Do romantismo ao realismo
A obra de Machado de Assis pode ser dividida em dois momentos distintos: os textos escritos durante sua juventude, que apresentam
forte influência do Romantismo, como os romances
Ressurreição (1872),
A Mão e a Luva (1874),
Helena (11876), e
Iaiá Garcia (1878), eaqueles nos quais o autor mostra um progressivo
amadurecimento, até chegar ao Realismo.
Desta fase destacam-se os romances
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881),
Quincas Borba (1891),
Dom Casmurro (1889),
Esaú e Jacó (1904) e
Memorial de Aires (1908).
Os dois últimos romances de Machado de Assis não tem a reputação crítica de suas três obras-primas iniciais do Realismo.
Mas é neles que predomina com maior ênfase a idéia fixa do autor com o ambiente e sua influência no comportamento das
personagens e com as situações existenciais vividas pelas mesmas. |
Narrativa
O enredo de Esaú e Jacó está centrado na história dos gêmeos Pedro e Paulo, simetricamente oposto, ou seja, idênticos até mesmo na
oposição ferrenha de um para o outro. A discordância entre os dois começa quando ainda estão no útero e se estende pelo resto
de suas vidas.
Possuem temperamentos opostos: enquanto Pedro é dissimulado e cauteloso, Paulo é arrojado é impetuoso. Na política encontram
oportunidade para dar vazão ás suas animosidades:
Paulo é republicano e Pedro, monarquista. O primeiro cursa Direito em São Paulo.
O segundo, Medicina no Rio de Janeiro. O que os une é o amor extremado pela mãe, Natividade.
O que os separa é a paixão por Flora, a "inexplicável, segundo o Conselheiro Aires, que se junta a Natividade num esforço
de aproximar os rapazes.
Eternos Inimigos
Com a morte de Flora, os dois irmãos parecem rumar para a reconciliação, que, no entanto, é logo frustrada. Nem mesmo o último
pedido da mãe, feito no leito de morte - ela pede aos dois irmãos que sejam amigos -, consegue uni-los por muito tempo. Ao final do
romance, Aires constata que os gêmeos sempre foram inimigos e que, ao que parece, sempre o serão. Um certo momento da
narrativa, o Conselheiro afirma que as razões para tantas brigas não são conhecidas:
"Esaú e Jacó brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado que briguem
também, tudo está em saber a causa do conflito, e não a sabendo, porque a providência a esconde da notícia humana." |
Alegoria do País
Na Bíblia, narra-se que Rebeca, ao sentir que os filhos brigam em seu útero, pergunta a Deus
qual seria causa e Ele responde:
"Duas nações há no teu ventre". Essa é a causa a que se refere
o Conselheiro Aires. Pode ser também a causa alegórica
da luta constante de Pedro e Paulo.
As duas nações seria o próprio Brasil, dividido, na época, entre a monarquia e a república
e, até
hoje entre o progresso e o conservadorismo, entre a sofisticação e a miséria. A própria figura de Flora, indecisa entre
os dois irmão, também já foi identificada como uma representação alegórica
da nação brasileira "inexplicável". Seu pai,
Batista, é o típico político fisiológico, sempre
assumindo a opinião dos que estão no poder e mudando de partido como
quem troca de camisa,
sem ter nenhuma convicção política ou ideológica.
Benefícios da Luta
Machado de Assis, entretanto, nós dá outra explicação, psicológica e não alegórica, para as constantes disputas fraternas.
Os irmãos, ao travarem seu primeiro combate entre si, recebem
doces e beijos ou um passeio com a mãe ao se reconciliarem.
O narrador conclui o episódio com
a seguinte constatação:
| "De noite, na alcova, cada um deles concluiu para si que devia os obséquios daquela tarde, o doce,
os beijos e o carro, á briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, como um romance ao piano,
resolveram ir a cara um do outro, na primeira ocasião. Isto que devia ser um laço, armado á ternura da mãe, trouxe ao coração
de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do soco recebido naquele dia, mas também satisfação
de um desejo íntimo, profundo, necessário." |
As implicações freudianas são claras: o Complexo de Édipo, revelado na adoração da mãe, faz com que se lancem um contra o
outro. É bom lembrar que Machado de Assis escrevia antes mesmo de o termo ser inventado. O mesmo Complexo definido pelo psiquiatra
austríaco Sigmund Freud, pode explicar o fato de ambos apaixonarem pela mesma mulher.
