Em outro
trecho afirma:
"Ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de
nascimento, idade, etnia,
raça, cor, sexo, estado civil, trabalho rural ou
urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou
mental, por ter cumprido
pena nem por qualquer particularidade ou
condição".As palavras da Lei emanam de uma tradição brasileira, que
cumpre exatos 120 anos desde a Abolição da
escravidão, de não dar amparo a leis e
políticas
raciais. No intuito de justificar o rompimento dessa tradição, os
proponentes das cotas raciais sustentam que o princípio da
igualdade de todos perante a lei exige tratar
desigualmente os desiguais.
Ritualmente, eles citam a Oração aos Moços, na
qual Rui Barbosa, inspirado em Aristóteles,
explica que: "A regra da igualdade não consiste senão em
aquinhoar desigualmente aos
desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta
desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a
verdadeira lei da igualdade." O método de tratar desigualmente os
desiguais, a que se refere, é aquele aplicado, com
justiça, em campos tão
distintos quanto o sistema tributário, por meio da
tributação progressiva, e as políticas sociais
de transferência de renda. Mas a sua invocação para
sustentar leis raciais não é mais
que um sofisma.
Os concursos vestibulares, pelos quais se dá o ingresso no ensino superior
de
qualidade
"segundo a capacidade de cada um", não são promotores de
desigualdades, mas se realizam
no terreno semeado por desigualdades
sociais prévias.
A pobreza no Brasil tem todas as
cores.
De acordo com dados da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006, entre
43 milhões de pessoas de 18 a 30 anos de idade,
12,9 milhões tinham renda familiar per capita
de meio salário mínimo ou menos.
Neste grupo mais pobre, 30% classificavam-se a si mesmos como "brancos", 9% como "pretos",
e 60% como "pardos". Desses 12,9 milhões, apenas 21% dos "brancos" e 16% dos "pretos" e "pardos" haviam
completado o ensino médio, mas muito poucos, de qualquer cor, continuaram estudando depois disso. Basicamente, são diferenças
de renda, com tudo que vem associado a elas, e não de cor, que limitam o acesso ao ensino superior.
Apresentadas como maneira de reduzir as desigualdades sociais, as cotas raciais não contribuem para isso, ocultam uma realidade trágica e
desviam as atenções dos desafios imensos e das urgências, sociais e educacionais, com os quais se defronta a nação. E, contudo, mesmo no
universo menor dos jovens que têm a oportunidade de almejar o ensino superior de qualidade, as cotas raciais não promovem a igualdade,
mas apenas acentuam desigualdades prévias ou produzem novas desigualdades:
• As cotas raciais exclusivas, como aplicadas, entre outras, na Universidade de Brasília (UnB), proporcionam a um candidato definido como
"negro" a oportunidade de ingresso por menor número de pontos que um candidato definido como "branco", mesmo se o
primeiro provém de família de alta renda e cursou colégios particulares de excelência e o segundo provém de família de baixa renda
e cursou escolas públicas arruinadas. No fim, o sistema concede um privilégio para candidatos de classe média arbitrariamente
classificados como "negros".
• As cotas raciais embutidas no interior de cotas para candidatos de escolas públicas, como aplicadas, entre outras, pela Universidade Estadual do
Rio de Janeiro (UERJ), separam os

alunos proveniente de famílias com faixas de renda semelhantes em dois grupos "raciais" polares, gerando uma
desigualdade" natural" num meio caracterizado pela igualdade social.
O seu resultado previsível é oferecer privilégios para candidatos definidos arbitrariamente como "negros" que cursaram escolas públicas
de melhor qualidade, em detrimento de seus colegas definidos como "brancos" e de todos os alunos de escolas públicas de
pior qualidade.
A PNAD de 2006 informa que 9,41 milhões de estudantes cursavam o ensino médio, mas apenas 5,87 milhões freqüentavam o ensino superior, dos quais só
uma minoria de 1,44 milhão estavam matriculados em instituições superiores públicas.
As leis de cotas raciais não alteram em nada esse quadro e não proporcionam inclusão social.
Elas apenas selecionam "vencedores" e "perdedores", com base num critério altamente subjetivo e intrinsecamente
injusto, abrindo cicatrizes profundas na personalidade dos jovens, naquele momento de extrema fragilidade que significa a disputa,
ainda imaturos, por uma vaga que lhes garanta o futuro.
Queremos um Brasil onde seus cidadãos possam celebrar suas múltiplas origens, que se plasmam na criação de uma cultura nacional aberta
e tolerante, no lugar de sermos obrigados a escolher e valorizar uma única ancestralidade em detrimento das outras.
