Epistemologicamente Dislexia é uma alteração nos neurotransmissores cerebrais que impede uma criança de ler e compreender com a
mesma facilidade com que o fazem as crianças da mesma faixa etária, independente de qualquer causa intelectual, cultural ou emocional.
Todo o desenvolvimento da criança é normal, até entrar na escola. É um problema de base cognitiva que afeta as habilidades lingüísticas
associadas à leitura e à escrita.
Pessoalmente questiono a terminologia Dislexia porque produz uma sonoridade de patologia, o que não o é. Não se fala em cura ou
tratamento ou medicamentos quando se fala em Dislexia, não é portando uma doença. Ser disléxico é como ser canhoto.
Acredito que pessoas são disléxicas e não estão disléxicas, esta é uma condição natural, pessoas nascem disléxicas ou não-disléxicas,
e assim permanecem por toda a vida, assim como pessoas nascem canhotas ou destras e assim o são por toda a vida. Os canhotos sofreram
durante muitos anos discriminação e tentativas de "tratamento": colocar gesso na mão dominante é hoje considerado um crime, mas não
era assim há alguns anos atrás. As bancas escolares eram feitas apenas para os destros, depois foram adaptadas para os canhotos também,
assim é ser disléxico...
O sistema escolar atual é desenvolvido para a maioria, que é não-disléxica. Os disléxicos ficam à margem de um sistema educacional que
os exclui e os aprisiona.
A grande polêmica acerca do tema Dislexia é por seu comprometimento neurológico, mas precisamos entender que pertencem à área da Saúde
apenas a causa e a diagnose. O reconhecimento das características precocemente, as conseqüências, as soluções e as adaptações pertencem
à Educação. Não existem disléxicos entre os analfabetos. É nas salas de aula que a Dislexia se faz presente e o que é pior: de uma
forma catastrófica e algumas vezes irreparável.
As grandes dificuldades aparecem por volta dos 8 ou 9 anos de idade, quando a criança começa enfrentar temas acadêmicos mais complexos,
as notas baixas e fraco desempenho escolar são características básicas na vida escolar de crianças disléxicas.
Manifestações de decepção, desaprovação, de cólera, de ridicularização, de humilhação por parte dos grupos a que pertencem, afetam
mortalmente a auto-estima destas crianças. Elas são humilhadas em todos os sentidos e por todos os grupos em que está inserida: pelos
pais, pelos irmãos, pelos colegas, pelos professores. Com sua auto-estima extremamente abalada, elas certamente desenvolverão
distúrbios de conduta: da agressividade à timidez intensa ou depressão, e daí para a marginalidade propriamente dita, para a
delinqüência, é apenas um passo. Isso indica um desajustamento social com graves conseqüências para a sociedade como um todo. Não
existe orgulho nem satisfação em destacar-se na escola por problemas de aprendizagem, nem pelas notas baixas recebidas.
As estatísticas indicam que de 15% a 30% das crianças em idade escolar sofrem com suas dificuldades acadêmicas, 15% delas são
disléxicas. É um índice muito alto, para continuarmos com os olhos fechados. Sem a assistência e o apoio necessários estas crianças
desestimulam-se, perdem-se e por fim desistem. Pergunto-me se este não seria um bom motivo para que se investigassem os altos índices
de reprovação e de evasão escolar.
Leitura lenta sem modulação, sem ritmo e sem domínio da compreensão/interpretação do texto lido; confundir algumas letras; sérios erros
ortográficos; dificuldades de memória; dificuldades no manuseio de dicionários e mapas; dificuldades de copiar do quadro ou dos livros;
dificuldades de entender o tempo: passado presente e futuro; tendência a uma escrita descuidada, desordenada e às vezes incompreensível;
não utilização de sinais de pontuação/acentuação gramaticais; inversões, omissões, reiterações e substituições de letras, palavras ou
silabas na leitura e na escrita, problemas com sequenciações, essas são apenas algumas das características disléxicas que podem ser
observadas nas crianças com dificuldades escolares.
