Escrito em primeira pessoa e chamado pelo autor de “Crônica de saudades”,
O Ateneu,
ultrapassa essa dimensão auto biográfica por sua qualidade literária.
Classifica-se como um “romance de
formação”, isto é, um romance que narra a passagem da mente infantil para a
adulta, e tem como mola propulsora, como fio de meada, a memória de Sérgio,
o narrador-personagem.
O Ateneu apóia-se numa experiência colegial. Já adulto, ele relata,num tom
de pessimismo, os episódios emocionalmente mais marcantes, mais
traumatizantes, vividos no Ateneu,um internato para meninos, ao longo dos
dois anos em que foi aluno do Ateneu, constituindo um registro amargo dessa
época escolar.
A excelência da escola, dirigida pelo severo pedagogo Aristarco Argolo de
Ramos, no Rio de Janeiro, era conhecida nacionalmente. Por isso, tinha em
suas classes alunos provenientes de respeitáveis famílias cariocas e também
de outros estados.
Tendo por tema central o drama da solidão, o desajuste do indivíduo num
ambiente que lhe é hostil. O Ateneu compõe-se de doze capítulos que se
assemelham a uma sucessão de quadros, não subordinados necessariamente entre
si.
Mais do que relatar episódios acontecimentos ou ações, tais quadros relatam
as impressões, as sensações que deixaram na alma Sérgio, seja em suas
tentativas inúteis e mal-sucedidas de encontrar amigos, seja no amor
platônico que dedica a Ema, a esposa de Aristarco.
Essas duas faces da obra – a de desenvolvimento do interior do
narrador-personagem e a de denúncia de todo um sistema educativo – são
exemplos de como se reúnem tendências literárias opostas, pode-se dizer
conflitantes: de um lado a tendência impressionista (e podemos acrescentar
expressionista, simbolista, na medida em que convivem) e, de outro, uma tese
a ser defendida,
bem à moda naturalista.
Surgido pela primeira vez em 1888, no Gazeta de Notícias, O Ateneu é um dos
romances mais curiosos da Literatura Brasileira, pois escapa a qualquer
classificação rígida de periodização literária.
A data de sua publicação o coloca no Realismo. De fato, possui fortes
afinidades com tal escola,
já que apresenta uma característica marcante desse momento estético: a
preocupação em criticar
a sociedade num tom perpassado de pessimismo. No entanto, há inúmeros
desvios que o
impedem de ser um romance puramente realista.
Em primeiro lugar, deve-se lembrar que a obra é memorialista. Seu narrador,
Sérgio, apresenta
suas memórias de infância e adolescência num colégio interno chamado Ateneu.
Assim, o foco narrativo em primeira pessoa impede a tão valorizada
objetividade e imparcialidade do
Realismo-Naturalismo.
Além disso, não se deve esquecer que Sérgio é o alter-ego, ou seja, um outro
“eu” de Raul Pompéia. Em outras palavras, o narrador recebe a personalidade
e também as memórias do autor, já que este também estudou num internato, o
Colégio Abílio, do Rio de Janeiro.
Mais uma vez, carrega-se nas tintas do pessoalismo.
Reforça ainda mais essa subjetividade a forte aproximação que O Ateneu
estabelece com outra escola literária, o Impressionismo.
De fato, obedecendo a esse estilo, não há o relato exato e documental de
fatos do passado.
Raul Pompéia encaminha-se inúmeras vezes para a fixação de um momento, de um
clima, de uma atmosfera perdida no passado. Ao invés de contar uma história,
muitas vezes preocupa-se em
relatar uma seqüência de impressões, sensações subjetivas que marcaram o
narrador a ponto de atravessar o tempo e serem os elementos mais nítidos de
sua memória.
No entanto, quando se mostra finca nos postulados realistas, o romance
mostra um poder de
crítica bastante eficaz e tudo de forma criativa, pois se faz por meio de um
jogo entre o microcosmo (escola) e o macrocosmo (sociedade). Ou seja, a
escola é um reflexo da sociedade, bastando para o autor, portanto, para
criticar esta, apenas descrever as relações que se estabelecem naquela.
