aos vícios do mundo, embora
saibam-nos vazios e pouco compensadores, outros se entregam a
uma fé estóica.
Determinismo e Individualidade Neste ligeiro ensaio não
se pretende apontar qualquer tipo de determinismo social na obra de
Lygia Fagundes Telles, pretende-se apenas realçar a influência que o meio
desempenha em cada pessoa, bem como a luta personalíssima que cada um deve
travar para afirmar-se em uma como
ente autônomo dentro de uma Comunidade, mormente como a nossa, que almeja
cada vez mais
ser Universal e, com isto, desrespeitando o que possa haver de traços
particulares dentro do ser, embora inexplicavelmente destrate quem não os
apresente.
Parte do encanto da autora vem exatamente de sua fina argúcia para este
desabrochar da personalidade, tema tão bem tratado em cada um de seus
romances.
Suas personagens parecem manter uma conduta condizente com seu papel na
Sociedade.
Vestem a máscara social que lhes cabem e atual coerentemente com esta
identidade pela qual
são conhecidas. Em suma, não se desvencilham daquilo que Jung chama de
persona, entendido
como conjunto de atitudes que se espera de alguém que represente dada função
dentro da Coletividade. Contudo, os personagens de Lygia Fagundes Telles ,
não obstante este aparente comportamento até estereotipado, mantém vida
interior das mais intensas e expressão desta
vida e desta intensidade é o que empresta o qualificativo grande ao
denominativo escritora que Lygia Fagundes Telles merecidamente ostenta.
..........
A história de Virgínia e suas irmãs se passa numa época em que as mulheres
se vestiam com sobriedade, usavam luvas e chapéu para ir ao centro da cidade
tomar chá com as amigas e olhar
as vitrines. No entanto, o primeiro romance de Lygia Fagundes Telles,
escrito em 1954, é uma
obra atual e tem tudo a ver com os dias de hoje pois trata de temas
recorrentes da obra da
escritora, como o amor, a morte, a fragilidade da alma humana, a solidão, a
loucura, a crueldade
e o sonho, todos muito bem explorados pela narrativa viva e sensível de
Lygia.
Na verdade, Lygia baseou-se num fato real para escrever Ciranda de pedra.
Numa de suas caminhadas a pé, passou em frente a um casarão que estava sendo
demolido. Ela entrou, passeou pelos cômodos vazios e encantou-se com uma
fonte cercada por anões de pedra, a mesma que descreve no livro. E imaginou
os dramas que se desenrolaram naqueles jardins, as tristezas e alegrias que
envolveram os antigos habitantes daquela casa.
Ciranda de pedra conta justamente a história de uma família que se
desagregou com a separação
dos pais. Uma das filhas, Virginia, fica morando com a mãe doente e o
segundo marido dela,
numa casa pequena e desconfortável. As outras duas meninas acompanham o pai,
que mora num casarão cercado de riqueza e conforto. As personagens do livro
são apanhadas em situações aparentemente banais, que fazem parte da vida de
qualquer pessoa. Há, no entanto, algo que as desintegra e as vai desnudando
até que mostrem suas fragilidades, seus medos, suas loucuras.

Romance clássico, best-seller nacional, Ciranda de pedra teve adaptação para
TV em 1981
e revelou Lygia Fagundes Telles como uma das mais representativas expressões
da moderna ficção brasileira.
Enredo
O livro, que basicamente conta a história de Virgínia, estabelece em duas
etapas, o trajeto cheio
de conflitos da vida da menina, desde a infância até os vinte anos de idade.
Virgínia tem uma infância solitária; filha de um casal separado, é obrigada
a dividir-se entre
dois ambientes familiares que contrastam radicalmente: Laura e Natércio.
Virgínia vive com Laura, sua mãe, separada do marido, Natércio - advogado
convencional,
severo, seco de gestos e de afeto. Sua infância é marcada pela tristeza e
solidão.
Quando da separação, Laura foi viver em casa de Daniel, seu antigo médico,
levando
consigo Virgínia.
Em casa de Daniel, Laura conta com Luciana, empregada antiga e dedicada,
para os cuidados
tanto do dia-a-dia doméstico, quanto para com Virgínia, que é ainda muito
jovem.
Luciana exerce grande influência no espírito da menina. Laura, já muito
doente, tem seu estado
de saúde agravado, apesar de todos os cuidados e desvelo que Daniel concede
a ela, inclusive recorrendo a todos os seus recursos financeiros para as
despesas de saúde que exigem o estado
de sua querida paciente. Sendo assim, a infância de Virgínia é marcada por
grandes dificuldades:
de um lado, as financeiras que não permitem à menina realizar pequenos
desejos e sonhos
(trocar a mobília, por exemplo), posto que todos os recursos de Daniel são
voltados
principalmente para os cuidados com sua mãe; de outro lado, a solidão em que
vive e o
profundo sentimento de rejeição pois ela não se sente aceita sequer na casa
de Natércio por
ocasião das visitas semanais que lhe faz.
