Em 1989, apenas alguns dias após a ascensão de Carlos Andrés Pérez, da Acción Democrática, à presidência, o povo saiu às
ruas para expressar repudio ao pacote econômico, um duro plano de ajuste, nos moldes exigidos pelo FMI e que ele pretendeu aplicar.
A violenta série de distúrbios e saques culminou com quase 300 mortos e o ambiente de descontentamento recresceu de tal modo
que levou o tenente-coronel Hugo Chávez, comandando cerca de 300 efetivos, a tentar um golpe de Estado, em 3 de fevereiro de 1992.
O golpe fracassou, mas Chávez tornou-se tão popular que se elegeu legal e legitimamente presidente da Venezuela, em 1998, à
frente do Movimiento V República (MVR), com a promessa de promover “una revolución pacífica y democrática”.
Orientado princípio de que o povo integrado como nação constituía poder soberano podia romper revolucionariamente com o regime
jurídico, político ou sócio-econômico que não se adequasse às suas aspirações ou que fosse obstáculo ao seu progresso, ele
convocou um referendum para votar nova Constituição, aprovada por 71,21% dos eleitores, mudando as estruturas políticas e
jurídicas e o nome do país para República Bolivariana de Venezuela.
Essa Constituição rompeu o modelo democrático tradicional, dentro do qual durante 42 anos, dois partidos - Acción
Democrática, de tendência social-democrata, e Copei (democrata-cristão) de centro-direita, repartiram o poder. E Chávez,
cujo mandato de presidente da República foi ampliado para 6 anos e confirmado através de novas eleições realizadas em 2000,
modificou não apenas as diretrizes econômicas como reorientou a política exterior da Venezuela, estreitando relações com Cuba,
com a qual firmou um acordo para a venda de 53.000 barris diários de petróleo a preços de mercado, bem como com o Iraque e a
Líbia, vistos como inimigos dos EUA.
A Venezuela, com a tendência de Chávez para o nacionalismo de esquerda, configurou mais outro obstáculo às negociações para
o estabelecimento da ALCA, e colocou os EUA, dos quais era principal fornecedor de petróleo, diante do problema de ter de
respeitar a vontade popular, mantendo coerência com a política de promoção da democracia,empreendida nos anos 90, e evitar
ao mesmo tempo que ela se convertesse na Cuba de pós-guerra fria e Hugo Chávez se transformasse em vítima, em um segundo
Fidel Castro, dado o sentimento anti-norte-americano existente em toda a América Latina.
Daí porque a administração Clinton preferiu evitar custos políticos e econômicos, no âmbito nacional e regional, e tomou
a atitude de wait and see ("Deixa como está pra ver como é que fica"), embora tratasse de efetivar o Plano Colômbia, de modo
a prevenir não apenas que o exemplo da Venezuela contaminasse países como Bolívia, Equador e Colômbia, nos quais as
políticas de liberalização econômica produziam a exclusão social e desestabilizavam os regime, mas também estorvar a
integração do Mercosul com o Bloco Andino.
Apesar de que a Venezuela fosse, juntamente com o Equador, um do dois únicos países da América do Sul a ter, na segunda metade
dos anos 90, saldo positivo na sua balança comercial, devido às exportações de petróleo para os EUA, Chávez não teve condições
de conter a crise econômica e social, agravada pela fuga de capitais, bem como pelas enchentes e desabamentosque ocorreram
em fins de 1999 e causaram enormes prejuízos, avaliados entre US$ 15 e US$ 20 bilhões.
A situação na Venezuela deteriorou-se e em fins de 2001 tornou-se bastante instável, a indicar que um processo de
desestabilização do governo estava em curso.
E, dada a sobrevalorização da moeda venezuelana – o Bolívar, Hugo Chávez alternativa não teve, senão liberar o câmbio, no início
de 2002, abandonando o sistema de bandas, a fim de estancar sangria nas reservas internacionais, que caíram de US$ 16,1
bilhões de dólares em janeiro de 2001 para US$ 12,2 bilhões, em dezembro, a maior queda em uma década, o que reduziu as
reservas do Banco Central em 23,7%. Cerca de US$ 700 milhões evadiram-se da Venezuela somente na primeira semana de
fevereiro de 2002.