O ataque mais chamativo se estabelece em relação ao sistema educacional,
representado na
figura do Dr. Aristarco, diretor e dono do colégio. Além de ele se mostrar
alguém bastante vaidoso, egocêntrico e autoritário, dotado de uma linguagem
altissonante e retórica (já que a moralidade e
a firmeza de caráter que anuncia em sua escola de fato não se realizam),
chama a atenção a
confusão que estabelece entre escola e empresa.
Magistral é o primeiro capítulo na realização dessa crítica. Vê-se um
narrador que, abusando da ironia, apresenta Aristarco preocupado em pintar o
colégio como um negociante preocupado com
as aparências de sua venda ou mercearia. Não é à toa que o vocabulário usado
nesses trechos é típico de estabelecimentos comerciais. Ademais, o
tratamento dado aos alunos é diferenciado
muitas vezes pelo poder econômico.
Além disso, avassaladora é a descrição do diretor dedicando parte do dia ao
livro de
contabilidade da escola.
Note, por fim, como o vocabulário pomposo e retumbante
vai-se opor à decadência que grassa na escola, o que reforça
a hipocrisia dominante não só no colégio, mas na sociedade,
em que o ideal defendido mostra-se gritantemente diferente
do real praticado.
Pode-se ainda observar os métodos antiquados de pedagogia
(apesar da propaganda em
contrário), baseados na humilhação pública.
Ainda dentro do Realismo, há que se notar no romance sua
vinculação ao Naturalismo (um subconjunto da literatura
realista), principalmente na utilização de elementos que
denotam um
apego exagerado à sexualização. Destaca-se, numa visão que
em muito lembra a teoria freudiana,
o jogo entre implícito e explícito, declarado e escondido,
desejado e reprimido, e principalmente
entre masculino e feminino que muitas vezes resvala no
homossexualismo.
Nos primeiros dias de aula Sérgio recebe de seu colega de
sala, Rebelo, o conselho de que não deveria aceitar a
proteção de ninguém. É que a escola estava dividida entre os
meninos que protegiam, dotados, pois, de masculinidade, e os
meninos protegidos, frágeis, passivos e, assim, dotados do
que era entendido, no contexto do romance, como
feminilidade.
Apesar de avisado, o protagonista não consegue manter por
muito tempo a sua disposição por se impor no meio estudantil
, buscando logo a cômoda proteção de alguém mais velho.
Surge então Sanches. O problema é que esse rapaz, descrito
como baboso e fedido, demonstra outras intenções. Se ajuda
Sérgio na recuperação de seu desempenho escolar,
esmerando-se em aulas
particulares, exagera nas demonstrações afetivas, chegando
até a pedir que o
protagonista sentasse em seu joelho.
Não se deve deixar de notar aqui mais uma crítica à
hipocrisia. Sancho era um vigilante, aluno
que tinha a função de zelar pelo comportamento dos outros.
Além disso, era dos mais veementes defensores da “moral e
dos bons costumes”. E justamente ele assediava Sérgio, com
intenções nada benéficas.
É mais um choque que servirá para o duro amadurecimento do
protagonista – no sentido de
despir-se dos idealismos do primeiro capítulo e aceitar as
decepções e desencantos como
naturais de nossa existência.
Ainda dentro do aspecto freudiano está o complexo de Édipo,
apresentado numa forma mascarada. Tal se manifesta pela
relação de antipatia que se estabelece entre os alunos do
Ateneu e o diretor, que acaba se transformando na figura de
um pai. Dessa forma, sua esposa, D. Ema, por ser carinhosa e
muito protetora, acaba assumindo a função de mãe dos
estudantes. Essa afetividade acaba até se manifestando em
Sérgio, principalmente no final do romance, quando, doente,
é cuidado por ela.