Se pudermos dissociar as dificuldades de ler e escrever corretamente à ausência de problemas intelectuais ou de outro tipo de
problemas que possam dar uma explicação alternativa ao problema apresentado, então podemos suspeitar de uma possível dislexia. Numa
primeira etapa da aprendizagem, algumas crianças podem apresentar estas características, e esses são considerados erros normais dentro
do processo de aprendizagem, é preciso distinguir essas dificuldades das dificuldades disléxicas que são mais profundas, constantes
e contínuas. Crianças com expressivas dificuldades de leitura não são necessariamente disléxicas, mas todas as crianças disléxicas
têm um sério distúrbio de leitura.
O diagnostico precoce é imprescindível para o desenvolvimento contínuo das crianças disléxicas. Reconhecer as características é o
primeiro passo para que se possam evitar anos de dificuldades e sofrimentos, induzindo esta criança, fatalmente ao desinteresse
pela escola e a tudo o que está em torno dela, gerando às vezes quadros "quase-fóbicos", desta criança em relação à tarefas que
exijam a leitura e a escrita. Crianças com dificuldades escolares seja qual for a raiz do problema, necessitam de educação, atenção e
ensino diferenciados para que possam desenvolver suas habilidades, e quanto mais cedo for detectado o problema, melhores serão os
resultados.
Uma das grandes frustrações dos pais é saber que seu filho tem problemas escolares.
A maioria não sabe o que fazer e como ajudar. O certo seria procurar apoio nas escolas, com os professores, mas estes também, muitas
vezes, não sabem o que fazer. Isso porque não foram instruídos para tal. As universidades não capacitam os educadores para lidar com
os sérios problemas de aprendizagem. Este é um problema muito complexo, mas certamente todos apontam o dedo para o aluno. Uma
criança com dificuldades escolares está marcada cruelmente, carregando a pesada cruz de não saber o que fazer com suas
dificuldades. Elas têm uma bomba nas mãos.
Estas crianças são atingidas em cheio na sua auto-estima quando, com nossas atitudes, mostramo-las como elas são preguiçosas,
lentas, burras, desqualificadas... Quando as desprezamos...As abandonamos...
Como pais precisamos ultrapassar os limites da culpabilidade e enfrentarmos, junto com nossos filhos, suas dificuldades, e mostrarmos
que nosso amor por eles não existe em função de suas notas escolares.Essa é uma associação muito perigosa.
Como educadores precisamos caminhar, por conta própria, em busca das informações necessárias para que este quadro se modifique. Não
podemos esperar que as informações cheguem às nossas mãos através da Escola. Elas não chegarão. As Universidades não preparam seus
alunos, futuros professores, para atender às necessidades das crianças disléxicas. E elas existem! Estão por aí em todas as salas
de aulas! Até que desistam...
Necessita-se instaurar dentro das escolas, medidas preventivas essenciais para a reestruturação do aluno em sua forma mais
abrangente, evitando assim, as situações traumatizantes que os problemas de aprendizagem escolar causam em algumas crianças, que neste
atual momento não são, ao menos, respeitadas. Toda e qualquer dificuldade escolar tem uma causa e uma solução. Ninguém nasce com
dificuldades escolares, elas aparecem ao longo do caminho e precisam ser observadas , respeitadas e solucionadas.
É tarefa de todo e quaisquer educadores, sejam eles os pais ou os professores, ter como base ética o compromisso de ver
desenvolver-se dignamente e efetivamente a aprendizagem acadêmica de seu(s) educando(s), buscando novas formas de aprendizagem e
novos programas e processos de ensino que possam colaborar para a inclusão destas crianças no mundo das letras, ajudando-as a
sobreviver dentro deste único modelo de escola que se nos apresenta. Não podemos mais continuar contribuindo para que nossa sociedade
padeça com as conseqüências que a desinformação dos problemas escolares promove; não podemos mais fechar os olhos e calar. Precisamos
urgentemente lutar para que as informações e que as novas formas de aprender cheguem dentro das escolas, aos educadores e aos
pais.
Precisamos restaurar a dignidade humana a nível nacional, mas só o faremos quando pudermos compreender as graves conseqüências sociais
que o insucesso escolar provoca, gerando uma relação inadequada entre esta criança e o Mundo.
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