A redução das reservas internacionais, acompanhada pela queda dos preços do petróleo, deixou-lhe pouco espaço de manobra.
E, em meio de sua pior crise política, Hugo Chávez teve de fazer completa revisão no orçamento de US$ 34,34 bilhões, com
a redução de gastos em 7% corte de dívidas do governo pela metade, um ajuste econômico tão forte que derrubou abruptamente
o valor do bolívar (19% em relação ao dólar), e transformou o centro de Caracas em um cenário similar ao de Buenos
Aires, onde as manifestações de massa (cazerolazos) derrubaram o governo da dupla Fernando de la Rua-Domingos
Cavallo (19/21.12. 2001).
Pouco tempo depois, o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, referiu-se, perante o Comitê de Relações Exteriores
do Senado norte-americano, aos “difficult problems” na Argentina, Colômbia, Venezuela e em outras partes da América Latina, e
disse que as ações do presidente Hugo Chávez preocupavam a Administração Bush, devido aos seus comentários sobre a campanha
contra o terrorismo, bem como ao fato de não tê-la apoiado tanto como poderia haver feito e escolher para visitar alguns
dos “lugares mais estranhos” (Iraque e Cuba), qualificados como “estados párias” pelos EUA.
Esse pronunciamento provocou diversas reações do Governo Chávez, que acusou Washington de atentar contra a soberania
venezuelana.
Mas, quase ao mesmo tempo, o diretor da CIA, George J. Tenet, deu ao Select Committee on Inteligence do Senado
norte-americano um depoimento semelhante, ao reconhecer que a situação na América Latina estava “becoming increasingly volatile
as the potential for instability there grows” e que a região fora açoitada por cinco crises econômicas, em menos de um ano, e
que ainda mais agravara sob o impacto dos atentados de 11 setembro.
Dentro desse contexto, ele se mostrou particularmente preocupado com a Venezuela, o terceiro maior fornecedor de petróleo dos EUA,
salientando que o descontentamento com o presidente Chavez e a “Revolución Bolivariana” “is growing, economic conditions have
deteriorated with the fall in oil prices, and the crisis atmosphere is likely to worsen”.
A Administração Bush tinha profundas razões para preocupar-se com a América Latina, apesar de que suas atenções estivessem
voltadas, sobretudo, para a guerra no Afeganistão e a crise no Oriente Médio, onde o conflito entre Israel e os palestinos
recrudescia.
Collin Powell, quando falou perante o Senado norte-americano, observou que os EUA estavam a vender mais para a América Latina e o
Caribe do que para a União Européia e que seu comércio era maior dentro do NAFTA do que com a União Européia e o Japão somados.
“We sell more to Mercosur than to China” – disse Collin Powell, ao ressaltar que a América Latina e o Caribe eram o
“fastest growing export market” dos EUA, razão pela qual, claramente, o presidente Bush estava certo em concentrar sua
atenção sobre esse hemisfério e nos esforços para criar a ALCA.
Tudo isto indicava, segundo Powell, que a Administração Bush se movimentava na direção certa, “in our own hemisphere”, não obstante
os “difficult problems” na Argentina, Colômbia, Venezuela e em outras partes da América Latina. “We need to keep democracy and
market economics on the march in Latin America, and we need to do everything we can to help our friends dispel some of the dark
clouds that are there” – Collin Powell acrescentou. Colin Powell e George J. Tenet não estavam a especular.