O que mobiliza esses setores sociais não é o combate à doutrina de ações afirmativas, quando entendidas como esforço para cumprir as Declarações
Preambulares da Constituição, contribuindo na redução das desigualdades sociais, mas a manipulação dessa doutrina com o propósito de racializar
a vida social no país.
As leis que oferecem oportunidades de emprego a deficientes físicos e que concedem cotas a mulheres nos partidos políticos são invocadas
como precedentes para sustentar a admissibilidade jurídica de leis raciais.
Esse segundo sofisma é ainda mais grave, pois conduz à naturalização das raças. Afinal, todos sabemos quem são as mulheres e os deficientes físicos,
mas a definição e delimitação de grupos raciais pelo Estado é um empreendimento político que tem como ponto de partida a negação
daquilo que nos explicam os cientistas.
Raças humanas não existem. A genética comprovou que as diferenças icônicas das chamadas "raças" humanas são características físicas
superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 25 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos
níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de 10 genes!
Uma postura coerente e desejável seria a construção de uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada
e celebrada.
Temos de assimilar a noção de que a única divisão biologicamente coerente da espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um punhado
de raças.
Não foi a existência de raças que gerou o racismo, mas o racismo que fabricou a crença em raças.
O "racismo científico" do século XIX acompanhou
a expansão imperial européia na África e na
Ásia, erguendo um pilar "científico" de sustentação da ideologia da "missão civilizatória" dos
europeus, que foi expressa celebremente como o "fardo do homem branco".
Os poderes coloniais, para separar na lei os colonizadores dos nativos,
distinguiram também os nativos entre si e inscreveram essas distinções nos
censos. A distribuição de privilégios
segundo critérios etno-raciais
inculcou a raça nas consciências e na vida política, semeando
tensões
e
gestando conflitos que ainda perduram.
Na África do Sul, o sistema do
apartheid separou os
brancos dos demais e foi adiante, na sua lógica implacável, fragmentando todos os "não-brancos" em
grupos étnicos
cuidadosamente delimitados.
Em Ruanda, no Quênia e em tantos outros lugares, os africanos foram submetidos a meticulosas classificações étnicas, que
determinaram acessos diferenciados aos serviços e empregos públicos.
A produção política da raça é um ato político que não demanda diferenças de
cor da pele.
O racismo contamina profundamente as sociedades quando a lei sinaliza às
pessoas que elas pertencem a determinado grupo racial – e que seus direitos
são afetados por esse critério de pertinência de raça.
Nos Estados Unidos,
modelo por excelência das políticas de cotas raciais, a abolição da
escravidão foi seguida pela produção de leis raciais baseadas na regra da
"gota de sangue única". Essa regra, que é a negação da mestiçagem biológica
e cultural,
propiciou a divisão da sociedade em guetos legais, sociais,
culturais e espaciais.
De acordo com ela, as pessoas são, irrevogavelmente,
"brancas" ou "negras".
Eis aí a inspiração das leis de cotas raciais no Brasil.
"Eu tenho o sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação
na qual não serão julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo de seu
caráter". Há 45 anos, em agosto, Martin Luther King abriu um horizonte
alternativo para os norte-americanos, ancorando-o no "sonho americano" e no
princípio político da igualdade de todos perante a lei, sobre o qual foi
fundada a nação. Mas o desenvolvimento dessa visão pós-racial foi
interrompido pelas políticas racialistas
que, a pretexto de reparar injustiças, beberam na fonte envenenada da regra da
"gota de sangue única".
De lá para cá, como documenta extensamente Thomas Sowell em Ação afirmativa
ao redor do mundo: um estudo empírico (Univer Cidade, 2005), as cotas
raciais nos Estados Unidos não contribuíram em nada para reduzir
desigualdades mas aprofundaram o cisma racial que marca
como ferro em brasa a sociedade norte-americana.

"É um impasse racial no qual estamos presos há muitos anos", na constatação
do Presidente
Barack Obama, que
retoma o fio perdido depois do
assassinato de Martin Luther King.
Mesmo assim, algo se move nos Estados Unidos. Há pouco, repercutindo um
desencanto social bastante generalizado com o racialismo, a Suprema Corte
declarou inconstitucionais as políticas educacionais baseadas na aplicação
de rótulos raciais às pessoas.
