é essa a sua maior qualidade. A sua riqueza como
escritor está mesmo no
seu jeito de contar as estórias, prenhes de sentidos e de imagens que
faz dele, um dos
mais prolíferos escritores da língua portuguesa.
Nos textos de Agualusa as palavras ganham vida. Ora assombram, ora
seduzem, ora surpreendem. Um estilo que nos conquista em cada um dos
seus livros, quer seja romance, conto, novelas ou crônicas. Estilos que,
por si só, são sinônimo de um escritor multifacetado que não se prende
nas margens de um único estilo literário....os deslocamentos(Brasil,
Angola,Portugal) lhe propiciaram desenvolver um molde peculiar de
escrever, que mistura brasileirismos e a gíria urbana
de Luanda de forma enxuta e clara.
A característica mais marcante de sua literatura é a fusão de
referências de países de língua portuguesa, fazendo um entrelaçamento
cultural coerente com a idéia da lusofonia, a união
dos povos através da língua em comum.
Agualusa esteve várias vezes no Brasil, já morou em Olinda e fez dezenas
de entrevistas em
favelas cariocas para criar a história de O Ano em que Zumbi Tomou o Rio
(2002). Portugal
também é fonte permanente de seus livros, tendo partido de Eça de
Queiroz para escrever seu romance mais conhecido, Nação Crioula (1998).
A Afirmação Criola
Se existe uma palavra que possa caracterizar a obra e a personalidade de
José Eduardo Agualusa, essa palavra é sem dúvida a palavra crioulo:
crioulo é, para Agualusa, uma afirmação de raízes
que contém em si todo um projeto de futuro, de possibilidade de
afirmação de valores culturais angolanos e das culturas africanas e
colonizadas em geral. Um valor, não da afirmação da
negritude, mas da miscigenação, não apenas rácica mas, sobretudo,
cultural.
Agualusa é, ele próprio, o exemplo por excelência do crioulo: com
ascendência angolana,
portuguesa, brasileira e, mesmo dentro de Angola, com raízes em
diferentes regiões, está, de fato, tão em casa em Lisboa como em Luanda
ou no Pantanal do Brasil. Do mesmo modo, a sua escrita está tão à
vontade com a inovação semântica e estilística que as literaturas
africanas
têm imprimido à língua portuguesa.
O Vendedor de Passados
Seu mais recente livro, O Vendedor de Passados, fala sobre um especialista em reescrever a biografia dos fregueses na
emergente sociedade urbana de Angola.... pintando um retrato

dos novos ricos angolanos, que têm o dinheiro e o poder, mas aos quais falta um passado consistente!!!!
Uma idéia perigosamente interessante, extravagante, misteriosa...que mistura as metáforas e analogias com o Mundo Natural.
Povoado de personagens sui generis como a osga, um assombro, sempre atenta a tudo e arecordar o tempo
em que era humana.
“Um nome pode ser uma condenação.
Alguns arrastam o nomeado, como as águas lamacentas de um rio após as grandes chuvadas, e, por mais que este resista,
impõem-lhe um destino.
Outros, pelo contrário, são como máscaras: escondem, ilumem. A maioria, evidentemente, não tem poder algum. Recordo
sem prazer, sem dor também, o meu nome humano.
Não lhe sinto a falta. Não era eu.”
Nesta história, um albino morador de Luanda, capital de Angola, elabora árvores genealógicas
em troco de pagamento. Uma atividade um tanto quanto estranha exercida
por um esquisito personagem principal - o vendedor de passados falsos,
chamado Félix Ventura e uma lagartixa
que, na verdade comanda toda a narrativa.
Esta, uma osga, espécie de lagartixa, vai contar como um negro albino,
Félix Ventura, fabrica histórias de vida para seus clientes, ou seja,
cria uma genealogia de luxo para quem o contrata .
São prósperos empresários, políticos e generais da emergente burguesia
angolana que têm um presente e um futuro prospero, mas falta-lhes um
passado que não seja comprometedor.
E arquitetar esse passado é uma empreitada no qual, o personagem
principal Felix se encarrega.
Dois seres, um albino e uma osga (lagartixa), vivem à sombra e
compartilham vivências, sonhos e criações. A osga busca na sua pretérita
vida humana, vestígios de outra reencarnação, a fim de compreender suas
emoções e reconhecer os vestígios literários e a sua aguçada percepção.
O albino, Félix Ventura, busca a realização de um presente para si
alicerçado nos alfarrábios
que lhe serviram de berço.
A Osga tem um nome. É chamada de Eulálio por Félix, o homem que vende os
passados.
E ela ela quem vai narrando a história.
A relação da osga (Eulálio) com a sua casa é visceral. A osga percebe
sua respiração,
penetra-a em busca do útero
“O corredor é um túnel fundo, úmido e escuro, que permite o acesso ao quarto de dormir...”
A casa é o seu universo possível e seguro, distante dos campos minados
de Angola, onde são revelados os segredos e fantasias que criam o
presente para os que buscam novos passados. Também é o ambiente
protegido para o resgate da vida de Eulálio, um ser comum que viveu
quase um século na pele de homem sem se sentir inteiramente humano e que
agora se lamenta
desses quinze anos com a alma presa ao corpo de lagartixa.
Felix está muito bem nessa empreitada, leva uma vida razoavelmente
confortável até que uma
noite essa rotina é rompida com a chegada de um estrangeiro, fotógrafo
de guerra, que quer um passado completamente novo. De preferência que
seja uma identidade angolana.