Sabiam realmente dos preparativos para depor o presidente Hugo Chávez, pois altos funcionários da Administração Bush já se haviam
encontrado, diversas vezes, com os dirigentes da coalizão que articulava o golpe de estado na Venezuela. E suas declarações
sinalizaram essa direção, tanto assim que a agitação recresceu em Caracas e, logo dois dias depois, em 7 de fevereiro, o coronel da
Aviação, Pedro Vicente Soto Fuentes, e o capitão da Guarda Nacional, Pedro Flores Rivero, apoiados por outros militares, rebelaram-se,
exigindo a renúncia de Hugo Chávez, que Donna Hrinak, então embaixadora dos EUA em Caracas, logo acusou de ter “simpatia” pela
guerrilha colombiana.
E, conquanto Chávez conseguisse debelar a rebelião, o presidente George W. Bush decidiu formalizar seu isolamento, dentro do sistema
interamericano e regional, ao pedir que a Venezuela não fosse convocada para a reunião dos países andinos, a realizar-se em 23 de
março de 2002, no Peru. Bush demonstrou assim que os EUA não mais estavam mais dispostos a aceitar a inflexão da Venezuela para
uma espécie de nacionalismo de esquerda.
Como o próprio historiador Kenneth Maxwell, membro do Council of Foreign Relations, dos EUA, depois de 11 de setembro a atitude
americana endureceu, e ninguém em Washington ficaria “muito infeliz” se Chávez deixasse o governo, não apenas, decerto,
porque ele se aproximara de Fidel Castro e dos chefes de governo do Iraque, Saddam Hussein, e da Líbia, Muammar Kadafi, mas
também porque a Venezuela, dentro do Bloco Andino, passara a constituir o contraponto do Brasil, na resistência à implantação
da ALCA e se opunha à intervenção multilateral na Colômbia.
E a atmosfera para o golpe de estado conformou-se, quando a Central dos Trabalhadores Venezuelanos (CTV), controlada pelos partidários
de Carlos Andrés Pérez, convocou, em 6 de abril, uma greve geral de 24 horas, por motivos salariais, contando com o respaldo
da poderosa organização patronal - Federación de Cámaras (Fedecámaras) - e outros setores civis.
Essa crise recrudesceu com a destituição de sete altos executivos da companhia Petróleos de Venezuela SA (PDVSA), em virtude do
conflito em que estavam com a direção por Chávez nomeada. E em 10 de abril, com o objetivo declarado de compelir Chávez a sair do
governo, os dirigentes da CTV e da organização patronal Federación de Cámaras (Fedecámaras) declararam que a greve geral seria
indefinida e, no dia seguinte, instaram a multidão a marchar para o Palácio Miraflores, com o objetivo de exigir sua renúncia. E na
seqüência dessa demonstração de protesto e atos de violência, em que as tropas da Guarda Nacional intervieram e pelo menos 15 pessoas
morreram e cerca de 110 resultaram feridas, por balas que partiram, segundo algumas versões, de agentes provocadores, franco-atiradores
colocados em janelas de alguns edifícios de Caracas, o golpe de estado foi perpetrado.
De 11 para 12 de abril, após esses acontecimentos, três generais prenderam Chávez, levaram-no para o Forte Tiuna, escoltado pelo antigo
ministro da Defesa, José Vicente Rangel, e pelo chefe da segurança do Palácio Miraflores, Manuel Rosendo, e o general Lucas Rincón
Romero, chefe do Estado Maior do Exército da Venezuela, anunciou que ele renunciara à presidência da República. Pedro Carmona
Estanca, presidente da Fedecámaras, assumiu então o governo da Venezuela, contando com o apoio dos meios de comunicação, TVs, rádios e
jornais.
Os EUA, obviamente, encorajaram esse golpe de estado, através da CIA e outras agências, que orquestraram as operações encobertas
(covert actions), tal como fizeram no Brasil, em 1962/1964 e no Chile, em 1971/73.
Desde junho de 2001, pelo menos, o coronel Ronald MacCammon, adido militar dos EUA na Venezuela, e seu assistente, tenente-coronel
James Rogers, já estavam a examinar com os militares venezuelanos a possibilidade de derrubar Chávez, segundo Wayne Madsen, o antigo
agente do serviço de inteligência da marinha norte-americana, revelou ao jornal inglês The Guardian.
