Angústia
Resenha
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Angústia
de Graciliano Ramos

Fontes*
Passados quase setenta anos, Angústia se afirma como um marco na literatura brasileira e na trajetória do autor.
O mundo relatado em Angústia é estreito e sufocante, mas o alcance literário da obra se expande, ainda hoje,
para além dos limites da crítica.
O resultado é uma narrativa imersa em clima de sonho, ou
melhor, de pesadelo, banhada por alucinações, vivências
sexuais reprimidas e desejos sádicos obsessivos.


Escrito num andamento de pesadelo, mas com a concretude do pequeno detalhe cotidiano que é a marca do estilo de Graciliano Ramos (1892-1953), Angústia faz uma lenta imersão na consciência do personagem
Luís da Silva, funcionário público, que leva uma existência que se poderia considerar, em todos os aspectos, ordinária.
Sujeito complexo e atormentado, que afunda num inferno de ciúme
e de ressentimento até o ponto de cometer um ato extremo.

Como bem observou o crítico Otto Maria Carpeaux, "todos os romances de Graciliano Ramos são tentativas de destruição" - e este não foge à regra.
"Não sou um rato, não quero ser um rato", repete para si o protagonista.

Lançado em 1936, quando o autor estava preso pelo governo de Getúlio Vargas,
o livro ganhou o prêmio "Lima Barreto" da Revista Acadêmica e contribuiu
para fazer de Mestre Graça (como era conhecido pelos amigos) um dos
maiores escritores da literatura brasileira.

Naquela época, a maior parte da crítica não foi capaz de perceber o inusitado
da obra. O texto provocava estranhamento no leitor e não se amoldava à objetividade da literatura regionalista da época. O próprio Graciliano Ramos

 julgava seu romance "desagradável", um "solilóquio doido", "enervante" e "mal escrito".

A linguagem é breve, sintética e concisa, marca inconfundível do autor.
O amor possessivo do funcionário decadente Luís da Silva pela vizinha Marina, ao lado da
rivalidade doentia com Julião Tavares (em tudo mais potente e superior que seu agressor),
montam uma trama que entrelaça o psicológico e o social. O leitor acompanha, em compasso de crescente tensão, a experiência delirante de um criminoso e o processo minucioso da
gênese desse crime.
Na prisão, movido pela necessidade de confessar, o narrador se empenha na escritura de um
livro e através dele procede a uma auto-análise.

Passados quase setenta anos da recepção inicial, Angústia se afirma como um marco na literatura brasileira e na trajetória do autor. Seria mesmo difícil, nos anos 30, legitimar essa escrita compulsiva, dominada pelo fluxo interno de pensamentos, lembranças e afetos do narrador-protagonista Luís da Silva.
O resultado é uma narrativa imersa em clima de sonho, ou melhor, de pesadelo, banhada por alucinações, vivências sexuais reprimidas e desejos sádicos obsessivos.

O mundo relatado em Angústia é estreito e sufocante, mas o alcance literário da
obra se expande, ainda hoje, para além dos limites da crítica.

Enredo


Vamos tentar resumir o enredo de “Angústia”, o que não é nada fácil.

O protagonista é Luís da Silva, 35 anos, lotado na Diretoria do Tesouro, em Maceió, Alagoas.
Ele revela profundos sentimentos de autodepreciação, de insatisfação com a vida que leva, “monótona e estúpida”. Ganha $500.000 réis de salário (aproximadamente uns cinco salários mínimos da época) e é submisso aos chefes. De origem rural, é um deslocado na cidade.
Lembra com alguma admiração o avô Trajano, forte, decidido, possuidor de mulheres em seus tempos de esplendor e, com muitas reservas, o pai, Camilo, filho fraco, o único que escapou do casamento de Trajano e Sinhá Germana.

Luís sente-se fortemente atraído por uma vizinha nova, Marina, filha de D. Adélia e do
eletricista Seu Ramalho. A atração é predominantemente sexual, já que os dois são
diferentes demais para se entenderem.
Visando ao casamento, o enxoval é preparado. Ela só pensa em roupas finas, jóias e tapetes, e
Luís termina por esgotar suas parcas economias de três contos de réis, além de se endividar.

