1. A Revolta dos Grandes Fazendeiros
No extremo sul do Brasil, apenas os festejos
da Semana da Pátria, com o apogeu no 7 de Setembro, data da ruptura da ex-colônia com Portugal, voltam para a garagem das
efemérides anuais, aquecem-se os motores para a largada da Semana Farroupilha, com linha de chegada em 20 de Setembro, data do
ingresso dos rebeldes farroupilhas em Porto Alegre, em 1835, inicio da ruptura da então província sulina com o resto do país.
Através do Rio Grande do Sul, como pequenos robôs esquizofrênicos, os estudantes nas escolas públicas e particulares agitam primeiro
as cores verde e amarela das bandeirolas do unitarismo nacional, inaugurado em 1822, para saudarem dias mais tarde, com igual ânimo
patriótico, o verde-amarelo-vermelho do separatismo sul-rio-grandense de 35!
Nenhum estado brasileiro celebra data cívica regional com tamanha magnificência. Do Mampituba ao Chuí, do rio Uruguai ao oceano
Atlântico, nos pampas, na Serra, no Planalto, na Depressão Central e no Litoral, organizam-se desfiles, celebrações, festas. A mídia
comenta fartamente os fatos do passado e as comemorações em desenvolvimento. De certo modo, a Semana Farroupilha está para o gaúcho
como o Carnaval está para o carioca.
A Semana Farroupilha é sobretudo festa pública. Desde que foi oficializada, em setembro de 1964, no início do Regime Militar [1964-1984], o governo estadual
sul-rio-grandense abraçou fortemente as comemorações, verdadeira tradição nas escolas públicas estaduais e municipais. Nesse
sentido, a passada administração petista [1999-2002] apenas vergou-se à tradição nascida há mais de 30 anos, ao manter retoques a
festa patriótica regional.
Os com e os sem
A celebração privada da independência farroupilha é também magnífica e portentosa. Almoços, jantares, bailes, shows, conferências,
acampamentos, palestras, exposições, etc. são realizados na capital e no interior, sobretudo por iniciativa do Movimento
Tradicionalista Gaúcho – MTG –, através dos milhares de Centros de Tradição Gaúcha – CTG – esparramados através do Estado.
A Semana Farroupilha é unanimidade regional, congregando cidadãos de todas as regiões, origens, classes sociais e situações. Na roda
Diante da pira cívica regional e da celebração das raízes e dos princípios que seriam as mais lídimas expressões da Revolta
Farroupilha, realiza-se congregação suprapolítica, supra-racial e supra-social que, no Brasil, repete-se apenas quando a Seleção
Nacional entra em campo vestindo a bandeira canarinho!
Travada sobretudo no meridião do Rio Grande, a Guerra Farroupilha constituiu apenas um entre os múltiplos movimentos armados
liberais, federalistas e separatistas terçados pelas elites proprietárias das diversas regiões do Brasil, inicialmente, contra o
regime colonial lusitano e, após 1822, contra o Estado imperial brasileiro.
Num desses paradoxos da história, a guerra farroupilha contra o regime imperial foi movimento elitista, sem nenhum conteúdo social,
promovido sobretudo pelos grandes criadores sulinos, que sequer contou com a unanimidade dos proprietários regionais. Não foi
movimento de todo os habitantes sulinos, nem de todo o Rio Grande da época.
2. 1822: a Independência dos Escravistas
A América lusitana foi mosaico de regiões semi-autônomas, de frente para a Europa e para a África, de costas voltadas umas às
outras. As diversas colônias luso-brasileiras produziam regionalmente os produtos que exportavam pelos portos da costa, por onde
chegavam os manufaturados e os africanos duramente escravizados. Os mercados internos quase inexistiam.
Os senhores luso-brasileiros controlavam o essencial do poder regional e viviam em situação de associação subordinada às elites
portuguesas metropolitanas. Eles sentiam-se membros do império lusitano, possuíam fortes laços de identidade regional e desconheciam
sentimentos ‘nacionais’ brasileiros efetivos.
Quando da crise colonial, as elites luso-brasileiras mobilizaram-se por independência restrita aos limites objetivos das regiões
sócio-econômicas em que viviam e que controlavam. Então, o Brasil era uma entidade essencialmente administrativa. O Estado-nação
brasileiro foi sobretudo produto do ciclo nacional-industrialista dos anos 1930. É, portanto, realidade muito recente.