Com o nome recente, José Buchmann, e uma fajuta e fabulosa árvore
genealógica, passa a buscar
os personagens a fim de confirmar sua existência fictícia.
José Buchmann procura o seu passado e, á medida que vai sendo criado por
Félix Ventura, o encontro com algumas situações surpreendem com a
possibilidade da coincidência com o absurdo.
A busca de sua suposta mãe, a aquarelista norte-americana Eva Mullher, a
narrativa do corredor cheio de espelhos e de sua povoada solidão no
apartamento em Nova Iorque, a aquarela
encontrada e o anúncio de sua morte na Cidade do Cabo, tudo vai
colorindo e recheando
essa nova identidade.
“A verdade é uma superstição.”
mas......
Entre uma venda de passado e suas implicações, são apresentados os
problemas de uma osga
(fugir de lacraus, e refrescar-se do calor) e seus sonhos. E temos ainda
que contornar o
problema de um narrador animal que age como um ser humano sem uma nítida
compreensão animal do mundo.
A lucidez da osga é admirável:
“A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável.
Está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre.”
Sua mãe, de Eulálio, aparece em seus sonhos (memórias da vida humana),
fala sobre a realidade
e o sonho e aconselha:
“Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo que
realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolha os livros.”
Outra passagem interessante e que nos chamam a atenção: os inúmeros
seres que precisam
de uma trajetória para legitimar as máscaras que vestem demonstram como
os personagens históricos são imortalizados com passados maquiados,
enfeitados de fatos falsos,
numa ficção memorialista.
Numa das biografias forjadas, Felix se destaca ao criar para um de seus
clientes um livro de memórias de um Ministro (A vida verdadeira de um
combatente), que credita a este cliente,
homem público, um conjunto de fatos notáveis para confirmar o personagem
idealizado e contextualizado com as suas pretensões futuras.
Contudo, o aparecimento do mendigo Edmundo Barata dos Reis, comunista
assumido, ex-agente
e ex-gente nas palavras do próprio, cria novos rumos para a narrativa.
Os personagens e seus duplos convergirão para um desfecho inusitado,
consagrando a
narrativa vertiginosa e poética de José Eduardo Agualusa.
Temos também, para complementar, uma trama de amor: Félix Ventura,
vendedor de passados, apaixona-se por Ângela Lúcia, mulher que gosta de
fotografar nuvens.
........e por aí vai....
Caracterização
A estrutura do romance é formada por capítulos curtos.Isto é ótimo. Caso
o livro seja uma
porcaria, pelo menos você tem coragem de ir até o final e acrescenta um
na sua lista de livros lidos. Mas não é o caso de "O Vendedor de
Passados".
No livro também surge um tema caro à literatura universal: a
meta-literatura.
Por exemplo, contar a história de um escritor. Meta-literatura um tanto
alterada
em "O Vendedor de Passados", é verdade, porém presente.
O ofício de criar histórias e personagens de Félix Ventura para seus
clientes é em muito
similar ao de um escritor.
O tema recorrente de Agualusa está presente também nesse romance: a
história de Angola,
sua herança de Portugal e a relações existentes entre todos os países
ligados por esse idioma comum, a língua portuguesa.
O autor, por ter morado no Brasil decora sua história com fontes de
citações, inter-textos e afins extraídos de autores e compositores
brasileiros, portugueses e angolanos . Sua compreensão e literatura
conseguem passear de maneira extremamente eficaz pelos mais diversos
elementos formadores dessas culturas.
Infelizmente, o final deixa um pouco a desejar. Tenho a impressão de
Agualusa ter se apropriado
da cultura mexicana de novelas para desenvolvê-lo.
Outro ponto a se ressaltar é a possibilidade da leitura de um texto em
língua
original e não brasileiro.
E ele ainda estar em português. Sempre se perde muito na tradução de uma
obra.
Ao poder contemplá-la no original temos acesso a todos os recursos que o
escritor dispôs sem intermediários. Nossa interpretação é a primeira a
partir do autor.
Temos nessa obra um panorama da cultura angolana e uma crítica a sua
sociedade.
E também podemos perceber como esse panorama parece com o Brasil e
quanto dessa
crítica também nos cabe.
Assista Um vídeo condensado (4 minutos) sobre o escritor José Eduardo Agualusa
![]()
Caso queira assisti-lo completo, 1:00h, faça o download de:
http://www.sempreumpapo.com.br/audiovideo/resultado.php?letra=j
Obras publicadas
A conjuntura 1989
Manual prático de levitação 2005
Nação crioula 1998
Estação das chuvas 1997
Um estranho em Goa 2001
O ano em que Zumbi tomou o Rio 2003
O vendedor de passados 2004
D. Nicolau Água-Rosada e Outras Estórias Verdadeiras, 1990
Coração dos Bosques, poesia de 1991
A Feira dos Assombrados, 1992
Lisboa Africana, 1993
Reportagem
Lisboa Africana (com Fernando Semedo e Elza Rocha (fotos). Porto: Asa, 1993
Prêmios
Prêmio de Revelação Sonangol
Grande Prêmio de Literatura da RTP
Grande Prêmio de Conto
Grande Prêmio Gulbenkian de Literatura para Crianças, 2002.
LEIA TAMBÉM...
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Fontes:
http://www.revista.agulha.nom.br/agualusa.html#bio
http://www.bonde.com.br/colunistas/colunistasd.php?id_artigo=1469
Helena Sut - Publicado no Recanto das Letras em 28/08/2006
http://lusomatria.com/noticias.php?noticia=114
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT808282-1666,00.html |
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