Machado e os Estilos de Época
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Esaú e Jacó

Machado de Assis
in: Esaú e Jacó,  Editora Click
 
No seu penúltimo romance, machado de Assis inventa uma nova forma de narrar. Apresenta uma alegoria das disputas políticas brasileiras do seu tempo por meio da história de dois gêmeos irreconciliáveis


Machado de Assis é considerado o maior escritor brasileiro. Com o livro Esaú e Jacó, o autor atinge o ápice da sua preocupação com climas, ambientes, situações existenciais , sutis e delicadas.
Esse comportamento se repete na sua obra posterior - Memorial de Aires.
Assim como Machado de Assis, o narrador da história está interessado em investir a fundo o caráter e a psicologia complexa das personagens.


Do romantismo ao realismo

A obra de Machado de Assis pode ser dividida em dois momentos distintos: os
textos escritos durante sua juventude, que apresentam forte influência do Romantismo, como os romances Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874),
Helena
(11876), e Iaiá Garcia (1878), e aqueles nos quais o autor mostra um progressivo amadurecimento, até chegar ao Realismo.

Desta fase destacam-se os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1889), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).

Os dois últimos romances de Machado de Assis não tem a reputação
crítica de suas três obras-primas iniciais do Realismo. Mas é neles que
predomina com maior ênfase a idéia fixa do autor com o ambiente e sua
influência no comportamento das personagens e com as situações existenciais
vividas pelas mesmas.


Narrativa

O enredo de Esaú e Jacó está centrado na história dos gêmeos Pedro e Paulo, simetricamente oposto, ou seja, idênticos até mesmo na oposição ferrenha de um para o outro. A discordância
entre os dois começa quando ainda estão no útero e se estende pelo resto de suas vidas.
Possuem temperamentos opostos:  enquanto Pedro é dissimulado e cauteloso, Paulo é arrojado é impetuoso. Na política encontram oportunidade para dar vazão ás suas animosidades:
Paulo é republicano e Pedro, monarquista. O primeiro cursa Direito em São Paulo.
O segundo, Medicina no Rio de Janeiro. O que os une é o amor extremado pela mãe, Natividade.
O que os separa é a paixão por Flora, a "inexplicável, segundo o Conselheiro Aires, que se
junta a Natividade num esforço de aproximar os rapazes.

Eternos Inimigos


Com a morte de Flora, os dois irmãos parecem rumar para a reconciliação, que, no entanto,
é logo frustrada. Nem mesmo o último pedido da mãe, feito no leito de morte - ela pede aos dois irmãos que sejam amigos -, consegue uni-los por muito tempo. Ao final do romance, Aires
constata que os gêmeos sempre foram inimigos e que, ao que parece, sempre o serão.
Um certo momento da narrativa, o Conselheiro afirma que as razões para tantas brigas
não são conhecidas:


"Esaú e Jacó brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a
causa do conflito. Quanto a outros, dado que briguem também, tudo está em saber a causa do conflito, e não a sabendo, porque a providência a esconde da notícia humana."

Alegoria do País


Na Bíblia, narra-se que Rebeca, ao sentir que os filhos brigam em seu útero, pergunta a Deus
qual seria causa e Ele responde: "Duas nações há no teu ventre". Essa é a causa a que se refere
o Conselheiro Aires. Pode ser também a causa alegórica da luta constante de Pedro e Paulo.
As duas nações seria o próprio Brasil, dividido, na época, entre a monarquia e a república e, até
hoje entre o progresso e o conservadorismo, entre a sofisticação e a miséria. A própria figura de Flora, indecisa entre os dois irmão, também já foi identificada como uma representação alegórica
da nação brasileira "inexplicável". Seu pai, Batista, é o típico político fisiológico,  sempre
assumindo a opinião dos que estão no poder e mudando de partido como quem troca de camisa,
sem ter nenhuma convicção política ou ideológica.

Benefícios da Luta


Machado de Assis, entretanto, nós dá outra explicação, psicológica e não alegórica, para as constantes disputas fraternas. Os irmãos, ao travarem seu primeiro combate entre si, recebem
doces e beijos ou um passeio com a mãe ao se reconciliarem. O narrador conclui o episódio com
a seguinte constatação:

"De noite, na alcova, cada um deles concluiu para si que devia os obséquios daquela tarde, o doce, os beijos e o carro, á briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir a cara um do outro, na primeira ocasião. Isto que devia ser um laço, armado á ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do soco recebido naquele dia, mas também satisfação de um desejo íntimo, profundo, necessário."