Tendências centrífugas
Nas colônias luso-americanas atuavam as mesmas forças centrífugas que explodiram a América espanhola em uma constelação de
repúblicas independentes. Porém, as diversas províncias luso-brasileiras emergiram da Independência coeridas em um Estado
monárquico, centralizado, autoritário.
Quando da crise colonial, as classes proprietárias regionais desejavam pôr fim ao governo autocrático lusitano, nacionalizar o
comércio monopolizado pelos portugueses, resistir às pressões inglesas pelo fim do tráfico transatlântico de cativos. Elas defendiam
soluções federalistas, separatistas, monárquicas e republicanas.
No Norte, no Nordeste, no Centro-Sul e no Sul eram muito fortes as tendências republicanas e independendistas. Tudo sugeria que o
Reino do Brasil explodiria em diversas repúblicas, ao igual ao ocorrido com os vice-reinados espanhóis, através das possessões
hispano-americanas.
Porém, um grande problema angustiava os grandes senhores de todo o Brasil. Como realizar a independência sem comprometer a ordem
escravista, base da produção e da sociedade em todas províncias? Fortes choques militares colocariam em perigo a submissão dos
cativos e a manutenção do tráfico de trabalhadores escravizados.
Independência negreira
Os senhores sabiam que a guerra levaria ao alistamento e à fuga de cativos, como ocorrera quando da luta contra os holandeses. Havia
também o exemplo recente do Haiti, onde os cativos, sublevados, haviam fundado um Estado negro livre da escravidão. Os Estados
luso-brasileiros que abolissem a escravidão acolheriam cativos fugidos. As pequenas nações negreiras vergariam-se ao abolicionismo
britânico do tráfico.
O Estado monárquico, autoritário e centralizador foi partejado e embalado pelos interesses negreiros. A Independência deu-se sob a
batuta conservadora dos grandes proprietários e comerciantes de trabalhadores escravizados. Os ideários republicano, separatista e
federalista – fortes sobretudo entre as fracas classes médias regionais – foram reprimidos.
A independência do Brasil foi a mais conservadora das Américas. Os senhores brasileiros romperam com a coroa portuguesa e com o
absolutismo e entronizavam o autoritário herdeiro do reino lusitano. Cortavam as amarras com Portugal e asseguravam os interesses
portugueses. Mantiveram-se unidos sobretudo para garantir o abastecimento farto e a exploração dura dos trabalhadores
escravizados.
As forças liberais e federalistas regionais curvaram-se à proposta monárquica e unitarista sob a condição que a autonomia provincial
fosse discutida quando da Assembléia Constituinte, convocada antes mesmo da Independência. Em novembro de 1823, dom Pedro, digno
filho dos Braganças, pôs fim ao regime constitucional e às esperanças federalistas regionais, ao inaugural o primeiro golpe de
Estado militar do Brasil.

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A ferro e fogo
O golpe anti-constitucional de 1823, e a constituição autoritária imposta em 1824, no contexto de profunda crise da economia
escravista exportadora da época, determinaram período de forte instabilidade político-social, durante o qual as facções liberais das
elites regionais mobilizaram-se pela independência ou por maior autonomia regional.
Em 1824, a primeira revolta provincial contra o golpismo bragantino, promovida sobretudo pelos liberais e republicanos
pernambucanos – Confederação do Equador –, foi sufocado em um verdadeiro banho de sangue. Os líderes liberais foram executados sem
o julgamento garantido pela própria Constituição autoritária outorgada por dom Pedro.
A concentração despótica dos poderes e recursos provinciais pelo governo central, em contexto de decadência da economia escravista,
levou à deposição de dom Pedro, em 7 de abril de 1831, pelos farroupilhas, como eram chamados os liberais radicais de todas as
províncias. Porém, o poder terminou deslizando para as mãos dos liberais conservadores, reais detentores do poder econômico,
ou seja, de legiões de trabalhadores escravizados e de imensas parcelas de terras.
Em 7 de abril de 1831, com a partida de dom Pedro e com o fim do controle da administração e do exército por dignitários e oficiais
próximos do príncipe português, concluía-se finalmente a independência política do Brasil. Então, o poder central passou ao controle
dos representantes dos grandes escravistas, sobretudo do Rio de Janeiro.
