As informações sobre a ALCA estão ganhando espaço nos meios políticos, acadêmicos e na
mídia, particularmente após a assinatura de um acordo
bilateral entre os EUA e o Chile e a visita do secretário de Estado, Collin Powell à Argentina. As dificuldades
que ora atravessam os países do Mercosul e as manifestações contínuas de autoridades norte-americanas parecem anunciar uma nova
ofensiva dos EUA para pressionar os 34 países afim de acelerar a criação da Área de Livre Comércio das Américas.
Tendo em vista que a proposta segue o padrão tradicional de imposição “de cima para baixo”, sem consultar os legítimos representantes
da sociedade civil, e os impactos que as políticas e diretrizes, uma vez decididas, terão na vida de centenas de milhões de
habitantes do hemisfério, considera-se imprescindível aprofundar o debate sobre a conveniência e o interesse dessa proposta de
integração e sua relevância para os destinos dos povos da região.Assim, os temas dos debates deverão versar, necessariamente,
sobre:
as possíveis conseqüências da extensão da influência econômica e política dos EUA nos países do hemisfério
ocidental; |
| os impactos diretos e indiretos sobre os setores produtivos e de serviços; |
as potenciais vantagens e desvantagens de uma adesão, bem como os riscos em caso de resistência isolada do
país; |
os atores sociais interessados e favoráveis ao livre comércio nas Américas e aqueles que não admitem a adesão
como algo inexorável. |
Os EUA pressionaram para que o processo de negociação das tarifas fosse concluído em 2003, mas na reunião de cúpula de
Quebec foi mantida a data original de 2005. Entretanto, a questão não se esgota com os prazos ou as tarifas preferenciais para
um ou outro setor. No momento as negociações se encontram estagnadas.
Com o crescente número de acordos bilaterais assinados pelos Estados
Unidos com vários países da América Central e do Sul (México e Chile à
frente)
e a proposta do Brasil da chamada “Alca light” em 2003, os mais radicais
já decretaram
a morte da Alca.
A ALCA, tal como proposta pelos EUA, configura um acordo global abarcando além do livre comércio de mercadorias, as transações de
serviços, operações financeiras, as compras governamentais, os investimentos e a lei de patentes. O acordo preconiza a extensão e
o aprofundamento da desregulamentação a todos esses setores, com as conseqüências desastrosas facilmente previsíveis à luz
das disparidades e assimetrias tecnológicas e financeiras existentes entre o Norte e o Sul.
É lícito, portanto, indagar “a quem interessa a
ALCA”? Por que a opinião pública está sendomantida à margem das negociações,
contrariamente aos EUA, onde o Congresso tem a última palavra e o controle, concedendo ou não o fast track ao poder executivo.Os que
se alinham em defesa da ALCA apontam as vantagens de
acesso ao imenso mercado norte-americano e os ganhos decorrentes do comércio incrementado. O argumento é ilusório e superficial,
por ignorar o fato de que metade do comércio exterior do Brasil já se realiza na zona da ALCA. A ilusão do acesso facilitado ao
mercado norte-americano faz caso omisso da legislação antidumping, dos subsídios ocultos e outras barreiras não-tarifárias que
configuram o sistema de proteção comercial dos EUA. Dificilmente, abrirão mão desses mecanismos amparados numa legislação
complexa que confere vantagens e ganhos inéditos às suas empresas, pela interpretação parcial e enviesada da liberdade do
comércio.
O Brasil, por outro lado, estará em franca desvantagem na ALCA, por estar sua economia não complementar e com níveis tecnológicos e
de integração das cadeias produtivas inferiorizada em relação aos EUA. A liberalização das tarifas levaria a uma crise de dimensões
imprevisíveis para a indústria brasileira que não conseguirá enfrentar a concorrência dos produtores norte-americanos.
Com isto, estará enfraquecida a capacidade da sociedade brasileira de construir seu próprio futuro, conforme as preferências
e aspirações de autonomia cultural, política e social do povo brasileiro.
As desvantagens do Brasil e dos outros parceiros da ALCA não ficarão restritos à área de livre comércio apenas. O acordo tal
como preconizado pelo governo norte-americano concede vantagens inéditas às suas empresas pela liberalização das compras
governamentais, dos serviços financeiros e seguros, dos investimentos estrangeiros e na aplicação da lei das patentes.
Novamente, a adesão a ALCA não é parte de um destino inexorável. Uma resistência
decidida do Brasil à política de expansão dos conglomerados norte-americanos, ao mesmo tempo em que sejam estabelecidas
negociações econômicas com todos os países da América do Sul e a União Européia constituiria um passo importante em direção a uma
sociedade mundial mais democrática e justa. Ao capital interessa a conquista de mercados cativos, abrigados e protegidos
por uma
tarifa externa comum que veda o acesso aos competidores externos. Mas, para deslocar suas fábricas da metrópole para as regiões ou
países “emergentes”, exige condições infra-estruturais (energia, transporte, comunicações) fornecidas ou subsidiadas pelo Estado,
e uma mão-de-obra barata e relativamente qualificada. Somando essas vantagens com as maiores escalas de produção, acesso mais
direto às tecnologias de ponta, as facilidades de acesso ao crédito barato e as redes de comercialização e marketing, a
superioridade das empresas norte-americanas se tornará avassaladora e causará a eliminação das médias e grandes empresas nacionais.