Estes sentimentos e conflitos nos são apresentados quando vamos
conhecendo detalhes como o
fato de Virgínia possuir duas irmãs, Bruna e Otávia que vivem em companhia
do pai, Natércio, advogado conceituado que desfruta de bons recursos
econômicos, conseqüentemente vivendo
estas últimas em condições (econômicas) mais confortáveis que Virgínia (que,
entre outras coisas, usa roupas reformadas da mãe, ou das irmãs, bem como os
móveis de seu quarto, que são
"sobras" do quarto reformado de Otávia).
Seu sofrimento e amargura se afloram tanto mais quando de suas visitas à
casa de Natércio,
muito grande e bonita, com vasto jardim onde existe uma ciranda de anões de
pedra com uma
fonte,
local que ela costuma com freqüência visitar. Mas, apesar da ciranda de
anões que ela ama, Virgínia sente-se muito desconfortável na presença das
irmãs que a hostilizam e nas quais ela só vê qualidades, enquanto que ela,
Virgínia,
ao seu modo de ver, só tem defeitos. Sente-se desconfortável também por não
conseguir de Natércio, gestos de carinho e afeto de que ela tanto necessita
e
que ele não oferece, posto que é um homem muito convencional e severo.
Angústia e solidão. São estes os sentimentos que Virgínia conhece quer na
casa de Natércio
quer na casa de Daniel. Nesta última, a menina não pode sequer aproximar-se
da mãe pois
esta tem raros momentos de lucidez e encontra-se em estado físico e mental
bastante precários.
Distante também é seu relacionamento com Daniel, com quem até hesita em
alguns momentos,
entre o desejo de ter alguma atitude mais afetuosa, porém recuando sempre,
na dúvida de
como seria recebido seu gesto.
O sonho de Virgínia, nessa época, se resume entre o desejo de ir morar com o
pai e as
irmãs, e, o que seria a realização máxima, a recuperação de sua mãe com o
conseqüente retorno
das duas para aquela casa e a família novamente reunida. Porém, o estado de
saúde de Laura se agrava, fazendo com que Virgínia realize parte de seu
sonho: ela volta a morar naquela casa, passando a conviver com as irmãs,
Bruna e Otávia, com Fraulein Herta (a governanta), e os
amigos Conrado (por quem é apaixonada), Letícia (irmã de Conrado) e Afonso.
No momento em que Virgínia volta a morar naquela casa, ela se dá conta de
que aquele
ambiente familiar com o qual ela sonhava, era uma ilusão. Sentindo-se
rejeitada pelas irmãs que criticam a mãe por ter-se separado do pai, e sem
receber de Natércio o afeto, apoio e carinho
que esperava, a menina percebe que não há lugar para ela nesse fechado
círculo. Compara a
ciranda de anões de pedra do jardim, que era sua paixão, com o grupo tão
fechado formado
por Bruna, Otávia, Afonso, Letícia e Conrado.
É nesse conflito de sensações que, duas semanas após a sua chegada àquela
casa, Virgínia
recebe a notícia da morte da mãe, seguida do suicídio de Daniel. É também
nessa circunstância
que Luciana (que era apaixonada por Daniel), num momento de profunda dor,
revela à menina, durante uma visita, que Daniel era seu verdadeiro pai.
Sente-se, então, mais sozinha do que
nunca e, dando-se conta que jamais seria aceita no grupo, da maneira que
desejava, pede a
Natércio que a interne no colégio, pedido este que é por ele aceito.
A segunda parte do romance tem início com uma Virgínia já adulta deixando o
colégio e
voltando para a casa de Natércio. Acreditando que já havia superado todas as
suas angústias
chega àquela casa, mas não demora a perceber que o grupo continua fechado:
uma ciranda de
pedra mais rígida que nunca. Bruna, ainda mais moralista, havia se casado
com Afonso. Otávia, alienada, dedicava-se à pintura e a alguns amantes
ocasionais. Natércio, envelhecido, já não trabalhava mais. Frau Herta estava
doente, só e abandonada em um cômodo sujo e pobre de um bairro afastado.
Letícia, agora, dedicava-se ao esporte: uma tenista premiada e que se
interessava apenas por mulheres. Por fim, Conrado, seu grande amor de
infância, amor que
ardia ainda em seu coração, vivia isolado, recuado, com sérios problemas
sexuais.
O retorno de Virgínia ao convívio com o círculo familiar reabriu-lhe as
antigas feridas.
