| O Cortiço é a obra-prima de Azevedo. O romance narra, em sua linguagem vigorosa, a vida miserável dos
moradores de duas habitações coletivas. |
Análise da obra de Aloísio Azevedo: O Cortiço
O Realismo é um termo bastante amplo que serve para designar as mais variadas tendências artísticas. Surge em 1857, na
França, com Madame Bovary, de Gustave Flaubert como afirmação literária de uma doutrina estética. Porém, poderíamos dizer
que o Realismo já se estruturara, em termos práticos, alguns anos antes, com Balzac e Stendhal.
Nessa época (segunda metade do século
XIX) as origens do Realismo define-se por uma série de transformações econômicas, científicas e ideológicas que possibilitam
o surgimento de uma estética anti-romântica.
Um mundo que agora se explica a partir de si mesmo: Comte cria o Positivismo e a sociedade passa a ser entendida em
sua existência concreta; Darwin elabora a teoria sobre a evolução das espécies, Lamarck estabelece bases reais para a
Biologia, etc. Eis um mundo claro, como afirmam os cientistas da época.
As contradições, no entanto, continuam explodindo: as cidades crescem sem planejamento e não oferecem as mínimas condições
de conforto e higiene, o Socialismo de Marx e o Anarquismo de Bakumin ganham adeptos. Já não é possível a fantasia, nem o
fechar-se na própria interioridade. Os acontecimentos exigem a participação do artista. Na qual este procurará examinar a
vida à luz de teorias sociológicas, psicológicas ou biológicas.
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O Naturalismo é uma espécie de prolongamento do Realismo. Assim, o Naturalismo assume
quase todos os princípios do Realismo, tais como
o;
predomínio da objetividade, da observação, da busca da verossimilhança, acrescentando a isso uma visão cientificista da existência,
trata de patologias sociais, etc.
O Realismo/Naturalismo no Brasil inicia em 1881 em um contexto marcado pelo fim da Guerra do Paraguai, é aqui que começa uma atração
por idéias positivistas e republicanas. Surgem novas ideologias, tudo que é anti-monárquico, anti-clerical, anti-escravocrata e
anti-romântico era-lhes de interesse. A sociedade continua se movendo, exigindo mudanças, há a chegada de imigrantes ao país, ocorre
também a migração para as cidades constituindo pequenas indústrias, é decretada a libertação dos escravos, a Proclamação da República.
Enfim, o Brasil é marcado por vários acontecimentos políticos e sociais.
Nessa época é que é escrito um dos mais importantes romances brasileiros: O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Aluísio Azevedo nasceu no
Maranhão, foi o primeiro escritor no país a decidir-se pela literatura como forma de sobrevivência, escreveu romances ótimos, tais como O Mulato (romance que o projetou
intelectualmente, foi o primeiro grande romance naturalista brasileiro), o Cortiço, entre outros.
Em seus escritos, usava de temas como os conflitos humanos, visto à luz dos princípios do Naturalismo (o ser humano é produto do meio,
da educação,...)
O Cortiço teve uma boa repercussão e percebemos sua qualidade e relevância para a história da literatura, pois acabou sendo levado
às telas do cinema, sob a direção de Francisco Ramalho Jr., com Betty Faria representando Rita Baiana.
Um dos valores maiores de Aluísio, que vemos retratados em o Cortiço é sua facilidade em fixar conjunto humanos, em fazer uma análise
de tipos sociais, só que esses tipos só se manifestam como uma “conseqüência” do meio, pois o grande personagem na verdade é o conjunto,
ou seja, o cortiço. Os personagens modificam-se por influência do meio.
Outro fato que é bastante destacado na obra é o sexo, várias cenas são descritas em cima desse tema, e essas descrições são feitas
de modo bem detalhista e realista, tomando para isso, termos científicos, biológicos, fazendo alusão às idéias correntes na época:
o cientificismo, darwinismo e todas as demais teorias biológicas que estavam em alta, e eram características principais do Naturalismo.
Podemos corroborar essas afirmações com um trecho da história que relata um “encontro sexual” de Miranda e Estela (ambos eram casados,
mas como Estela o havia traído eles não mais mantinham relações íntimas, só que Miranda não se separava dela por causa do dinheiro),
[...] estorceu-se toda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo daquele seu inimigo odiado [...].