E, na medida em que a situação econômica e a segurança da Venezuela deterioraram-se, sobretudo a partir dos fins de 2001, o governo
de George W. Bush tratou de aproveitar o crescente caos na Venezuela para unir as forças da oposição e as prover com planejamento e
recursos de inteligência de modo a converter a greve dos trabalhadores na indústria de petróleo em movimento para derrubar Chávez da
presidência, ainda que isto significasse uma ruptura da legalidade constitucional e do regime democrático.
Naquele ano, 2001, os EUA canalizaram centenas de milhares de dólares para os grupos americanos e venezuelanos adversos ao
presidente Hugo Chávez, inclusive a CTV, através da National Endowment for Democracy, agência criada pelo Congresso, que quadruplicou
incrementou as doações, elevando seu orçamento para a Venezuela e mais de US$877.000, assim que as condições em Carcaças se agravaram.
E os agentes da CIA e da DIA atuaram junto aos militares venezuelanos, aos dirigentes da Fedecámaras e aos líderes sindicais, com o
objetivo de coordenar a conversão do que seria uma pequena greve em uma demonstração de protesto e indignação contra nomes designados
por Chávez para integrar o corpo de diretores da companhia estatal de petróleo (PDVSA), com o claro objetivo de criar uma atmosfera de
incerteza na Venezuela, ao paralisar sua mais importante indústria, responsável por cerca de 80% das exportações do país e por quase
15% das importações de petróleo dos EUA, percentual esse maior do que o da Arábia Saudita.
De fato, o papel da Venezuela, com as maiores reserves de petróleo e gás fora do Oriente Médio, tornou-se crucial para a segurança de
energia dos EUA, aos quais havia mais de um século era ininterruptamente fornecedora. Destarte, conforme Alex Volberding e Larry Birns,
do Council on Hemispheric Affairs (COHA), se Henry Kissinger estava correto ao insistir em que qualquer ameaça externa aos depósitos
de petróleo da Arábia Saudita constituiria um casus belli para os EUA, o mesmo poderia ser argüido com respeito à Venezuela, que era
o quinto maior exportador de petróleo do mundo e o terceiro maior fornecedor dos EUA, em cujo mercado sua indústria energética
crescentemente se integrava.
Ao que tudo indica, porém, os EUA não apenas encorajaram e financiaram o golpe de estado contra Chávez. Militares americanos também
participaram diretamente da sua execução.
De acordo com diversas informações, na noite de 11 para 12 de abril, o coronel Ronald MacCammon, adido militar dos EUA na Venezuela, e
seu assistente, tenente-coronel James Rogers, permaneceram dentro da Comandacia del Ejército, no Fuerte Tiuna - principal unidade
militar da capital – assessorando os generais que desobedeceram a Chávez e o destituíram da presidência da Venezuela.
O respaldo dos EUA ao golpe de estado logo se evidenciou. Charles Shapiro, que em 9 de março assumira o posto de embaixador dos EUA em
Caracas, visitou imediatamente Pedro Carmona, reconhecendo implicitamente seu governo, enquanto o FMI, anunciava, no mesmo dia 12, que
tinha recursos financeiros para a Venezuela, se necessário, procedimento diverso que adotara com respeito à Argentina. E o secretário
de imprensa da Casa Branca, Ari Fleischer, disse à imprensa que os detalhes não eram muito claros, porém “we know that the action
encouraged by the Chávez government provoked this crisis”, ao tentar suprimir uma demonstração pacífica.
Assim, ao invés de condenar a destituição de um presidente democraticamente eleito, ele tentou negar que em Caracas ocorrera um golpe
militar, insistindo em responsabilizar Chávez pela sua própria queda.
Ari Fleischer, no entanto, teve de reconhecer que altos funcionários do Governo Bush se encontraram com vários personagens da oposição
a Chávez, mas, justificando tais conversações como “a normal part of what diplomats do”, afirmou que eles não estimularam a
intentona.