 As implicações freudianas são claras: o Complexo de Édipo, revelado na adoração da mãe, faz com que se lancem um contra o outro. É bom lembrar que Machado de Assis escrevia antes mesmo de o termo ser inventado. O mesmo Complexo definido pelo psiquiatra austríaco Sigmund Freud, pode explicar o fato de ambos apaixonarem pela mesma mulher.

Foco Narrativo Complexo

As experimentações com o foco narrativo marcam a fase realista de Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas,  ele apresenta um "defunto-autor". Esse aparente absurdo confere ao livro um realismo nunca antes visto na literatura brasileira. É exatamente por estar morto que o autor-narrador pode contar, com um realismo cruel, as perversidades, covardias e ao anti-heroismo que compõe tanto a sua personalidade quanto a dos que a rodeiam. Em Dom Casmurro, é a escolha do foco narrativo, centrado no pouco confiável Bentinho - péssimo observador das sutilezas psicológicas -, que cria a famosa dúvida acerca da traição de Capitu.

A forma de Machado de Assis narrar a história neste romance não é menos inovadora ou complexa. O autor hipotético da narrativa é o Conselheiro Aires, embora ele se apresente na terceira pessoa.

É como observador que o narrador de Esaú e Jacó descreve o Conselheiro, mas, em muitos momentos, deixa transparecer suas opiniões, utilizando-se da primeira pessoa:

"Não me peças as causas de tanto encolhimento no anúncio e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré. Há contradições explicáveis, Um bom autor, que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as coisas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel. Demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção."

A arrogância e a impaciência do narrador, que tanto lembram a postura de Brás Cubas, nas suas Memórias Póstumas, em muito se afastam  da atitude sempre tão contida e conciliadora do Conselheiro Aires. O narrador chega a descrever Aires de uma forma um tanto quanto desdenhosa, ao se referir ás sua posições, sempre dúbias.

"Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma coisa,
e fez um gesto de dois sexos. Como insistissem, não escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, média, que contentou a ambos os lados, coisa rara em opiniões médias. Sabem que o destino delas é serem desdenhadas.
Mas este Aires, -  José Marcondes da Costa Aires, - tinha que nas controvérsias uma opinião dúbia ou média pode trazer a oportunidade de uma pílula, e
compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se não sarava, não morria,
e é o mais que fazem pílulas."

O Conselheiro Aires é o retrato como um homem que sempre concorda com a opinião alheia, mesmo que seja contraditório, o que assume em conversa com Flora.
Lembra, assim, outro Conselheiro famoso da literatura luso-brasileira, o Acácio,
do romance, O Primo Basílio, de Eça de Queirós.

Os dois conselheiros comportam-se de maneira artificial e estudada. Procuram passar a imagem
da perfeita correção e querem agradar a todo custo, fazendo com que seus interlocutores ouçam sempre o que o que querem e o que pensam.

Um Narrador Cauteloso


Se Eça de Queirós descreve seu Conselheiro Acácio como uma figura subserviente e empostada,
o narrador de Esaú e Jacó esforça-se por desculpar a figura excessivamente diplomática de Aires. Logo após mostrar que o Conselheiro tinha sempre " nas controvérsias uma opinião dúbia ou média", o narrador, prevendo o desdém do leitor, pede que este "não lhe mal por isso", recomendando, ainda que " não cuide que não era sincero, era-o". E complementa: "tinha o
coração a aceitar tudo, não por inclinação á harmonia, senão por tédio á controvérsia". Em muitos momentos o narrador identifica-se plenamente com o hipotético autor do livro:

"Esse Aires que aí aparece ainda conserva agora alguma das virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício. Não atribua tal estado a qualquer propósito. Nem creias que vá nisto um pouco de homenagem á modéstia da pessoa. Não, senhor, é verdade pura e natural efeito"

Em outras passagens, o narrador comunga do espírito comedido de Aires: "não exagero;
também não quero mal a esta senhora". Se levarmos em conta que Aires tivera sua "queda"
por Natividade, a quem a frase se aplica, a correspondência entre narrador e pseudo-autor
fica ainda mais evidente.

Narrativa Ambígua


O crítico Ivan Teixeira, no livro Apresentação de Machado de Assis, resume bem a
ambigüidade narrativa de Esaú e Jacó: "A invenção do pseudo-autor Aires (....) acabou gerando uma nova dimensão de foco narrativo: nem primeira, nem terceira pessoa. mas uma coisa diferente, em que um autor imaginário trata-se a si mesmo como um ele, uma terceira pessoa, a cuja visão de mundo submete, no entanto, toda a outra matéria narrada no romance".