Somando-se aos elementos realistas, naturalistas e
impressionistas, chamam a atenção em
O Ateneu as recaídas que o autor tem no rebuscamento da
linguagem, com subordinação
exagerada e inversões desnecessárias, o que lembra um pouco
o Parnasianismo.
Note como tal se manifesta no texto abaixo, início do
capítulo III:
Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa
prudência, enquanto aplicavam-se os
outros à peteca, eu me houvesse entregado ao manso labor de
fabricar documentos
autobiográficos, para a oportuna confecção de mais uma
infância célebre, certo não registraria,
entre os meus episódios de predestinado, o caso banal da
natação, de conseqüências, entretanto, para mim, e origem de
dissabores como jamais encontrei tão amargos.
Ou então na famosa abertura do romance
“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do
Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a
verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões
de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o
regime do amor doméstico, diferente do que
se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos
cuidados maternos um artifício
sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a
criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera
brusca da vitalidade na influência de um novo clima
rigoroso.
Não há como não enxergar positivamente a elaboração muitas
vezes poética da linguagem no romance, com um intenso
emprego de metáforas e outras figuras de linguagem.
No entanto, o autor por vezes perde a mão, dificultando
desnecessariamente a imediata compreensão do seu conteúdo.
Existe também em O Ateneu aspectos do Expressionismo, na
medida em que seu traço, principalmente nas descrições,
distorce a realidade por meio de caricaturas grotescas, que
resvalam pelo exagero. Note como isso se manifesta na
descrição que Sérgio faz dos
seus colegas de sala.
”Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma
variedade de tipos que me divertia.
O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos,
motilidade brusca e caretas de símio — palhaço dos outros,
como dizia o professor; o Nascimento, o bicanca, alongado
por um modelo
geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma
foice; o Álvares, moreno, cenho
carregado, cabeleira espessa e intensa de vate de taverna,
violento e estúpido, que Mânlio atormentava, designando-o
para o mister das plataformas de bonde, com a chapa numerada
dos recebedores, mais leve de carregar que a
responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro,
translúcido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que
se levantava para ir à pedra com um vagar lânguido de
convalescente (...)”
Em suma, a riqueza do estilo de Raul Pompéia, apresentando
elementos realistas, naturalistas, parnasianistas,
impressionistas e expressionistas, permite com que sua obra
O Ateneu fuja a
toda e qualquer padronização literária simplista. Torna-se,
pois, um dos momentos mais brilhantes
da Literatura Brasileira no século XIX.
Personagens Principais
As grandes personagens de O Ateneu são basicamente três:
1)
Sérgio: Segundo já ficou observado, Sérgio pode ser visto
de dois ângulos: como protagonista,
é um adolescente
inexperiente e tímido que é conduzido pelas mãos do pai para
fazer a
sua iniciação na escola da vida.
À medida que vai “crescendo dentro do mundo sombrio do
internato (e da vida), vai-se tornando amargo, céptico e
sarcástico: agora é o adulto Raul Pompéia quem certamente
fala pelo protagonista-narrador.
Sérgio é bem um símbolo do adolescente às voltas com o
doloroso aprendizado da vida; é a
criança perdendo a sua
pureza virginal, fazendo a sua iniciação no mundo podre e
carcomido
de hipocrisia dos adultos.
2)
Aristarco: Etimologicamente, o seu nome significa
“governante de melhores”. Revela-se, ao
longo do livro,
prepotente, autoritário, arrogante e vaidoso. Representa bem
o educador
tradicional com seus métodos rígidos de
disciplinas e com sua empáfia: “Acima de Aristarco,
Deus.
Deus tão-somente; abaixo de Deus, Aristarco”.
Aristarco, sem dúvida, representa bem, com seu colégio, o
mundo social com seus valores, bajulações, discriminações e
convenções. Afinal, o internato era um espelho da sociedade.
3)
Ema: Pode ser vista de dois ângulos: anagrama de mãe, na
qual o protagonista projeta a
figura de sua genitora com o
seu carinho, sua compreensão e a sua ternura; e mulher,
evocada
pela protagonista de Madame Bovary, de Flaubert,
cujo nome é também Ema.