Podemos notar as ações humanas comparadas às de animais. Algumas vezes o tema em destaque não é o ato sexual em si,, mas também a
sensualidade que é trabalhada principalmente na figura da Rita Baiana [...] Rita Baiana essa noite estava de veia para a coisa;
estava inspirada! Divina!
Nunca dançara com tanta graça e tamanha lubricidade. [...] cada verso que vinha de sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba
no cio [...].
Pontuamos um outro aspecto importante na obra, a redução da mulher em simples objeto, “escrava” ao realizar os afazeres domésticos e
trabalhistas (a maioria das mulheres do cortiço eram lavadeiras) ou em objeto sexual, pronta a todo momento à satisfazer as
necessidades dos homens, isso percebemos com mais clareza na personagem Bertoleza (escreva fujona), que era extorquida por João Romão,
dono do cortiço, este era uma pessoa mesquinha, que não media esforços para conseguir o que queria, nem que para isso tivesse que
passar por cima dos outros. Bertoleza trabalhava dia e noite sem parar e não era reconhecida, até porque no final da obra João,
querendo se casar com a filha do Miranda para adquirir riqueza, manda os verdadeiros donos da escrava buscá-la, para poder se casar com
Zulmira. A negra no ato vendo-se traída pelo companheiro enfia uma faca no ventre rasgando-o, a descrição dos fatos nessa cena é de
forma tão cientificista e realista que parecemos visualizá-la.
Vemos na cena acima descrita e em também outras passagens do romance um total abandono de sentimentos, onde o que vale é o dinheiro,
o poder, aquela idealização e sentimentalismo românticos não tem mais vez nesse período, as idéias realistas e naturalistas já tem
tomado todo o espaço de fato, retratando o que realmente acontecia no contexto social da época.
Como já citamos anteriormente, o cortiço é tomado pelo autor como o protagonista do romance, e Aluísio tratou de caracterizá-lo,
e descrevê-lo minuciosamente, como um verdadeiro personagem realista deveria ser descrito, constatamos isso em uma amostra de uma
passagem do livro que revela-nos o amanhecer no cortiço [...] eram cinco horas da manhã, e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos,
mas a sua infinidade de portas [...] as pedra do chão esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil,
mostravam uma palidez grisalha [...].
Na verdade todas as cenas praticamente ocorrem
dentro do cortiço. O cortiço é uma espécie de “coração de mãe” sempre cabe mais um, e era assim mesmo, todos os cômodos estavam locados
pelos mais variados tipos de pessoas, pobres, lavadeiras, operários de todas as profissões, pessoas que por sorte ou não, não tinham
como manter um nível mais elevado. Vemos que o autor não fixa-nos nesses personagens, mas sim como eles vivem em função do meio e podem
ser modificadas pelo mesmo, comportamento que é observável na figura de Pombinha, menina pura que vivia no cortiço, mas que por
estar em uma ambiente um pouco degradante, acaba se casando e depois se separando, passando à viver com Leónie, uma prostituta que
antes de Pombinha casar havia levado a menina a cometer atos de lesbianismo.
Finalizando, podemos perceber que Aluísio de fato não escrevia, mas sim pintava a sociedade da época, que na verdade, não foge
muito da nossa atual, com pessoas querendo mais e mais poder e dinheiro, pensando em si sós, enquanto milhões de pessoas vivem
marginalizadas em favelas, nas ruas. Por isso, ao nosso ver, Aluísio Azevedo pode ser considerado um escritor universal (pelo que
vimos nessa obra), pois seu romance é atemporal, é sempre atual e de suma importância para entendermos e o que a sociedade estava
enfrentando na época e para que possamos estar refletindo sobre a situação degradante que por ora vivemos e nem sequer percebemos,
pois permanecemos alienados. Ele traz à tona, o que os livros de história, os meios de comunicação e os políticos não nos mostram,
que estamos longe ainda de ser uma sociedade ideal. O seu estudo é indispensável na área das ciências humanas, pois ele traz-nos não
somente um tema qualquer, mais uma análise crítica e analítica da vida social.
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Graziela Alves E-mail: grazialves@ibest.com.br
Licenciada em Letras (Português/Inglês) pela UNIVALI e Pós-Graduada em Práticas
Pedagógicas Inovadoras com Enfoques Multidisciplinares pela Faculdade de Educação de Joinville - FEJ |
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