3. Revoltas farroupilhas no Brasil e no RS
Apesar de ter debilitado as oposições provinciais, as limitadas concessões regenciais às reivindicações federalistas e liberais
lançaram o Império em profunda crise. A negativa da Regência de conceder a monarquia ou a república federativa quase pôs fim à
frágil unidade nacional brasileira, pactuada havia dez anos.
Através de todo o Brasil, um rosário de movimentos liberais federalistas e liberais separatistas convulsionou a Regência e o início
do II Império: Ceará (1831-2); Pernambuco (1831-5); Minas Gerais (1833-5); Bahia (1837-8); Grão-Pará (1835-40), Maranhão (1838-41);
Rio Grande do Sul (1835-45).
O centralismo imperial teria sido possivelmente vergado se cabanos, balaios, sabinos, praieiros, sul-rio-grandense etc. tivessem
coordenado suas lutas. Isolados, os movimentos farroupilhas regionais foram esmagados, sucessivamente, um após o outro, pelo poder
central.
Liberais radicais
É um acaso histórico que apenas os farroupilhas sulinos sejam conhecidos pela denominação comum a todos os liberais radicais de
então. É erro deduzir romanticamente o termo farroupilha/farrapo dos uniformes em frangalhos dos últimos combatentes sulinos.
Os movimentos liberais regenciais foram impulsionados pelas elites dissidentes regionais. No Maranhão (Balaiada) e no Grão-Pará
(Cabanagem), as revoltas liberais assumiram claro caráter social com o ingresso na pugna de pobres, caboclos, cativos, quilombolas,
etc. O que levou as elites regionais liberais a abandonarem a luta, submetendo-se ao tacão imperial.
Os liberais sulinos reivindicavam a autonomia federativa, e, a seguir, a república separatista. Sobretudo, o movimento interpretou
as reivindicações dos criadores do meridião, então hegemônicos. A longevidade da revolta deveu-se também ao fato de as elites
sulinas manterem as classes subalternas regionais à margem do movimento.
Em geral, os comerciantes, a população urbana, os colonos alemães, etc. optaram pelo Império, levando a que os farrapos perdessem
rapidamente o controle das grandes cidades e, sobretudo, do litoral. Porto Alegre resistiu por três vezes ao cerco farroupilha.
O programa liberal-latifundiário farroupilha pouco propunha para esses setores sociais.
A questão oculta
Em 1835, no início da revolta, os farroupilhas controlaram quase toda a província. Em 1845, ao concluir-se o movimento,
encontravam-se arrinconados nos pampas da fronteira sul. Tal fato também se deveu à defecção dos grandes comerciantes e
charqueadores escravistas, temerosos que a vitória do movimento separatista comprometesse o tráfico internacional de trabalhadores
escravizados.
Os farroupilhas jamais foram revolucionários ou reformistas sociais e políticos. Entretanto, continua-se a insistir sobre o pretenso
caráter revolucionário do movimento sobretudo porque boa parte das tropas farrapos foram formadas por peões pobres e ex-cativos.
Os senhores farroupilhas e imperialistas preferiam que outros lutassem e morressem por seus ideais. Muito logo, os exércitos
republicanos e monarquistas formaram-se com contingentes de peões, nativos e cativos africanos e afro-descendentes libertos.
Quando da guerra, boa parte dos gaúchos livres eram descendentes de nativos guaranis e pampianos, que haviam perdido, para os grandes
latifundiários, no século anterior, suas terras ancestrais. Eles acompanhavam seus caudilhos nos combates, como faziam-no
tradicionalmente nas lides dos campos.
Churrasco e saque
Não foi o ideal liberal-republicano que levou o gaúcho pobre à guerra. Quando os caudilhos trocavam de lado, sem pudor, os peões
faziam o mesmo. Bento Manuel mudou de bandeira diversas vezes, sempre seguido por sua gauchada. Para o peão, o ideário farroupilha
significava sobretudo soldo, churrasco e saque.
Quando chamado às armas, o homem livre tinha o direito de substituir-se. Em geral, alforriava um cativo para ocupar seu posto no
combate. Arrolavam-se nas tropas republicanas cativos dos inimigos da República e compravam-se trabalhadores escravizados de
cidadãos da república para preencher os vazios das tropas.
Os soldados negros que combateram faziam-no obrigados, por preferirem a vida militar à escravidão, por sonharem com liberdade após
a luta, jamais obtida. Não houve democracia racial nas tropas farrapas. Soldados negros e brancos marchavam, comiam, dormiam e
morriam separados. Os oficiais dos combatentes negros eram brancos.