Ao contrário da revelação marcada
pelo ódio com Aristarco, “Sérgio e Ema constituem a
história
de amor do romance”.
O relacionamento de Sérgio com ela é ambíguo, indo do
maternal ao erótico, como declara:
“Não! Eu não amara nunca
assim minha mãe”.
Representando bem a decadência moral que se quer mostrar,
destacam-se
Venâncio,
subserviente e bajulador de Aristarco;
Ângela, a canarina sensual, que costumava assistir ao banho
dos rapazes; e os colegas de
Sérgio com os quais o
protagonista mantém um relacionamento bastante estreito e
íntimo:
Sanches,
Bento Alves e
Egbert e ainda
Franco, mau
aluno, perseguido, vítima de discriminações,
e
América, o incendiário.
Estilo de Época
Em o Ateneu, podem-se detectar aspectos de vários estilos de
época, desde o Naturalismo
até o Modernismo.
1) Para Mário de Andrade, “O Ateneu representa um dos
aspectos mais altos do Naturalismo brasileiro”. Sem dúvida,
o estilo naturalista se manifesta no livro através das
descrições de
Ângela e na abordagem do homossexualismo que
se pode entrever nas relações de Sérgio com Sanches, Bento
Alves e Egbert. Muitas vezes, as personagens são descritas
nos seus aspectos bestiais e animalescos, priorizando-se o
seu lado instintivo, como é comum no Naturalismo.
Veja, por exemplo, a passagem abaixo, em que o narrador
(Sérgio) declara:
“A amizade de Bento Alves por mim, e a que nutri por ele, me
faz pensar que, mesmo sem o
caráter de abatimento que tanto
indignava ao Rebelo, certa efeminação pode existir como um
período de constituição moral. Estimei-o femininamente,
porque era grande, forte, bravo; porque
me podia valer;
porque me respeitava.” (Cap VI)
2) Além desses aspectos visivelmente naturalistas,
sobressaem na obra outros que filiam ao
estilo realista.
Como se pode perceber pela leitura de O Ateneu, Raul Pompéia
tende para a
crítica ferina e caricatural de pessoas e
instituições sociais; revela um pessimismo cético na visão
da sociedade; manifesta maior preocupação com a análise em
detrimento do enredo, razão por que
a narrativa é arrastada,
anda devagar; em suma, priorizando a análise dessecante e
profunda, o autor revela forte carga psicológica na
descrição das personagens.
Esses aspectos citados, como se sabe, configuram o Realismo
e estão bem presentes em O Ateneu. Como exemplo, veja-se a
visão de escola que o autor apresenta, com base no Ateneu,
onde tudo
é visto negativamente. A escola apresenta por
Pompéia é um verdadeiro antro de perdição, onde campeia a
bajulação, a vaidade, a discriminação, as injustiças, a
corrupção, as amizades perigosas...
Como diz o autor, “não é o internato que faz a sociedade; o
internato a reflete”. Quem chegou a
ver os filmes “Perfume
de Mulher” e “Sociedade dos Poetas Mortos” certamente dará
razão ao romancista.
3) Para Afrânio Coutinho, Raul Pompéia, após ter passado
pelo Realismo-Naturalismo, “só encontrou plena e
satisfatória expressão dentro dos cânones do
Impressionismo”, tendo tido a
nossa “primeira grande
repercussão” nesse estilo de época, que se destaca mais na
pintura.
Segundo o mesmo Afrânio Coutinho, “o mais importante no
Impressionismo é o instantâneo e
único, tal como aparece ao
olho do observador. Não é o objeto, mas as sensações e
emoções que
ele desperta, num dado instante,, no espírito do
observador, que é por ele reproduzido caprichosa
e
vagamente”. No Impressionismo, pois, o que importa são as
impressões, as sensações que
ficam, não os fatos
acontecidos: “no las cosas, sino la sensación de las cosas”.