No seu argumento, o presidente da Corte, escreveu que "o caminho para acabar com a discriminação
baseada na raça é acabar com a discriminação baseada na raça".
Há um sentido claro na reiteração: a inversão do sinal da discriminação consagra a raça no
domínio da lei, destruindo o princípio da cidadania.
Nos censos do IBGE, as informações de raça/cor abrigam a mestiçagem e recebem tratamento
populacional. As leis raciais no Brasil são algo muito diferente: elas têm o
propósito de colar "um rótulo que um indivíduo é impotente para mudar" e, no
caso das cotas em concursos vestibulares, associam nominalmente cada jovem
candidato a uma das duas categorias "raciais" polares, impondo-lhes uma
irrecorrível identidade oficial.
No Brasil, difunde-se a promessa sedutora de redução gratuita das
desigualdades por meio de
cotas raciais para ingresso nas universidades.
Nada pode ser mais falso: as cotas raciais proporcionam privilégios a uma
ínfima minoria de estudantes de classe média e conservam intacta, atrás de
seu manto falsamente inclusivo, uma estrutura de ensino público arruinada.
Há um programa inteiro de restauração da educação pública a se realizar, que
exige políticas adequadas e vultosos investimentos. É preciso elevar o
padrão geral do ensino mas, sobretudo, romper o abismo entre as escolas de
qualidade, quase sempre situadas em bairros de classe
média, e as escolas devastadas das periferias urbanas, das favelas e do meio rural.
O direcionamento prioritário de novos recursos para esses espaços de pobreza beneficiaria jovens de baixa renda de todos os
tons de pele – e, certamente, uma grande parcela daqueles que se declaram "pardos" e "pretos".
A meta nacional deveria ser proporcionar a todos um ensino básico de qualidade e oportunidades verdadeiras de acesso à universidade.
Mas há iniciativas a serem adotadas, imediatamente, em favor de jovens de baixa renda de todas as cores que chegam aos umbrais do ensino
superior, como a oferta de cursos preparatórios gratuitos e a eliminação das taxas de inscrição nos
exames vestibulares das universidades públicas.

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Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o Programa de Cursinhos Pré-Vestibulares Gratuitos, destinado a alunos egressos de escolas
públicas, a tendeu em 2007 a 3.714 jovens, dos quais 1.050 foram aprovados em concursos vestibulares, sendo 707 em universidades públicas.
Medidas como essa, que não distinguem os indivíduos segundo critérios raciais abomináveis,
têm endereço social certo e contribuem efetivamente para a amenização das desigualdades.
A sociedade brasileira não está livre da chaga do racismo, algo que é evidente no cotidiano das pessoas com tom de pele menos claro, em
especial entre os jovens de baixa renda.
A cor conta, ilegal e desgraçadamente, em incontáveis processos de admissão de funcionários.
A discriminação se manifesta de múltiplas formas, como por exemplo na hora das incursões policiais em bairros periféricos ou nos
padrões de aplicação de ilegais mandados de busca coletivos em áreas de favelas.
Por certo existe preconceito racial e racismo no Brasil, mas o Brasil não é
uma nação racista.
Depois da Abolição, no lugar da regra da "gota de sangue
única", a nação brasileira elaborou
uma identidade amparada na idéia anti-racista de mestiçagem e produziu leis que
criminalizam o racismo.
Há sete décadas, a República não conhece movimentos racistas organizados ou
expressões significativa de ódio racial. O preconceito de raça, acuado,
refugiou-se em expressões oblíquas envergonhadas, temendo assomar à
superfície.
A percepção da mestiçagem, que impregna profundamente os brasileiros, de
certa forma reflete realidades comprovadas pelos estudos genéticos.
Uma
investigação já célebre sobre a ancestralidade de brasileiros classificados
censitariamente como "brancos", conduzida por Sérgio Pena e sua equipe da
Universidade Federal de Minas
Gerais, comprovou cientificamente a
extensão de nossas miscigenações.
"Em resumo, estes estudos filo geográficos com
brasileiros brancos revelaram que a imensa
maioria das patrilinhagens é
européia, enquanto a maioria das matrilinhagens (mais de 60%) é ameríndia ou
africana" (PENA, S. "Pode a genética definir
quem deve se beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas?".
Estudos sobre a análise do DNA mitocondrial, que serve como
marcador de ancestralidades maternas, mostrou que 33% das linhagens eram de
origem
ameríndia, 28% de origem africana e 39% de origem européia.