Foco Narrativo Complexo
As experimentações com o foco narrativo marcam a fase realista de Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ele
apresenta um "defunto-autor". Esse aparente absurdo confere ao livro um realismo nunca antes visto na literatura
brasileira. É exatamente por estar morto que o autor-narrador pode contar, com um realismo cruel, as perversidades, covardias e ao
anti-heroismo que compõe tanto a sua personalidade quanto a dos que a rodeiam. Em Dom Casmurro, é a escolha do foco narrativo,
centrado no pouco confiável Bentinho - péssimo observador das sutilezas psicológicas -, que cria a famosa dúvida acerca da traição
de Capitu.
| A forma de Machado de Assis narrar a história neste romance não é menos inovadora ou complexa. O autor hipotético
da narrativa é o Conselheiro Aires, embora ele se apresente na terceira pessoa. |
É como observador que o narrador de Esaú e Jacó descreve o Conselheiro, mas, em muitos momentos, deixa transparecer suas opiniões,
utilizando-se da primeira pessoa:
| "Não me peças as causas de tanto encolhimento no anúncio e na missa, e tanta publicidade na carruagem,
lacaio e libré. Há contradições explicáveis, Um bom autor, que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos
acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as coisas se passaram,
e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel.
Demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção." |
A arrogância e a impaciência do narrador, que tanto lembram a postura de Brás Cubas, nas suas Memórias Póstumas, em muito se
afastam da atitude sempre tão contida e conciliadora do Conselheiro Aires. O narrador chega a descrever Aires de uma forma
um tanto quanto desdenhosa, ao se referir ás sua posições, sempre dúbias.
"Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma coisa, e fez um gesto de dois sexos.
Como insistissem, não escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, média, que contentou a ambos os lados, coisa rara em opiniões
médias. Sabem que o destino delas é serem desdenhadas.
Mas este Aires, - José Marcondes da Costa Aires, - tinha que nas controvérsias uma opinião dúbia ou média pode trazer a
oportunidade de uma pílula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que
fazem pílulas." |
O Conselheiro Aires é o retrato como um homem que sempre concorda com a opinião alheia, mesmo que seja
contraditório, o que assume em conversa com Flora.
Lembra, assim, outro Conselheiro famoso da literatura luso-brasileira, o Acácio, do romance, O Primo Basílio, de Eça de
Queirós. |
Os dois conselheiros comportam-se de maneira artificial e estudada. Procuram passar a imagem da perfeita correção e querem
agradar a todo custo, fazendo com que seus interlocutores ouçam sempre o que o que querem e o que pensam.
Um Narrador Cauteloso
Se Eça de Queirós descreve seu Conselheiro Acácio como uma figura subserviente e empostada, o narrador de Esaú e Jacó
esforça-se por desculpar a figura excessivamente diplomática de Aires. Logo após mostrar que o Conselheiro tinha sempre " nas
controvérsias uma opinião dúbia ou média", o narrador, prevendo o desdém do leitor, pede que este "não lhe mal por
isso", recomendando, ainda que " não cuide que não era sincero, era-o". E complementa: "tinha o
coração a aceitar tudo, não por inclinação á harmonia, senão por tédio á controvérsia". Em muitos momentos o narrador
identifica-se plenamente com o hipotético autor do livro:
| "Esse Aires que aí aparece ainda conserva agora alguma das virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício.
Não atribua tal estado a qualquer propósito. Nem creias que vá nisto um pouco de homenagem á modéstia da pessoa. Não, senhor, é
verdade pura e natural efeito" |
Em outras passagens, o narrador comunga do espírito comedido de Aires: "não exagero; também não quero mal a esta
senhora". Se levarmos em conta que Aires tivera sua "queda" por Natividade, a quem a frase se aplica, a
correspondência entre narrador e pseudo-autor fica ainda mais evidente.
Narrativa Ambígua
O crítico Ivan Teixeira, no livro Apresentação de Machado de Assis, resume bem a ambigüidade narrativa de
Esaú e Jacó: "A invenção do pseudo-autor Aires (....) acabou gerando uma nova dimensão de foco narrativo: nem primeira,
nem terceira pessoa. mas uma coisa diferente, em que um autor imaginário trata-se a si mesmo como um ele, uma terceira pessoa, a
cuja visão de mundo submete, no entanto, toda a outra matéria narrada no romance".