Em O Ateneu, é aspecto preponderante a sensação visual,
olfativa e auditiva, Como observa o conhecido Prof. Luís
Carlos Maciel “em vez da relação causal exterior entre
indivíduos e acontecimentos, o que importa é a relação
interna evocada na mente do artista (...) É a vida
interior
em todos os seus mais requintados matizes que lhe interessa
retratar através de uma linguagem expressiva, colorida,
sonora, rica de imagens, onde sentimentos e sensações
suplantam os aspectos intelectuais”.
Como se vê, o Impressionismo aproxima-se do Simbolismo e
pode bem ser entendido como uma versão em prosa da estética
simbolista.
4) Outra tendência estilística que pode ser detectada em O
Ateneu é a modernista que se
manifesta através da postura
crítica assumida pelo autor, ao longo da obra. Com efeito,
embora
o seu estilo seja de feição acadêmica, o autor
critica e satiriza, como é comum no Modernismo,
o tom
retórico e verbalista da poesia parnasiana. Veja, por
exemplo, a passagem abaixo em que
o autor apresenta de forma
caricatural o Dr. Ícaro do Nascimento:
“Dentre as suíças, como um gorjeio do bosque, saía um belo
nariz alexandrino de dois
hemistíquios, artisticamente
longo, disfarçando o cavalete da cesura, tal qual os da
última moda
do Parnaso. À raiz do poético apêndice brilhavam
dois olhos vivíssimos, redondos, de coruja, como
os de
Minerva. Tão vivos ao fundo das órbitas cavas, que bem se
percebia ali como deve brilhar
o fundo na fisionomia da
estrofe”.
Dessa forma, com sua genialidade, Raul Pompéia antecipa o
Modernismo, podendo ser
visto como um dos precursores do
movimento que eclodiu em 1922, com a famosa
Semana da Arte
Moderna.
Linguagem
1) Como é próprio da época em que se enquadra Raul Pompéia a
linguagem se revela acadêmica, marcada pela correção e
obediência aos padrões gramaticais. É uma língua distante do
leitor moderno, mais afeito aos coloquialismos e à linguagem
informal do estilo modernista. Além de outras, o autor usa,
com freqüência, construções clássicas, hoje pouco comuns,
como a colocação apossinclítica do pronome (uso do pronome
átono antes de palavra tida como atrativa): “disse
que me
não interessavam as intrigas”.
2) Mais ou menos nessa linha, destaca-se a erudição do autor
revelada através de citações e referências clássicas, a que
o leitor de hoje está pouco acostumado. Veja, por exemplo, a
passagem abaixo, em que o autor perpassa o exceto de figuras
mitológicas: “Era mais que uma revelação temerosa do Olimpo;
era como se Júpiter mandasse Mercúrio catar à terra os raios
já disparados e os unisse ao estoque inavaliável dos
arsenais do Etna...”
3) Outro aspecto notório do estilo de Raul Pompéia é a
tendência para a adjetivação excessiva,
que se casa bem com
a atmosfera pictórica de feição impressionista que perpassa
o livro.
Quase sempre o substantivo vem acompanhado de adjetivo, como
revelam os excertos seguintes: “Ele, como um deus caipora,
triste, sobre o desastre universal de sua obra”. “Erigia-se
na
escuridão da noite como imensa muralha de coral flamante,
como um cenário animado de safira
com horripilações
errantes, de sombra, como um castelo fantasma batido de luar
verde
emprestado à selva imensa dos romances
cavalheirescos”.
4) Como já se entreviu pelas passagens transcritas, outra
tendência estilística do autor é para o símile (=
comparação), explicitada pela conjunção “como”, que Mario de
Andrade classificou de “mero cacoete retórico”: “No pátio o
silêncio dormia ao sol como um lagarto”: “As condecorações
gritavam-lhe no peito como uma couraça de gritos”: “As
mangueiras, como intermináveis
serpentes, insinuavam-se pelo
chão”.