A Constituição farroupilha dizia: "A República do Rio Grande é a associação política de todos os cidadãos rio-grandenses". Ou seja,
dos "homens livres nascidos no território da República". A República erguia-se sobre a mesma pedra angular do Império: o latifúndio
e a escravatura. O índio e o cativo não eram e não seriam cidadãos.
República dos senhores
Os principais chefes farrapos eram ferrenhos escravizadores. Ao ser enviado preso para a Corte, Bento Gonçalves da Silva levou
consigo um negro doméstico, para servi-lo. Ao morrer, legou terras, gado e meia centena de trabalhadores escravizados, numa época
em que um cativo valia um bom patrimônio.
Os farroupilhas jamais acenaram com a distribuição de terras, aos gaúchos, e com o fim do cativeiro, aos cativos, como fizera
Artigas, na Banda Oriental. Os farroupilhas sequer propuseram o fim do tráfico transatlântico de homens. Nas filas farroupilhas, as
veleidades emancipacionistas foram facilmente silenciadas e abafadas. Sustentada sobretudo com o sangue do peão sem terra e do negro
liberto, a revolta era das elites, para as elites.
Recorda-se sempre que, para abater as armas, os farrapos exigiram, insistentemente, que o Império respeitasse a liberdade dos
soldados negros. Nos fatos, temiam que se formasse uma guerrilha negra na província, ou que os combatentes negros homiziassem-se no
Uruguai, caso temessem a reescravização. E, nos últimos anos da guerra farrapa, já se pensava na intervenção na Banda Oriental ...
A infâmia de Porongos
Na madrugada de 14 de novembro de 1844, em conluio com Caxias, chefe das forças imperial, David Canabarro, principal general
farrapo, entregou os soldados farroupilhas negros ao inimigo, desarmados. No serro de Porongos, foi dizimada a infantaria negra,
acelerando a paz entre os amos farroupilhas e imperialistas.
A rendição de Poncho Verde foi acordo de cavalheiros entre senhores. Não havia contradições essenciais entre os chefes imperialistas
e republicanos. Os fazendeiros farroupilhas não haviam conseguido impor a separação da província, o Império não manteria o controle
sobre ela sem a colaboração dos grandes criadores. Muito logo, os ex-farrapos marchariam, sem pejo, sob a bandeira imperial contra
o Uruguai e a Argentina, em defesa da extra-territoriedade de suas imensas fazendas nos departamentos setentrionais da Banda
Oriental.
4. A Invenção da Tradição – Império e República Velha
Nas décadas seguintes ao fim da guerra separatista, facções das elites sul-rio-grandenses apropriaram-se da memória farroupilha,
adaptando-a aos seus objetivos. Esse processo foi permitido pelo conteúdo nulamente social daquele movimento, onde as classes
subalternizadas jamais intervieram em forma autônoma.
No Segundo Reinado [1840-1889], o desenvolvimento da cafeicultura, no Centro Sul, relançou, no Sul, a criação de mulas para o
transporte e a produção de charque para os trabalhadores escravizados. A boa conjuntura permitiu às elites pastoris retomaram o
poder político regional, através do Partido Liberal, incontestavelmente hegemônico no Rio Grande, de 1866 a 1889.
O Partido Liberal expressava os criadores do meridião que haviam dirigido a revolta de 1835. Devido à importância dos cativos nas
grandes fazendas e charqueadas, os liberais sul-rio-grandenses defendiam a escravidão, ao contrário do que faziam no resto do país,
onde apoiavam em geral o emancipacionismo. Discutindo a sorte do cativeiro, o grande tribuno liberal Gaspar Silveira Martins
declararia amar “mais sua pátria do que o negro”.
Os liberais reivindicaram facilmente a memória farroupilha, que permaneceu propriedade das classes pastoris do meridião, como no
passado. Porém, os liberais, agora monarquistas, reivindicando apenas apenas a descentralização dos poderes imperiais, abandonavam
duas grandes bandeiras farroupilhas – a separação e a república.
Urbanos e abolicionistas
Em 1878, em Porto Alegre, fundou-se o Clube Republicano “Bento Gonçalves”. A seguir, fez-se o mesmo em outras cidades do interior.