Romances Interligados


Ao escrever Quincas Borba, em 1891, Machado de Assis reutilizou um personagem de sua obra anterior,Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881): O falecido filósofo enlouquecido Quincas Borba. Assim, os romances interligam-se não exatamente por meio do personagem, mas pela teoria do humanismo que o filósofo transmite a Rubião, o protagonista. Também Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908) se encontram interligados.

O que une os romances Esaú e Jacó e  Memorial de Aires é a figura sábia e diplomática do Conselheiro José da Costa Marcondes Aires, fino observador das sutilezas da psicologia humana.
Na "advertência" de Esaú e Jacó lemos:

" Quando o Conselheiro Aires faleceu, acharam-se-lhe na secretária sete cadernos manuscritos, rijamente encapados em papelão. cada um dos primeiros seis tinha o seu número de ordem, por algarismos romanos, I, II, III, IV, V, VI,  escritos á tinta encarnada. O sétimo trazia este título: Ultimo.
A razão dessa designação especial não se compreendeu então nem depois.
(....) era uma narrativa; e, posto figure aqui o próprio Aires, com o seu nome e título de conselho, e, por alusão, algumas aventuras, nem assim deixava de ser a narrativa estranha á matéria dos seis cadernos (....)
Nos lazeres do ofício, [Aires] escreveu o Memorial, que, aparado das páginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez dê) para matar o tempo da barca de Petrópolis.
Tal foi a razão de se publicar somente a narrativa. quanto ao título, foram lembrados vários, em que o assunto se pudesse resumir. Ab ovo, por exemplo, apesar do latim; venceu, porem, a idéia de lhes dar estes dois nomes que o próprio Aires criou uma vez: Esaú e Jacó"

Os primeiros seis cadernos traz a matéria ficional que daria origem ao romance de 1908, Memorial de Aires. Em vários momentos da narrativa de Esaú e Jacó, nos deparamos com o Conselheiro Aires escrevendo seu Memorial. Algumas das palavras que registra os acontecimentos ou suas reflexões são produzidas pelo narrador.

Diálogo com o Leitor


Assim como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador de Esaú e Jacó trava um diálogo tenso e constante com o leitor. Esse "leitor incluso" na narrativa é apresentado em geral como
uma mulher - é bom lembrar que as mulheres formavam a maioria do público leitor de romances na época - que lê de modo impaciente e fútil.
O capítulo XXVII - "De uma reflexão intempestiva" é todo dedicado a esse diálogo.
O narrador flagra a reflexão de uma leitora hipotética sobre o que escrevera no capítulo anterior: "Mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-ão eles com a sua
esposa? Não quererão a única e mesma mulher?".
Ao responder, o narrador imagina as restrições da leitora vulgar, impregnada do romantismo
mais banal, á sua obra:

" O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Daí a habilidade da pergunta, como se dissesse: "Olhe que o senhor ainda não nos mostrou a dama ou damas que tem de ser amadas ou pleiteadas por esses dois jovens inimigos. Já estou cansada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto ás blandícias da mãe ou aos seus ralhos amigos. vamos depressa ao amor, ás duas, se não é uma só pessoa...'
Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito  com método. A insistência da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora minha, não pus a pena na mão, á espreita do que me viessem sugerindo.  Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem o papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator dessas aventuras."

A atitude do narrador não é só digressiva - afastando-se por uns instantes da linha narrativa básica -, mas também metalingüística, pois, por meio da interrupção da leitora, acaba por comentar seu método compositivo.

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Mas a "leitora" de fato, antecipou um aspecto importante da narrativa, que ainda estava por se desenrolar, o que demonstra que não era tão fútil assim. O narrador irrita-se com a "reflexão intempestiva" da leitora, mas essa digressão é usada com maestria por Machado de Assis para
já se desculpar pelo lance melodramático que irá se seguir:  Pedro e Paulo ficarão mesmo apaixonados pela mesma mulher. Basta lembrar o romance românticoOs Irmãos Corsos (1841),
do novelista francês Alexandre Dumas, para verificar que não se trata
de entrecho muito original.