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Marina, sempre que pode, troca olhares suspeitos com Julião Tavares,
e por quem luis sempre nutrira uma aversão especial: era um homem rico, sócio da firma
“Tavares & Cia”, negociantes de secos e molhados, e conquistador de mulheres.

Com o passar do tempo, fica bem caracterizada a preferência de Marina por Julião.

Amargurado, Luís se distancia de Marina; é-lhe inaceitável o que considera como prostituição
de noiva: “Escolher marido por dinheiro. Que miséria!”

O golpe veio romper o precário equilíbrio psicológico do protagonista, que não consegue
desligar-se mentalmente de Marina e entra num furioso processo de fantasias, com
predominância inicial daquelas de natureza sexual. Ora se entrega ao despeito e ao ciúme, ora imagina tudo esquecer e reaver Marina que, por seu turno, está cada vez mais firme com
Julião Tavares, de quem recebe tudo aquilo de que gosta: roupas caras, jóias, passeios, idas
à ópera, ao cinema, etc.

As fantasias de Luís da Silva tornam-se progressivamente mais obsessivas e gradualmente se vão fixando em alguns aspectos especiais: os arames (fios) da Cia. Nordeste, cordas, canos, cenas de assassinatos e prisões que em criança havia presenciado, casos de vingança de honra, etc.
O seu comportamento se deteriora; falta às vezes ao serviço, na repartição; vive bebendo e fumando, perambula à toa pela cidade, de bodega em bodega, atola-se
em dívidas, enquanto entra num processo mental francamente delirante.

Marina aparece grávida e Julião Tavares vai-se afastando dela aos poucos. Em vez de
recriminá-lo, a moça e D. Adélia entregaram tudo a Deus, “numa resignação estúpida e fatalista”.

Luís sente a imperiosa necessidade de fazer Julião Tavares morrer, e morrer enforcado, os olhos esbugalhados, a língua de fora. Seu Ivo, um mendigo que eventualmente passava por lá para
pedir comida, presenteia-o com uma peça de corda. Ele se sobressalta desproporcionalmente, rejeitando, horrorizado, o presente que materializava, por assim dizer, as suas fantasias.
Mas acaba guardando no bolso a peça e, doravante, não mais a largará.


A decadência psicológica e humana continua inexorável; Luís emagrece, quase não come, bebe demais; vigia e segue, como um autômato, Julião Tavares ou Marina.
 

Descobre, também, que Julião estava de amante nova.
Rastreando o “inimigo”, segue-o certa noite até à casa da amante. Depois que Tavares entra
na residência, Luís continua andando, robotizado.
Quando volta, de madrugada, sempre a pé, há uma espessa neblina dificultando a visão.

Encontra Julião, caminhando à sua frente. Valendo-se da névoa, acompanha-o sem ser notado,
até que as circunstâncias lhe permitem atirar-se sobre ele e enforcá-lo, conseguindo ainda, após várias tentativas, alçá-lo ao galho de uma árvore próxima para simular suicídio.


Sempre a pé, sujo e esfarrapado, devido à luta e às circunstâncias do enforcamento, atordoado
por fantasias e alucinações, consegue chegar até sua casa. Aí, a muito custo e de maneira desconexa, procura apagar os indícios do que ocorrera.

As coisas e pessoas conhecidas, as visões habituais do passado e
do presente vinham, confundiam-se umas com as outras, numa ciranda sem fim.
O tempo passava, mas no tempo não havia horas.” Predominam o sentimento de solidão e
abandono.


Tema: “Inútil, tudo inútil”


Tendo em vista o resumo, poderíamos perguntar: qual o tema, a idéia central ou nuclear que organiza, que explica?
Rejeição... ? , solidão...?,  sonho...?

Otto Maria Carpeaux, no estudo já mencionado, diz que “a realidade, nos romances de
Graciliano
, não é deste mundo. É uma realidade diferente”.
E qual seria ela?  conclui:
Os romances de Graciliano Ramos são experimentos para acabar com o sonho de angústia
que é esta vida”.