Saídos das frágeis classes médias, os primeiros neo-republicanos sulinos desenvolveram ativa agitação abolicionista, com poucos
resultados, em província dominada pelos grandes criadores e charqueadores escravistas.
Entretanto, agora, por primeira vez, a memória farroupilha era apropriada por grupos sociais, política e geograficamente estranhos
ao movimento de 1835. O mundo urbano e as classes médias jamais haviam sido farroupilhas. Os líderes farrapos abominavam a
libertação dos trabalhadores escravizados. Bento Gonçalves morrera como grande escravista. Acelerava-se a manipulação da memória
farroupilha.
Em fevereiro de 1882, em Porto Alegre, meia centena de delegados elegeram a comissão organizadora do Partido Republicano
Rio-grandense. Logo, o PRR foi controlado por jovens filhos de ricas famílias de criadores, sobretudo do centro e do norte do RS,
chegados em boa parte da escola de Direito de São Paulo. Eles defendiam modernização conservadora do Rio Grande.
No início de 1880, em São Paulo, alguns desses universitários – Borges de Medeiros, Júlio de Castilhos, Pinheiro Machado, etc. –
fundaram o Clube 20 de Setembro, para celebrar o republicanismo sulino. Em 1882, a pedido dos seus pares republicanos, o jovem Assis
Brasil escreveu sua História da república rio-grandense.
A pátria pequena
Sem ser separatista, o PRR desenvolveu virulenta pregação republicana e federalista. Os jovens jacobinos defendiam a autonomia
regional e a diversificação produtiva, para superar a estagnação da economia pastoril-charqueadora. A República Farrapa tornava-se
referência da propaganda dos positivistas radicais, adeptos das “pequenas pátrias” de Auguste Comte.
Momentos antes da República, o jovem líder republicano Júlio de Castilhos propôs a celebração do 20 de Setembro. Com o golpe militar
anti-monárquico de 15 de novembro de 1889, apoiado primeiro pelo marechal Deodoro da Fonseca, a seguir por Floriano Peixoto, os
republicanos sulinos empalmaram o poder regional, institucionalizando a leitura positivistas do passado farroupilha.
Em 14 de julho de 1891, promulgava-se a constituição republicana sulina, cópia quase literal do anteprojeto escrito por Júlio de
Castilhos. A primeira constituição sul-rio-grandense determinava que as “insígnias oficiais do Estado” seriam as do "pavilhão
tricolor criado pelos revolucionários [...] de 1935”.
Para manterem-se no poder e implementar o novo projeto, os republicanos positivistas vergaram as forças do meridião pastoril, na
mais sangrenta guerra civil conhecida Sul. A revolta farrapa foi rusga de namorados, ao lado da carnificina de 1893-5. A Revolução
Federalista ceifou mais de dez mil vidas, em uma população de um milhão de habitantes.
Somos todos farrapos
Durante o confronto, os fazendeiros do meridião, herdeiros sociais, políticos e territoriais dos farroupilhas liberais, reunidos sob
a nova bandeira federalista, foram acusados de monarquistas e de separatistas pelos castilhistas, republicanos e federalistas
extremados. Reinterpretada, a memória farroupilha escorregava das mãos dos grandes fazendeiros para as dos jacobinos do PRR.
Os republicanos positivistas assumiam a herança simbólica da revolta latifundiária-pastoril, que vestiam com nova roupagem.
Enfatizando o autonomismo e o republicanismo farrapos, alicerçavam simbolicamente o republicanismo federalista radical defendido
pelo PRR através de toda a República Velha [1889-1930].
Na nova versão, a memória farroupilha passava a ser herança de todo sulino, não importando sua origem étnica – negro ou branco –;
sua origem social – pobre ou rico –; sua região de nascimento – Campanha, Litoral, Serra, etc. Manipulava-se a história,
apresentando o movimento como de toda a população do Rio Grande, contra o Estado central.
O mito da unidade da população, no passado, na luta por ideal único republicano e autonomista, fortalecia a proposta de comunhão de
interesses do sul-rio-grandense, no presente, pilastra da ordem republicana autoritária que regeu o Rio Grande até a chamada
Revolução de 1930. Nesse processo, a história desvanecia por detrás do mito.
5. A invenção da tradição: o Movimento Tradicionalista Gaúcho
Na República Velha [1889-1930], o Rio Grande foi talvez o Estado mais cioso de sua autonomia federal, assentada em uma economia em
boa parte voltada para o mercado interno sulino. Nesses anos, o RS foi o único Estado que jamais conheceu intervenção federal.