Uma fonte do Pentágono também confirmou que até o próprio chefe do Estado-Maior do Exército da Venezuela, general Lucas Romero Rincón,
que se recusou a enviar tanques para proteger o Palácio Miraflores e anunciou a renúncia de Chávez, tivera, em 18 de dezembro, uma
reunião com o adjunto do secretário de Defesa Assistente, Roger Pardo-Maurer, e ouviu que os EUA “unequivocally” não aceitariam “coups
or unconstitutional actions”.
Os altos funcionários norte-americanos, decerto, advertiram os líderes civis e militares da oposição a Chávez que os EUA
“unequivocally” não aceitariam “coups or unconstitutional actions”.
Mas, por isto mesmo, recomendaram decerto a montagem da farsa, a encenação conforme um script similar ao que o ex-secretário de
Estado na administração de Lyndon B. Johnson (1963-69) Dean Rusk produzira para disfarçar o golpe de estado no Brasil, em 1964, ao
enfatizar a necessidade de que o movimento contra o então presidente João Goulart tivesse aparência de legitimidade, de modo que
os EUA pudessem fornecer a ajuda militar aos sediciosos.
Algo nesse mesmo estilo foi que ocorreu na Venezuela, a fim de permitir que a administração de George W. Bush pudesse recorrer à
“plausible denial”, i.e., negar convincentemente a responsabilidade e a cumplicidade dos EUA com o golpe de estado, norma esta pela
qual os governos norte-americanos pautaram muitas vezes suas políticas de intervenção em outros países da América Latina.
Funcionários da Administração Bush comunicaram ao Congresso que Chávez renunciara à presidência da Venezuela e, ao invés de condenar a
ruptura da ordem constitucional, saudaram o acontecimento como vitória da democracia. Os EUA estavam preparados para reconhecer o
governo de Pedro Carmona. E a fim de facilitar essa iniciativa, dado que a Carta Democrática Interamericana condenava qualquer ruptura
da legalidade, Phillip Chicola, funcionário do Departamento de Estado, pediu, no dia 12, que a transição conservasse as formas
constitucionais, ou seja, que a Assembléia Nacional e a Corte Suprema aprovassem a renúncia de Chávez e novas eleições, com
observadores da OEA, fossem convocadas para dentro de um prazo razoável.
Não obstante, os setores mais conservadores e radicais do Opus Dei, representados pelo o contra-almirante Carlos Molina Tamayo e o
multimilionário Isaac Peréz Recau, induziram Pedro Carmona a firmar um decreto, com que ele se reservou a faculdade de destituir
governadores e prefeitos eleitos, derrogou a Constituição aprovada em referendum, em dezembro de 2000, e dissolveu a Assembléia
Nacional, prometendo convocar eleições “libres y democráticas”, no prazo de um ano.
Ao mesmo tempo, ele anulou as leis econômicas e sociais aprovadas legalmente pelo governo de Chávez e imediatamente ordenou a
interrupção do fornecimento de petróleo a Cuba.
Com esta medida, das primeiras adotadas nas poucas horas em que ocupou a presidência da Venezuela, Pedro Carmona atendeu ao interesse
do secretário-assistente de Estado para os Assuntos do Hemisfério, Otto Juan Reich, cuja equipe fora constituída com extremistas
cubano-americanos, residentes em Miami, como recompensa pelos votos dados a Bush na eleição presidencial de 2000.
Obviamente, Otto J. Reich estava a advogar e a orquestrar “dirty tricks” para desestabilizar o governo na Venezuela, e era inconcebível
que não estivesse implicado no complot, dado à intensidade do seu ódio a Fidel Castro, amigo e modelo de Chávez, bem como à sua
inescrupulosa conduta quando dirigiu o Office of Public Diplomacy for Latin America and the Caribbean (S/LPD), entre 1983 a1986.