Romances Interligados
Ao escrever Quincas Borba, em 1891, Machado de Assis reutilizou um personagem de sua obra anterior,Memórias Póstumas de
Brás Cubas (1881): O falecido filósofo enlouquecido Quincas Borba. Assim, os romances interligam-se não exatamente por meio do
personagem, mas pela teoria do humanismo que o filósofo transmite a Rubião, o protagonista. Também Esaú e Jacó (1904) e
Memorial de Aires (1908) se encontram interligados.
O que une os romances Esaú e Jacó e Memorial de Aires é a figura sábia e diplomática do Conselheiro José
da Costa Marcondes Aires, fino observador das sutilezas da psicologia humana.
Na "advertência" de Esaú e Jacó lemos: |
" Quando o Conselheiro Aires faleceu, acharam-se-lhe na secretária sete cadernos manuscritos, rijamente
encapados em papelão. cada um dos primeiros seis tinha o seu número de ordem, por algarismos romanos, I, II, III, IV, V, VI,
escritos á tinta encarnada. O sétimo trazia este título: Ultimo.
A razão dessa designação especial não se compreendeu então nem depois.
(....) era uma narrativa; e, posto figure aqui o próprio Aires, com o seu nome e título de conselho, e, por alusão, algumas
aventuras, nem assim deixava de ser a narrativa estranha á matéria dos seis cadernos (....)
Nos lazeres do ofício, [Aires] escreveu o Memorial, que, aparado das páginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez dê) para
matar o tempo da barca de Petrópolis.
Tal foi a razão de se publicar somente a narrativa. quanto ao título, foram lembrados vários, em que o assunto se pudesse resumir.
Ab ovo, por exemplo, apesar do latim; venceu, porem, a idéia de lhes dar estes dois nomes que o próprio Aires criou uma vez:
Esaú e Jacó" |
Os primeiros seis cadernos traz a matéria ficional que daria origem ao romance de 1908, Memorial de Aires. Em vários momentos da
narrativa de Esaú e Jacó, nos deparamos com o Conselheiro Aires escrevendo seu Memorial.
Algumas das palavras que registra os acontecimentos ou suas reflexões são produzidas pelo narrador.
Diálogo com o Leitor
Assim como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador de Esaú e Jacó trava um diálogo tenso e constante com o leitor. Esse
"leitor incluso" na narrativa é apresentado em geral como uma mulher - é bom lembrar que as mulheres formavam a
maioria do público leitor de romances na época - que lê de modo impaciente e fútil.
O capítulo XXVII - "De uma reflexão intempestiva" é todo dedicado a esse diálogo.
O narrador flagra a reflexão de uma leitora hipotética sobre o que escrevera no capítulo anterior: "Mas se duas velhas
gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-ão eles com a sua esposa?
Não quererão a única e mesma mulher?".
Ao responder, o narrador imagina as restrições da leitora vulgar, impregnada do romantismo mais banal, á sua obra:
" O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse
particular nos livros.
Daí a habilidade da pergunta, como se dissesse: "Olhe que o senhor ainda não nos mostrou a dama ou damas que tem de ser amadas
ou pleiteadas por esses dois jovens inimigos. Já estou cansada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou
terceira vez que assisto ás blandícias da mãe ou aos seus ralhos amigos. vamos depressa ao amor, ás duas, se não é uma só
pessoa...'
Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método. A insistência
da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu
conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de
testemunhas? Não, senhora minha, não pus a pena na mão, á espreita do que me viessem sugerindo. Se quer compor o livro, aqui
tem a pena, aqui tem o papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha;
dou-lhe que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator dessas aventuras." |
| A atitude do narrador não é só digressiva - afastando-se por uns instantes da linha narrativa básica -, mas
também metalingüística, pois, por meio da interrupção da leitora, acaba por comentar seu método compositivo. |
Mas a "leitora" de fato, antecipou um aspecto importante da narrativa, que ainda estava por se desenrolar, o que
demonstra que não era tão fútil assim. O narrador irrita-se com a "reflexão intempestiva" da leitora, mas essa
digressão é usada com maestria por Machado de Assis para já se desculpar pelo lance melodramático que irá se seguir:
Pedro e Paulo ficarão mesmo apaixonados pela mesma mulher. Basta lembrar o romance românticoOs Irmãos Corsos (1841),
do novelista francês Alexandre Dumas, para verificar que não se trata de entrecho muito original.
Proclamação da república: Os Bestializados
Em seu ensaio Os
Bestializados - o Rio de Janeiro e a República que não foi, o historiador José Murilo de Carvalho remete a uma afirmação
de Aristides Lobo (1838-1896) - um dos chefes republicanos do levante de 15 de novembro de 1889 -. que lamentava o fato
de a população do Rio de Janeiro ter assistido á Proclamação da república "bestializada", ou seja, sem nada
entender, colocada á margem do movimento.