Portanto, perguntamos “a quem interessa um acordo de comércio preferencial para produtos e serviços”?
Quem se beneficiará da imposição de normas draconianas para garantir os direitos de
propriedade intelectual? E quem obterá vantagens
com o estatuto privilegiando investimentos estrangeiros, dando acesso às compras governamentais e aos contratos de grandes obras
civis?
A inferioridade tecnológica, comercial e organizacional das empresas nacionais não poderá ser compensada, a curto
ou médio prazo, e o enfraquecimento da estrutura
produtiva afetará inevitavelmente o projeto de soberania nacional. A ALCA, além de suas dimensões econômicas, é também um projeto
político que vem coroando a afirmação dos EUA como potência hegemônica do século XXI, através da consolidação de sua esfera de
influência sobre toda a América Latina. Esse processo começou no século XIX com a Doutrina Monroe, foi reforçado com a construção do
canal do Panamá e a política do big stick de Teodoro Roosevelt, antes da primeira guerra mundial. A entrada e participação vitoriosa
dos EUA na primeira guerra mundial e sua proposta de criação da Liga das Nações, da qual acabaram não participando devido à onda de isolacionismo do pós-guerra, prenunciaram a era da hegemonia norte-americana no século vinte.
Novamente, a entrada na segunda guerra mundial após o ataque japonês em Pearl Harbor, em 1941, pondo todo o potencial econômico e
militar dos EUA a serviço dos aliados, resultou na derrota dos exércitos do “eixo” (Alemanha, Itália, Japão) e a confirmação da
“pax americana”. Enquanto o desafio da ex-União Soviética durou até 1989, os EUA cuidaram do seu “quintal”, derrubando o primeiro
governo democrático da Guatemala, em 1954, mandaram tropas para garantir a “ordem” na República Dominicana, no Panamá e Granada.
Com a CIA onipresente, apoiaram os golpes de estado e posteriores regimes militares ditatoriais, no Brasil e no Chile.A guerra da
Coréia (1951-53) e a guerra do Vietnam, a partir de 1967, foram travadas para confirmar a hegemonia e tranqüilizar os países do
Extremo Oriente – Japão, Indonésia, Filipinas e outros – quanto à decisão de resistir à expansão do comunismo, demonizado na era de
Ronald Reagan como o “império do mal”. O desmoronamento do império soviético parecia inclinar definitivamente o balanço de poder a
favor dos EUA, cuja superioridade foi demonstrada na guerra do Golfo (1991), na intervenção nos Bálcãs e, mais recentemente, na
guerra contra o Iraque.Entretanto, como tantas vezes na História, o capital se torna seu próprio coveiro.
A abertura da China para os investimentos norte-americanos atraídos pelo potencial imenso de mais de um bilhão de consumidores e
o incrivelmente baixo custo de mão-de-obra impulsionaram o crescimento econômico da China e suas exportações invadiram todos os
mercados, permitindo a acumulação de um significativo saldo superavitário em sua balança comercial.
A incorporação pacífica de Hong Kong com sua rede global de relações financeiras, acelerou a trajetória da China, em direção a
tornar-se a segunda potência mundial, capaz de contestar a supremacia norte-americana.
Com a criação da ALCA, os Estados Unidos concretizarão a integração subordinada do hemisfério ocidental, consolidando essa imensa
área de influência econômica e político-militar.
Além de assegurar o livre fluxo das exportações para a região, com centenas de milhões de consumidores potenciais, o saldo
superavitário assim conseguido ajudará a equilibrar os déficits dos EUA com as regiões da União Européia, Japão e China.
Em resumo, o projeto da ALCA atende aos interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos na América do Sul, afetando
particularmente o projeto do Brasil, com seu potencial econômico, sua população e suas dimensões territoriais.
Não basta uma resistência passiva esmiuçando questões de prazo e de cláusulas acessórias.
A união dos povos latino-americanos ao redor de um projeto de integração alternativo, baseado nos valores de cooperação,
solidariedade e democracia em todos os países parceiros, exigem a mobilização e conscientização das populações decididas
a construir suas sociedades democráticas, regidas pelos Direitos Humanos e a justiça social e unidas para resistir às
pressões da maior potência do mundo.
Como proclamava o Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, em janeiro de 2001, ... “um outro mundo é possível”!
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Henrique Rattner
Professor da FEA (USP) e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL) |
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