Por isto, no mesmo dia 12 de abril, sexta-feira, Otto J. Reich, telefonou para Pedro Carmona manifestando-lhe, pronta e urgentemente,
o interesse da Administração Bush em que fosse mantida a “the appearance of democratic continuity”.
Em outras palavras, o golpe de estado devia preservar o invólucro constitucional, como homenagem que o vício prestava à virtude.
Porém, informado da dissolução da Assembléia Nacional, da Suprema Corte, do Tribunal Eleitoral, entre outras medidas, Otto J. Reich
instruiu o embaixador dos EUA em Caracas, Charles Shapiro, para que expressasse a Pedro Carmona sua preocupação com tais
“unconstitutional actions”, que caracterizavam abertamente o golpe de estado e, segundo The New York Times, telefonou-lhe e
intercedeu para que ele não dissolvesse a Assembléia Nacional, argumentando que essa seria “a stupid thing to do” e provocar o
clamor.
O conselho de Otto J. Reich a Pedro Carmona, no mesmo dia em que os militares deram o golpe de estado demonstrou o “early and
urgent” interesse da Administração Bush em vê-lo suceder a Chavez e “maintain the appearance of democratic continuity”.
Contudo, Pedro Carmona, imaginando que o apoio dos bairros ricos de Caracas e das classes médias altas significava respaldo
popular, excedeu-se, encorajado possivelmente pelos elementos mais radicais da oposição e tirou a máscara da legalidade, com que
os EUA pretenderam encapar o golpe de estado. Dissolveu a Assembléia Nacional, a Suprema Corte e o Tribunal Eleitoral.
E esta sua iniciativa assustou o chefe das Forças Armadas, Efraín Vásquez, que havia apoiado a manifestação popular e ordenara a
detenção de Chávez, e ele retirou o apoio dos quartéis. “Me salgo de la jugada” – disse a Luis Miquilena, ex-ministro do Interior e
Justiça, reconhecendo que fora um erro deixar-se levar por uma pessoa que ia conduzir o país a um banho de sangue.
A CTV, que não havia sido consultada a respeito de tais medidas, sentiu-se traída, pois, conforme declarou seu secretário-geral,
Carlos Ortega, elas atentavam contra “el derecho y la libertad del movimiento obrero”.
A aliança contra Chávez, entre a CTV e a Fedecámaras, dirigida por Pedro Carmona, assim se esfacelou. E, enquanto as camadas mais
pobres da população, favoráveis a Chávez, ocupavam as
ruas de Caracas, saqueando as lojas, espraiando-se
a agitação pelas cidades de Guarenas, Los Teques, Coro e Maracay, a brigada de pára-quedistas, comandada pelo general Raúl Baudel,
bem como outros regimentos se sublevaram contra a presidência de facto de Pedro Carmona, já desafiado por William Lara, líder da
Assembléia Nacional da Venezuela, que anunciou, de dentro do palácio Miraflores, que o vice-presidente Diosdado Cabello assumiria até
a volta Chávez ao governo.
Se não tinha condições internas de sustentar-se, apenas respaldado pelas classes médias e altas, o governo da coalizão
empresarial-militar, emanado do golpe de 11/12 de abril, defrontou-se outrossim com enormes dificuldades externas para o seu
reconhecimento.
O Grupo de Rio, que realizava em Costa Rica a XVI Cimeira presidencial, condenou prontamente a ruptura da ordem constitucional na
Venezuela e solicitou ao embaixador César Gavíria, secretário-geral da OEA a convocação urgente do Conselho Permanente, de acordo com
o Art. 20 da Carta Democrática Interamericana, aprovada na sessão plenária de 11 de setembro de 2001, incorporando a resolução
AG/RES. 1080 (XXI-O/91). E seus embaixadores na OEA aprovaram uma resolução, em que condenaram “a alteração da ordem constitucional
Somente em face da atitude de todos os demais estados da região, inclusive México e Canadá, de repudiar a quebra da ordem
constitucional na Venezuela, a delegação dos EUA na OEA resignou-se a subscrever a moção que condenava ao golpe. Mas só o fez no
sábado, 13 de abril, quando as manifestações de massa haviam compelido Carmona a renunciar e Chávez retornou ao poder.