Em Esaú e Jacó, Machado de Assis revela uma fina percepção do fenômeno, na época de seu desenrolar. No capítulo LX -
"Manhã de 15", narra o passeio de Aires por uma cidade convulsa e atordoada, em que ninguém sabe ao certo o que
estava acontecendo:
"Notou que a pouca gente que havia ali não estava sentada, como de costume, olhando a toa, lendo gazetas
ou cochilando a vigília de uma noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando na conversação
sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu umas palavras soltas, Deodoro, batalhões, campos,
ministérios,etc.(....)
Quando Aires saiu do passeio público, suspeitava alguma coisa, e seguiu até o Largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas,
gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma notícia clara nem completa.
Na Rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu descrições da marcha e das pessoas, e notícias
desencontradas" |
Apesar de "suspeitar alguma coisa", depois de ouvir relatos exagerados e desencontrados de seu criado José e do
cocheiro do tílburi que o levou para casa, Aires " não acreditou na mudança de regime (....)". Também bestializado,
como o resto da população, menospreza a situação:
" Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.
- Temos gabinete novo, disse consigo." |
Almoçou tranqüilo, lendo Xenofonte: "Considerava eu um dia quantas repúblicas têm sido derribadas por cidadãos que
desejam outra espécie de governo, e quantas monarquias e oligarquias são destruídas pela sublevação dos povos; e de
quantos sobem ao poder, uns são depressa derribados, outros, se duram, são admirados por hábeis e felizes..."
Segue-se um dos momentos mais curiosos de toda a obra de Machado de Assis: a cena da "tabuleta". O almoço de Aires
é interrompido por Custódio, dono da confeitaria em frente á sua casa. Quer consultá-lo sobre a tabuleta nova que mandara
pintar para seu estabelecimento, a "Confeitaria do Império".
È Custódio quem informa Aires sobre a Proclamação da República. Teme que sua confeitaria seja apedrejada. Aires sugere mudar o
nome para "Confeitaria da República", mas o confeiteiro adverte para o fato de que a situação pode mudar.
Aires sugere "Confeitaria do Governo", mas Custódio lembra que todo governo tem oposição... E assim sucedem-se as
objeções do confeiteiro, preocupado em agradar a todos, até que o conselheiro:
"Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não por nada, a não ser que preferisse o
seu próprio nome: 'Confeitaria do Custódio'.
Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação
política ou figuração histórica, ódio nem amor, nada que chamasse atenção dos dois regimes, e conseguintemente que pusesse em
perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados.
Porque que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra - Custódio em vez de
Império - mas as revoluções trazem sempre despesas." |
Essa cena comprova o que Aires iria escrever em seu Memorial: "Não há alegria pública que valha uma boa alegria
particular".
Nos dois últimos romances de Machado de Assis essa preocupação com as relações aparecem ligadas a fatos históricos importantes
do momento narrado.
Em Memorial de Aires, cuja narrativa abrange os anos de 1888 e 1889, Machado de Assis - mestiço e discretamente
abolicionista - registra com simpatia, sempre por meio das palavras atenuadas de Aires, o momento em que a abolição da
escravatura é concretizada.
Já em Esaú e Jacó, a emancipação dos escravos é o único tema capaz de unir a opinião dos dois irmãos.
Mesmo que por razões diferentes, em 1888, ambos a comemoram.
Vida e Obra O Precursor da Crônica Moderna
Nascido no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, filho de mulato em uma sociedade escravocrata, paupérrimo, sofrendo de
gagueira e epilepsia, nada indicaria que Joaquim Maria Machado de Assis teria, ao morrer em 1908, um enterro de estadista,
seguido por milhares de admiradores pelas ruas da cidade em que nasceu, viveu e morreu.
Autodidata, aos 15 anos começa a trabalhar em tipografias, onde conhece escritores importantes, como Manoel
Antônio de Almeida.
Em 1855, inicia sua carreira literária com a publicação de um poema na revista Marmota Fluminense.
Consegue em seguida, um emprego na Secretaria da Fazenda. trabalha a vida toda na burocracia. na qual vai galgando
posições até ser ministro substituto.
Mas a carreira burocrática é apenas uma de ganhar sustento ainda que humilde, que possibilita ele a escrever. Contribuiu
com diversos jornais e revistas e, com a publicação de seus livros de poesia, contos e romances, só vai ganhando notoriedade
e respeito.