5) Além do símile, o autor faz uso também, com muita
freqüência, de outras figuras de estilo,
como a hipérbole e
a metáfora: “Aristarco arrebentava de júbilo!” (hipérbole);
“O Ateneu é uma sementeira uma horta” (metáfora); “Um olhar
penetrante, adorador, de enlevo, que subia, que furava o céu
como a extrema agulha de um templo gótico” (hipérbole e
símile).
6) Conforme já observamos outro aspecto que se destaca no
estilo de Pompéia e combina a atmosfera impressionista é o
cromatismo (obsessão pela cor), ora tendendo para o vermelho
(“há sons brilhantes como a luz vermelha”, “trazia um ferro
na mão gotejando vermelho”);
ora para o branco (“ao fundo
daquelas altíssimas paredes do Ateneu, claras da caiação, do
tédio, claras, cada vez mais claras”).
Como observa o Prof. Luiz Carlos Maciel, “enquanto Machado
de Assis ou Euclides da Cunha
são prosadores em
preto-e-branco, ou em cores frias, Raul Pompéia revela, de
certo como
ninguém, em nossas letras, o sentimento da cor
luminosa e viva e a adesão à claridade”
Aspectos Temáticos Marcantes
1) A narrativa de O Ateneu é dominada por traços satíricos
e caricaturescos. É com essa visão amarga e caricatural que
o narrador vê o mundo retratado: a escola, os colegas, os
professores,
as instituições sociais. O retrato maior,
entretanto, é o de Aristarco, o diretor, fulminado, no final
do livro, pelo incêndio devorador, que destrói a sua
arrogância, a sua vaidade e a sua empáfia.
A análise empreendida pelo autor é profunda e dissecante –
vem de dentro, das entranhas.
O Ateneu, o microcosmo
apresentado, é bem um retrato da sociedade. Como se viu, é
um mundo
que se revela podre por dentro, carcomido nas suas
entranhas pelo cancro da hipocrisia e do
apego às
aparências. O livro de Raul Pompéia é uma crítica às
instituições humanas, destruídas
de valor e mascaradas por
superficialidades.
2) A escola, em O Ateneu, é vista como um reflexo da
sociedade, conforme já ficou observado
neste trabalho (“Não
é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete”).
Nela sobressaem
os casos de corrupção, deslealdade, amizades
perigosas, homossexualismo e outras degenerescências
sociais.
Esse antro de perdição, contudo, vem mascarado por
aparências e exterioridades que camuflam
a verdade. Desviada
da sua verdadeira função – formar e instruir – a escola
acaba-se tornando
um meio de se exteriorizar a vaidade e a
empáfia daqueles que detêm o poder, como nos filmes criados
neste estudo – “Sociedade dos Poetas Mortos” e “Perfume de
Mulher”.
3) Por outro lado, O Ateneu mostra o doloroso e pungente
aprendizado da vida pela criança.
A cena inicial, em que o
pai deixa o filho à porta do Ateneu, é bm um símbolo do
ingresso da
criança no mundo adulto: “Vais encontrar,
disse-me meu pai, à porta do Ateneu.
Coragem para a luta”.
Assim, arrebatada da “estufa de carinho que é o regime do
amor doméstico”, a criança se vê
frágil e indefesa diante
das hostilidades do mundo, à merece de “educadores” que lhe
impõem a camisa-de-força das convenções sócias, marcadas
pela mentira e superficialidade. Violentada, desses embates
quase sempre restam lágrimas, dor e sofrimento.
4) Dessa forma, o sentimento de vingança acaba-se
instalando, sub-repticiamente, nas cabeças
em formação. A
necessidade de libertação desse mundo de opressão, que rouba
a liberdade de
ação e a espontaneidade dos gestos, é uma
conseqüência natural e lógica: a catarse é uma
válvula que descomprime, liberta e alivia.
E é assim que termina O Ateneu – com vingança do ser
violentado contra o mundo que o oprime:
o incêndio, ao
final, é bem um protesto contra a violência a hipocrisia e
esse mundo de aparências construído pelos homens da Terra.