Mas é neste momento também que ela percebe a real face de cada componente da
ciranda, suas fraquezas, suas amarguras. Cada máscara se rompe. Ela se dá
conta do que, na verdade, se
escondia por trás daquela hostilidade e rejeição: ela era desejada por todos
ao mesmo tempo e,
por isso, temida. Aos poucos, então, vai-se apresentando uma Virgínia mais
amadurecida e forte, independente e segura. Ela abandona, por fim, as
tentativas de sua entrada nesse círculo fechado, decidindo-se por uma longa
viagem, sem perspectiva de volta. Não mais a ciranda de pedra, não mais o
desejado jardim, não mais os sonhos. Nem mesmo Conrado. Tudo havia ficado no
passado. Mas, como uma rocha, em suas lembranças estaria gravado. "...um
dia, um besouro caiu de costas.
E besouro que cai de costas não se levanta nunca mais".
Biografia
Lygia Fagundes Telles, advogada, contista e romancista, nasceu em São Paulo,
SP, em 19 de
abril de 1923. Eleita em 24 de outubro de 1985 para a Cadeira
n. 16, sucedendo a Pedro Calmon,
foi recebida em 12 de maio de 1987, pelo
acadêmico Eduardo Portella.
Filha do magistrado Durval de Azevedo Fagundes e de Maria do Rosário de
Azevedo Fagundes,
passou a maior parte da infância em cidades do interior do
Estado onde seu pai foi
delegado e promotor público. Formou-se na Escola
Superior de Educação Física e,
a seguir, ingressou na Faculdade de Direito
de São Paulo. Ali participou ativamente
da vida literária universitária,
integrando a comissão de redação das revistas
Arcádia e XI de Agosto.
Casou-se com o professor Goffredo da Silva Telles Júnior. Desse casamento
tem um filho,
Goffredo da Silva Telles Neto, cineasta. Foi casada depois com
o professor e escritor Paulo
Emílio Salles Gomes, fundador da Cinemateca
Brasileira, falecido em 1977.
Como funcionária pública, veio a ser Procuradora do Estado. Foi presidente
da Fundação Cinemateca Brasileira em São Paulo durante quatro anos e também
vice-presidente da União Brasileira de Escritores.
Começou a escrever contos ainda adolescente. Estava na Faculdade quando seu
livro Praia viva
foi publicado em 1944. Em 1949, seu volume de contos O
cacto vermelho recebeu o Prêmio
Afonso Arinos da Academia Brasileira de
Letras. Mais tarde, porém, a autora rejeitou seus primeiros escritos, por
considerá-los imaturos e precipitados.
Segundo o professor Antônio Cândido, seu romance Ciranda de pedra, publicado
em 1954,
seria o marco da sua maturidade intelectual. Sua obra tem merecido
a melhor crítica no Brasil
e no exterior, com livros publicados com grande
sucesso. A presença de Lygia Fagundes Telles
na vida literária brasileira é
constante também pela sua participação em congressos, debates e seminários.
Pela sua obra literária recebeu diversos prêmios: Prêmio Afonso Arinos da
Academia
Brasileira de Letras (1949); Prêmio do Instituto Nacional do Livro
(1958); Prêmio Boa Leitura (1964); Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do
Livro (1965); Prêmio do I Concurso Nacional
de Contos do Governo do Paraná
(1968); Prêmio Guimarães Rosa da Fundepar (1972); Prêmio Coelho Neto da
Academia Brasileira de Letras (1973); Prêmio Ficção, da Associação Paulista
dos Críticos de Arte (1974 e 1980); Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do
Livro (1974);
Prêmio do Pen Clube do Brasil (1977); Prêmio II Bienal Nestlé
de Literatura Brasileira Contos (1984), e Prêmio Pedro Nava, o Melhor Livro
do Ano (1989).
Obras
Ciranda de pedra, romance (1954);
Histórias do desencontro, contos (1958);
Verão no aquário, romance (1963);
Histórias escolhidas, contos (1964);
O jardim selvagem, contos (1965);
Antes do baile verde, contos (1970);
Seminário dos ratos, contos (1977);
Filhos pródigos, contos (1978);
A disciplina do amor, fragmentos (1980);
Mistérios, contos (1981);
As horas nuas, romance (1989);
A estrutura da bolha de sabão, contos (1991);
A noite escura e mais eu, contos (1995).
Escreveu, em parceria com Paulo Emílio Salles Gomes, o livro
Capitu, adaptação livre
do romance Dom Casmurro (1993).
Fontes de Referências
http://www.rocco.com.br/shopping/ExibirLivro.asp?Livro_ID=85-325-0815-4
http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Modernismo45/Lygia_F_Telles_ Ciranda_de_Pedra_resumo.htm
http://www.releituras.com/lftelles_bio.asp
http://www.crmariocovas.sp.gov.br/ntc_l.php?t=013v
2° Lugar - Ensaio
“A Difusa presença do contexto social nos romances de Lygia Fagundes Telles”, de Cláudio Sérgio Alves Teixeira
(E.E. Prof. Alberto Bacan; D.E. Guarulhos Sul; Guarulhos)
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