Em 1869, casa-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, enfrentando forte preconceito racial da família da
noiva. Em 1876, antes mesmo de publicar a parcela mais significativa de sua obra, , já é considerado, ao lado de José de
Alencar, um dos maiores escritores brasileiros. Em 1881, inicia a publicação de seus romances realistas. Em 1896, é
um dos principais responsáveis pela fundação da Academia Brasileira de Letras, do qual é eleito presidente vitalício.
Em 1904, morre Carolina. Quatro anos depois, Machado de Assis, Consagrado como o maior escritor brasileiro, é enterrado
com pompa no Rio de Janeiro.
O mulato paupérrimo do Morro do Livramento tornara-se um dos homens mais respeitados do país.
O poeta
Machado de Assis iniciou sua carreira literária como poeta. Seu livro de estréia é Crisálidas(1864), que lhe
conferiu imediata notoriedade.
Embora sua poesia esteja muito aquém da prosa que o imortalizou, nunca deixou de escrever poemas. Em 1870, lanço
Falenas, em 1874, Americanas e, em 101, as suas poesias completas, que ainda não incluem um dos seus mais famosos poema, o
belo soneto, "A Carolina", escrito após a morte de sua esposa , em 1904.
O Cronista
Seguindo a linha dos texto Ao Correr da Pena, de José de Alencar, Machado de Assis contribuiu durante toda a sua
carreira com textos breves para jornais, em que comenta os mais variados assuntos da vida do Rio de Janeiro e do país.
Estes textos leves, de temática cotidiana, podem ser considerados os precursores da crônica moderna, em que haveria de
se destacar, no século seguinte, escritores como Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade.
A produção do Machado cronista inicia-se já em 1859 e se estende até 1904: "Balas de Estalo" ( 1883-1885),
"Bons Dias" (1888 - 1889) e, principalmente, em "A Semana" (1892 - 1897).
O Crítico
Também para os jornais, Machado de Assis escreveu durante toda a vida textos críticos. Sua produção infindável envolve
ensaios teóricos como " O Passado, O Presente e o Futuro da Nossa Literatura - Instinto
de Nacionalidade" (1873), diversas resenhas críticas importantes, como aquela para o livro O Primo Basílio,
de Eça de Queirós (1878), e inúmeras críticas de teatro.
O Contista
Muitas das centenas de contos que Machado de Assis escreveu ao longo da vida perderam-se com o desaparecimento dos números
dos jornais em que foram publicados. Outros estão apenas agora sendo republicados em livros. Sua versatilidade como contista é
grande. Escreveu tanto para os jornais mais sentimentalóides quanto para publicações seriíssimas.
A qualidade dos contos varia de acordo com a publicação e o público leitor a que se destinavam.
Entre as coletâneas de contos que publicou, destacam-se " Papeis Avulsos" (1882), com o grande conto ou novela,
" O Alienista", " Teoria do Medalhão" e " O Espelho" e " Várias
Histórias" (1896), em que se encontram, entre outras obras-primas da concisão e do impacto narrativo,
" Causa Secreta", " A Cartomante" e " Um Homem Célebre".
O Romancista
Entre 1872 e 1878, machado de Assis começa a publicar romances. Ainda muito influenciado pelo amigo e mestre José de Alencar,
publica, com regularidade, um romance a cada dois anos. Em Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá
Garcia, temos um Machado ainda romântico, mas antecipando alguns temas e procedimentos de suas obras-primas realista e,
principalmente, conquistando um público leitor que já receberia sua revolução realista com boa vontade.
Mas a fase mais importante da carreira de Machado de Assis concentra-se na trilogia de romances realistas publicados
no final do século: Memórias Póstumas de Brás Cubas, lançado em 1881, Quincas Borba, em 1891, e Dom
Casmurro, editado em 1899.
Últimos Romances
Esaú e Jacó e Memorial de Aires tem o mesmo narrador-personagem: o Conselheiro Aires, que
pouco age e passa a maior parte da narrativa contemplando placidamente as aventuras amorosas e existenciais dos jovens ao
seu redor. Em Memorial de Aires, Machado de Assis investiga a velhice e faz um elogio das relações conjugais com
extrema simplicidade e estilo depurado.
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Glossário |
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Blandícia = mimo |
Caleça = carruagem de quatro rodas |
|
Lacaio = criado de libré, companhia do amo |
Derribada = abatida; lançada por terra |
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Libré = uniforme de criado de casa nobre |
Tilburi = Carruagem sem capota |
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