Proclamação da república: Os Bestializados


Em seu ensaio Os Bestializados - o Rio de Janeiro e a República que não foi, o historiador José
Murilo de Carvalho remete a uma afirmação de Aristides Lobo (1838-1896) - um dos chefes republicanos do levante de 15 de novembro de 1889 -. que lamentava o fato de a população do
Rio de Janeiro ter assistido á Proclamação da república "bestializada", ou seja, sem nada
entender, colocada á margem do movimento.
Em Esaú e Jacó, Machado de Assis revela uma fina percepção do fenômeno, na época de seu desenrolar. No capítulo LX - "Manhã de 15", narra o passeio de Aires por uma cidade convulsa
e atordoada, em que ninguém sabe ao certo o que estava acontecendo:

"Notou que a pouca gente que havia ali não estava sentada, como de costume, olhando a toa, lendo gazetas ou cochilando a vigília de uma noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu umas palavras soltas, Deodoro, batalhões, campos, ministérios,etc.(....)
Quando Aires saiu do passeio público, suspeitava alguma coisa, e seguiu até o Largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma notícia clara nem completa.
Na Rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu descrições da marcha e das pessoas, e notícias desencontradas"

Apesar de "suspeitar alguma coisa", depois de ouvir relatos exagerados e desencontrados de seu criado José e do cocheiro do tílburi que o levou para casa, Aires " não acreditou na mudança de regime (....)". Também bestializado, como o resto da população, menospreza a situação:

" Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.
- Temos gabinete novo, disse consigo."

Almoçou tranqüilo, lendo Xenofonte: "Considerava eu um dia quantas repúblicas têm sido derribadas por cidadãos que desejam outra espécie de governo, e quantas monarquias e oligarquias são destruídas pela sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa derribados, outros, se duram, são admirados por hábeis e felizes..."

Segue-se um dos momentos mais curiosos de toda a obra de Machado de Assis: a cena da "tabuleta". O almoço de Aires é interrompido por Custódio, dono da confeitaria em frente á sua casa. Quer consultá-lo sobre a tabuleta nova que mandara pintar para seu estabelecimento, a "Confeitaria do Império".
È Custódio quem informa Aires sobre a Proclamação da República. Teme que sua confeitaria seja apedrejada. Aires sugere mudar o nome para "Confeitaria da República", mas o confeiteiro adverte para o fato de que a situação pode mudar. Aires sugere "Confeitaria do Governo", mas Custódio lembra que todo governo tem oposição... E assim sucedem-se as objeções do confeiteiro, preocupado em agradar a todos, até que o conselheiro:

"Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não por nada, a não ser que preferisse o seu próprio nome: 'Confeitaria do Custódio'.
Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação política ou figuração histórica, ódio nem amor, nada que chamasse atenção dos dois regimes, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados.
Porque que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra - Custódio em vez de Império - mas as revoluções trazem sempre despesas."

Essa cena comprova o que Aires iria escrever em seu Memorial: "Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular".
Nos dois últimos romances de Machado de Assis essa preocupação com as relações aparecem ligadas a fatos históricos importantes do momento narrado.
Em Memorial de Aires, cuja narrativa abrange os anos de 1888 e 1889, Machado de Assis - mestiço e discretamente abolicionista - registra com simpatia, sempre por meio das palavras atenuadas de Aires, o momento em que a abolição da escravatura é concretizada.
Já em Esaú e Jacó, a emancipação dos escravos é o único tema capaz de unir a opinião dos dois irmãos. Mesmo que por razões diferentes, em 1888, ambos a comemoram.

Vida e Obra
O Precursor da Crônica Moderna


Nascido no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, filho de mulato em uma sociedade escravocrata, paupérrimo, sofrendo de gagueira e epilepsia, nada indicaria que Joaquim Maria Machado de Assis teria, ao morrer em 1908, um enterro de estadista, seguido por milhares de admiradores pelas ruas da cidade em que nasceu, viveu e morreu. Autodidata, aos 15 anos
começa a trabalhar em tipografias, onde conhece escritores importantes, como Manoel
Antônio de Almeida. Em 1855, inicia sua carreira literária com a publicação de um poema
na revista Marmota Fluminense. Consegue em seguida, um emprego na Secretaria da Fazenda.
trabalha a vida toda na burocracia. na qual vai galgando posições até ser ministro substituto.
Mas a carreira burocrática é apenas uma de ganhar sustento ainda que humilde, que possibilita
ele a escrever. Contribuiu com diversos jornais e revistas e, com a publicação de seus livros de poesia, contos e romances, só vai ganhando notoriedade e respeito.
Em 1869, casa-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, enfrentando forte preconceito racial da família da noiva. Em 1876, antes mesmo de publicar a parcela mais significativa de sua obra, , já é considerado, ao lado de José de Alencar,  um dos maiores
escritores brasileiros. Em 1881, inicia a publicação de seus romances realistas. Em 1896, é um
dos principais responsáveis pela fundação da Academia Brasileira de Letras, do qual é eleito presidente vitalício.
Em 1904, morre Carolina. Quatro anos depois, Machado de Assis, Consagrado como
o maior escritor brasileiro, é enterrado com pompa no Rio de Janeiro.
O mulato paupérrimo do Morro do Livramento tornara-se um dos homens
mais respeitados do país.