Destarte, os EUA, embora tenham avalizado golpe de estado na Venezuela, não tiveram condições de legitimá-lo. Não sem razão, a BBC
informou que “President Chávez's comeback has . . . left Washington looking rather stupid”.
De fato, o fiasco do golpe em Caracas fez a Administração Bush perder até mesmo a noção do ridículo.
Com desplante e cinismo, Condolezza Rice, assessora de segurança de George W. Bush, advertiu que Chávez deveria respeitar os
processos constitucionais e recebesse a mensagem que o povo lhe enviou, ou seja, que “that his own policies are not working for the
Venezuelan people, that he has dealt with them in a high-handed fashion”.
Em outras palavras, o que Condolezza Rice quis dizer foi que o golpe fracassado servisse a Chávez como advertência, porque suas
políticas não agradavam aos EUA.
Alguns dias depois, falando à imprensa, Bush, tergiversando sobre o comportamento do seu governo, que não condenou prontamente o
golpe na Venezuela, declarou também que Chávez devia aprender lições sobre democracia, com a tentativa de derrubá-lo do governo.
O professor Riordan Roett, especialista em América Latina da Universidade Johns Hopkins, em Washington, comentou, porém, que os “os
EUA não podem escolher quais democracias apóiam e quais não apóiam”. E acrescentou: “Ou se apóia a democracia, ou não se apóia”.
Por sua vez, o jornalista Paul Krugman, jornalista de The New York Times, observou que o elemento mais negativo desse episódio foi a
traição dos princípios democráticos norte-americanos, pois a conceituação “do povo, pelo povo, para o povo” não deveria ser
acompanhada pelas palavras “enquanto for adequado aos interesses dos EUA”.
A política exterior dos EUA, vis-à-vis da América Latina, nunca foi, na realidade, consistente com os princípios democráticos
norte-americanos, que sempre constituíram um elemento marginal, para efeito de retórica.
O respaldo tácito ao golpe de estado na Venezuela demonstrou mais uma vez que Washington somente admitira e respeitara os regimes
democráticos nos países da América Latina, enquanto funcionaram em favor dos seus interesses econômicos, políticos e estratégicos.
Em 1963, a Embaixada do Brasil em Washington, sobre a chefia de Roberto Campos, salientou que, conquanto o Departamento de Estado
condenasse qualquer atentado à democracia representativa no hemisfério, o governo de John F. Kennedy não deixava de reconhecer e
cultivar “relações amistosas com as piores ditaduras de direita”, pois “do ponto de vista dos setores militares de Washington tais
governos são muito mais úteis aos interesses da segurança continental do que os regimes constitucionais”. Tais setores, os da
extrema-direita, foram os que passaram a orientar a política internacional dos EUA, após a duvidosa eleição de George W. Bush,para
a presidência, em 2000.
E com toda a razão, ao comentar o êxito, na França, do líder da extrema direita, Jean-Marie le Pen, nas eleições de abril de 2002,
o jornalista Paul Krugmen, de The New York Times, avaliou que realmente não tinha condições de tornar-se presidente e por na
prática suas “hard-right ideas” porém, nos EUA, “the hard right has essentially been co-opted by the Republican Party — or
maybe it's the other way around” – e estava em posição de colocar em prática essas idéias, porque “the angry people are already
running the country.
Essa “hard right, com a ascensão de George W. Bush à presidência, passou a comandar uma potência, cuja força militar se tornara, a
partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a única no mundo a ter como principal missão, não a defensiva, mas a ofensiva, não a de
guardar as fronteiras nacionais, mas a de projetar seu poder sobre todos os continentes. E, desde o colapso do Bloco Socialista,
recresceu em Washington, conforme o jornalista William Pfaff, no International Herald Tribune, assinalou, a idéia de que os EUA
deveriam exercer seu “unrivaled power” como um império, a fim de trazer estabilidade internacional, resolver os problemas do
terrorismo, das “rogue nations” (nações irresponsáveis e indisciplinadas), armas de destruição massa e assim por diante.