Os estudos de marcadores de DNA permitem concluir que, em 2000, existiam
cerca de 28
milhões
de afro descendentes entre os 90,6 milhões de brasileiros
que se declaravam "brancos"
e que,
entre os 76,4 milhões que se declaravam "pardos" ou "pretos", 20% não tinham ancestralidade africana.
Não é preciso
ir adiante para perceber que não é legítimo associar cores de pele a
ancestralidades e que as operações de identificação de "negros" com
descendentes de escravos
e com "afro descentes" são meros exercícios da
imaginação ideológica.
A violência não se circunscreve à esfera intelectual. As leis de cotas
raciais são veículos de
uma engenharia política de fabricação ou recriação de raças. Se, individualmente, elas produzem injustiças singulares,
socialmente têm o poder de gerar "raças oficiais", por meio da divisão dos
jovens estudantes em duas raças polares.
Como, no Brasil, não sabemos quem
exatamente é "negro" e quem é "não-negro", comissões de certificação racial
estabelecidas pelas universidades se encarregam de traçar uma fronteira.
A
linha divisória só se consolida pela validação oficial da auto
declaração dos
candidatos, num processo sinistro em que comissões universitárias investigam
e deliberam sobre a "raça
verdadeira" dos jovens a partir de exames de
imagens fotográficas
ou de entrevistas identitárias.
No fim das contas, isso
equivale ao cancelamento do princípio da auto
declaração e sua
substituição
pela atribuição oficial de identidades raciais.
Na UnB, uma comissão de certificação racial composta por professores e
militantes do
movimento negro chegou a separar dois irmãos gêmeos idênticos
pela fronteira da raça.
No Maranhão, produziram-se fenômenos semelhantes. Pelo Brasil afora, os mesmos
candidatos foram
certificados como "negros" em
alguma universidade mas descartados
como
"brancos" em outra.
A proliferação das leis de cotas raciais demanda a produção de uma classificação racial
geral e uniforme. Esta é a lógica que conduziu o MEC a implantar declarações
raciais nominais e obrigatórias no ato de matrícula de todos os alunos do
ensino fundamental do país.
O horizonte da trajetória de racialização promovida pelo Estado é o estabelecimento de um
carimbo racial compulsório nos documentos de identidade de todos os brasileiros.
A história está repleta de barbaridades inomináveis cometidas sobre a base de carimbos
raciais oficialmente impostos.
A propaganda cerrada em favor das cotas raciais assegura-nos que os
estudantes universitários cotistas exibem desempenho similar ao dos demais.
Os dados concernentes ao tema são esparsos, contraditórios e pouco
confiáveis. Mas isso é essencialmente irrelevante, pois a crítica informada
dos sistemas de cotas nunca afirmou que estudantes cotistas seriam incapazes
de acompanhar os cursos superiores ou que sua presença provocaria queda na
qualidade das universidades.
As cotas raciais não são um distúrbio no ensino superior, mas a face mais visível de uma
racialização oficial das relações sociais que ameaça a coesão nacional.
A crença na raça é o artigo de fé do racismo. A fabricação de "raças
oficiais" e a distribuição seletiva de privilégios segundo rótulos de raça
inocula na circulação sanguínea da sociedade o veneno do racismo, com seu
cortejo de rancores e ódios. No Brasil, representaria uma revisão radical de
nossa identidade nacional e a renúncia à utopia possível da universalização
da cidadania efetiva.
Ao julgar as cotas raciais, o STF não estará deliberando sobre um método de
ingresso nas universidades, mas sobre o significado da nação e a natureza da
Constituição.
Leis raciais não ameaçam uma "elite branca", conforme
esbravejam os racialistas, mas passam
uma fronteira
brutal no meio da maioria absoluta dos brasileiros.
Essa linha divisória atravessaria as salas de aula das escolas públicas, os ônibus que conduzem
as pessoas ao trabalho, as ruas e as casas dos bairros pobres.
Neste início de terceiro milênio,
um Estado racializado estaria dizendo aos cidadãos que a utopia
da igualdade
fracassou – e que, no seu lugar, o máximo que podemos almejar é uma trégua
sempre provisória entre nações separadas pelo precipício intransponível das
identidades raciais.
É esse mesmo o futuro que queremos?
Fonte
Postado por Simon Schwartzman no Simon's Blog em 4/30/2008 09:02:00 PM
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Fontes
Yudith Rosenbaum é professora de literatura brasileira na USP
(Universidade de São Paulo) e colaboradora da Folha
http://www.amoliteratura.hpg.com.br/angustia.htm
http://www.graciliano.com.br/ |
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