Podemos observar que, Luís, é um homem desenraizado na cidade, reduzido à insignificância,
reage rejeitando violentamente a vida estúpida que leva.
Observamos que ele faz isso de um modo solitário e não é difícil aceitar
que o mundo em que se move o protagonista afasta-se cada vez mais da realidade para se
constituir num mundo de sonho.

Biografia

Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo (AL), em 1892. Um dos 15 filhos de uma família de
classe média do sertão nordestino, passou parte da infância em Buíque (PE) e outra em
Viçosa (AL). Fez estudos secundários em Maceió, mas não cursou faculdade. Em 1910, sua
família se estabelece em Palmeira dos Índios (AL).

Em 1914, após breve estada no Rio de Janeiro, trabalhando como revisor, retorna à cidade
natal, depois da morte de três irmãos, vitimados pela peste bubônica. Passa a fazer jornalismo e política em Palmeira dos Índios, chegando a ser prefeito da cidade (1928-30).

Em 1925, escreve seu primeiro romance, Caetés. Muda-se para Maceió em 1930, e dirige a Imprensa e Instrução do Estado. Logo viriam São Bernardo (1934) e Angústia (1936, ano em
que foi preso pelo regime Vargas, sob a acusação de subversão).

Memórias do Cárcere (1953) é um contundente relato da experiência na prisão. Após ser solto,
em 1937, Graciliano transfere-se para o Rio de Janeiro, onde continua a publicar não só
romances, mas contos e livros infantis. Vidas Secas é de 1938.

Em 1945, ingressa no Partido Comunista Brasileiro. Sua viagem para a Rússia e outros países
do bloco socialista é relatada em Viagem, publicado em 1953, ano de sua morte.


Obras

1933   -   Caetés 1934   -   São Bernardo
1936   -   Angústia 1938   -   Vidas Secas
1939   -   Terra dos Meninos Pelados 1942   -   Brandão Entre o Mar e o Amor
1944   -   Histórias de Alexandre 1945   -   Infância
1946   -   Histórias Incompletas 1947   -   Insônia
1953   -   Memórias do Cárcere 1954   -   Viagem
1962   -   Linhas Tortas 1962   -   Viventes das Alagoas
1962   -   Alexandre e Outros Heróis 1980   -   Cartas
1984   -   O Estribo de Prata 1992   -   Cartas a Heloisa


Teste Seus Conhecimentos

1) Qual a profissão de Luís Silva, protagonista de "Angústia"?

a) comerciante
b) presidente da República
c) funcionário público
d) médico


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2) Onde nasceu Graciliano Ramos?

a) Guaribas (PE)
b) Penápolis (SP)
c) Quebrângulo (AL)
d) Feira de Santana (BA)


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3) Quando escreveu "Angústia", Graciliano Ramos foi preso. Por que?

a) ele não poderia ser escritor
b) ele foi acusado de subversão
c) ele escreveu um artigo com informações erradas
d) ele cometeu um homicídio, o qual relata no livro


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4) Que livro Graciliano Ramos escreveu na prisão?

a) Angústia (1936)
b) Memórias do Cárcere (1953)
c) Vidas Secas (1938)
d)São Bernardo (1934)


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5) Qual é o tema central de "Angústia"?

a) Luís Silva e Julião Tavares são traídos por uma mulher
b) Luís Silva e Julião Tavares são presos pelo regime militar
c) Luís Silva e Julião Tavares disputam a mesma mulher
d) Luís Silva e Julião Tavares descobrem que são irmãos

_________________________________________

Gabarito:
1) C  -  2) C -  3)  B  -   4)  B  -  5)  C


Fontes de Referências

Yudith Rosenbaum é professora de literatura brasileira na USP (Universidade de São Paulo)
e colaboradora da Folha

http://www.amoliteratura.hpg.com.br/angustia.htm

Unicamp - Artigo de maio de 2003 sobre os 50 anos após a morte de Graciliano Ramos.

http://www.graciliano.com.br/

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Yudith Rosenbaum é professora de literatura brasileira na USP (Universidade de São Paulo) e colaboradora da Folha

http://www.amoliteratura.hpg.com.br/angustia.htm

http://www.graciliano.com.br/