Tais propostas para a instituição do império, segundo William Pfaff, não eram intelectualmente sérias, mas eram significativas,
porque a classe política e a burocracia estavam apaixonadas pelo poder internacional na “they want more”. E daí a ameaça.
Desde o século XVII, a lei internacional baseou-se nos princípios da soberania nacional e da igualdade legal das nações, porém,
conforme o próprio William Pfaff reconheceu, “Washington ignores whenever convenient".
Também o politólogo e historiador Kenneth Maxwell, do Council of Foreign Relations, revelou que as cabeças jovens e brilhantes da
página de editoriais do Wall Street Journal, os ideólogos neo-conservadores dos institutos de estudos de Washington e, o mais
ameaçador, as lideranças civis do Pentágono passaram proclamar que era chegada a hora de “falar alto e sem peias na língua
sobre o Império Americano”, de os EUA exercerem plenamente seu poderes imperiais, de aderir à missão imperial que lhes foi imposta
e, se preciso, impor a “pax americana” pela força avassaladora das armas.
O favorecimento ao golpe de estado na Venezuela constituiu o desdobramento dessa estratégia, visando a subordinar toda a América do
Sul aos interesses hegemônicos dos EUA e à conformação do Império Americano.
O governo do presidente George W. Bush, ao que tudo indica, não desistiu, decerto, de derrubar o presidente Hugo Chávez.
Condições internas, na Venezuela, havia, pois o governo de Chávez continuava a enfrentar severa oposição de certos setores sociais,
que se opunham à Lei de Terras, por afetar os interesses dos latifundiários e especuladores com terrenos urbanos adversos, e à
Lei de Hidrocarburos, mediante a qual a PdVSA não mais poderia absorver 80% de sua receita com as exportações de petróleo, a
título de custos operativos, em detrimento das finanças do Estado.
E não se pode descartar a hipótese de que a CIA estivesse novamente a tentar a desestabilização do seu governo, em dezembro de
2002, encorajando a greve geral, desencadeada pela PdVSA, e as manifestações de rua, que a Coordinadora Democrática, com o apoio
da mídia, desencadeara, a fim de exigir a renúncia de Chávez e eleições antecipadas.
Muito sintomática foi a atitude da Casa Branca diante de tais acontecimentos, que ameaçavam levar o Estado venezuelano ao
colapso e à beira de uma guerra civil.
Em 13 de dezembro, o governo dos EUA, através do seu porta-voz Ari Fleischer, respaldou, publicamente, a oposição na Venezuela, ao
exortar o presidente Chávez a convocar eleições antecipadas, como a única via de solucionar pacífica e politicamente a crise.
Dois dias depois, porém, recuou, esclarecendo que o governo dos EUA não estava a propor a antecipação das eleições, mas a
realização de um referendum sobre a popularidade de Chávez, não previsto, igualmente, pela Constituição Bolivariana da Venezuela,
de 1999.
Essa mudança de atitude resultou, decerto, da decisão do Conselho Permanente da OEA, que resolveu, na reunião do mesmo dia 13 de
dezembro, “respaldar plenamente a institucionalidade democrática e constitucional da República Bolivariana de Venezuela, cujo
governo preside Hugo Chávez Frías, e rechaçar categoricamente qualquer intento de golpe de estado ou alteração da ordem
constitucional”. Mas entremostrou as contradições domésticas em que a administração de George W. Bush se debatia, bloqueada pela
resolução da OEA, e enfrentar, de um lado, pressões dos que, como Otto Reich, insistiam na remoção de Chávez, e a temer,
do outro, que a crise desbordasse em uma guerra civil na Venezuela, responsável por 14% do fornecimento de petróleo aos EUA,
no momento em que se preparava a intervenção no Iraque.
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