O poeta

Machado de Assis iniciou sua carreira literária como poeta. Seu livro de estréia éCrisálidas
(1864), que lhe conferiu imediata notoriedade.
Embora sua poesia esteja muito aquém da prosa que o imortalizou, nunca deixou de escrever poemas. Em 1870, lanço Falenas, em 1874, Americanas e, em 101, as suas poesias completas, que ainda não incluem um dos seus mais famosos poema, o belo soneto, "A Carolina", escrito após a morte de sua esposa , em 1904.

O Cronista


Seguindo a linha dos texto Ao Correr da Pena, de José de Alencar, Machado de Assis contribuiu durante toda a sua carreira com textos breves para jornais, em que comenta os mais variados assuntos da vida do Rio de Janeiro e do país. Estes textos leves, de temática cotidiana, podem ser considerados os precursores da crônica moderna, em que haveria de se destacar,  no século seguinte, escritores como Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade.
A produção do Machado cronista inicia-se já em 1859 e se estende até 1904: "Balas de Estalo" ( 1883-1885), "Bons Dias" (1888 - 1889) e, principalmente, em "A Semana" (1892 - 1897).

 

O Crítico


Também para os jornais, Machado de Assis escreveu durante toda a vida textos críticos. Sua produção infindável envolve ensaios teóricos como "O Passado, O Presente e o Futuro da Nossa Literatura - Instinto de Nacionalidade" (1873), diversas resenhas críticas importantes, como aquela para o livroO Primo Basílio, de Eça de Queirós (1878), e inúmeras críticas de teatro.

O Contista


Muitas das centenas de contos que Machado de Assis escreveu ao longo da vida perderam-se
com o desaparecimento dos números dos jornais em que foram publicados. Outros estão apenas agora sendo republicados em livros. Sua versatilidade como contista é grande. Escreveu tanto
para os jornais mais sentimentalóides quanto para publicações seriíssimas.
A qualidade dos contos varia de acordo com a publicação e o público leitor a que se destinavam.
Entre as coletâneas de contos que publicou, destacam-se "Papeis Avulsos" (1882), com o grande conto ou novela, "O Alienista", "Teoria do Medalhão" e "O Espelho" e "Várias Histórias"
(1896), em que se encontram, entre outras obras-primas da concisão e do impacto narrativo,
"Causa Secreta", "A Cartomante" e "Um Homem Célebre".

O Romancista


Entre 1872 e 1878, machado de Assis começa a publicar romances. Ainda muito influenciado pelo amigo e mestre José de Alencar, publica, com regularidade, um romance a cada dois anos. EmRessurreição,A Mão e a Luva,Helena e Iaiá Garcia, temos um Machado ainda romântico, mas antecipando alguns temas e procedimentos de suas obras-primas realista e, principalmente, conquistando um público leitor que já receberia sua revolução realista com boa vontade.
Mas a fase mais importante da carreira de Machado de Assis concentra-se na trilogia de
romances realistas publicados no final do século:Memórias Póstumas de Brás Cubas, lançado
em 1881,Quincas Borba, em 1891, eDom Casmurro, editado em 1899.

Últimos Romances


Esaú e Jacó eMemorial de Aires tem o mesmo narrador-personagem: o Conselheiro Aires, que
pouco age e passa a maior parte da narrativa contemplando placidamente as aventuras amorosas
e existenciais dos jovens ao seu redor. EmMemorial de Aires, Machado de Assis investiga a
velhice e faz um elogio das relações conjugais com extrema simplicidade e estilo depurado.

Glossário
Blandícia  =  mimo Caleça  =  carruagem de quatro rodas
Lacaio  =  criado de libré, companhia do amo Derribada  =  abatida; lançada por terra
Libré  =  uniforme de criado de casa nobre Tilburi  =  Carruagem sem capota

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