A independência sul-rio-grandense seria vergada apenas em 1930, por Getúlio Vargas, gaúcho e ex-militante, desde a juventude, do
PRR.
A chamada Revolução de 1930 e, sobretudo o golpe do Estado Novo, de fins de 1937, promoveram a propagação autoritária do sentimento
de brasilidade. Com ele, buscava-se consolidar cultural e ideologicamente a formação em curso de mercado e de indústria nacionais
centrados no eixo Rio-São Paulo. Para tal, foram fortemente reprimidos os sentimentos regionalistas.
Durante a “Proclamação ao Povo Brasileiro”, de 10 de novembro de 1937, Vargas denunciou o “caudilhismo regional” que, segundo o
ditador, ameaçava a unidade nacional brasileira. Em gesto simbólico, mandou queimar publicamente as bandeiras regionais, ardendo,
entre elas, o estandarte criado por seus antigos mestres, Castilhos e Borges, em 1891!
A seguir, o Estado Novo promoveu a invenção de cultura nacional, como substrato da identidade nacional proposta e imposta. Para
isso, o getulismo apoiou fortemente a seleção futebolística nacional; difundiu o carnaval e o samba cariocas; financiou o surgimento
de arquitetura moderna brasileira etc.
Brasileiros para o Brasil
Criaram-se e adaptaram-se órgãos e associações destinados a divulgação-imposição do sentimento de amor à Pátria e à Nação, entre
eles, a Liga de Defesa Nacional; a Juventude Brasileira; o Departamento de Imprensa e Propaganda; a Hora do Brasil; a Rádio Nacional,
etc. As iniciativas contaram com o apoio de grande parte da intelectualidade brasileira e, logicamente, sul-rio-grandense.
A campanha de nacionalização reprimiu os sentimentos regionalistas fortalecidos na República Velha. O separatismo farroupilha passou
a ser execrado. Nesses anos, historiadores do Instituto Histórico e Geográfico do RS negaram, de mãos juntas, contra todas as
evidências históricas, o independismo farrapo. O mesmo seria também feito, após 1964, por historiadores acadêmicos.
A dominância das relações econômico-sociais nacionais sobre as regionais exigia que o sul-rio-grandense deixasse de ser sobretudo
gaúcho, para passar a ser essencialmente brasileiro. Ainda que, em âmbito local, a identidade gaúcha – leitura romantizada da vida
pastoril – mantivesse seu caráter dominante sobre as outras identidades sulinas possíveis – escrava, imigrante, operária, etc.
Durante o Estado Novo, a posição econômica e política relativa do Rio Grande recuou em relação ao Rio de Janeiro e São Paulo, que se
industrializaram aceleradamente. As elites sulinas aceitaram a subordinação imposta, preocupadas em manter a dominância regional.
A industria sulina cresceu em ritmos menores do que a de São Paulo e Rio de Janeiro e se manteve a importância relativa da produção
rural e pastoril sulina.
O Novo Tradicionalismo
Com a derrota do nazi-fascismo e a redemocratização conservadora de 1945, a perda de importância relativa do Rio Grande ensejou
movimentos culturais regionalistas que reafirmavam a especificidade sulina, em oposição à proposta nacional-centralizador getulista
que marginalizara relativamente o Estado sulino.
Em vez de apontarem para o rompimento com um passado que determinara, em última instância, esse atraso, esses movimentos
reivindicaram o passado rural-latifundiário arcaico, apresentando-o em forma utópica e idealizada como espécie de Era de Ouro
pampeana perdida.
Em 1947, em Porto Alegre, alguns filhos de proprietários rurais fundam movimento regionalista que, apoiados no mito da democracia
pastoril e do caráter libertário farroupilha, propunha o culto da ideologia latifundiária-pastoril. O movimento expressava também
a rejeição ao plebeísmo democratizante da sociedade urbana-industrial e o fortalecimento político e social das classes trabalhadoras
industriais sulinas.
Essa releitura do passado retomava a visão pastoril liberal-federalista do movimento farroupilha, repudiando a interpretação
urbana-industrialista do castilhismo. A Guerra Farroupilha surgia apenas como uma expressão, entre outras, da excelência da
sociedade pastoril-latifundiária, apontada como síntese da essência do povo gaúcho.
O mito da unidade
Também em 1947, Érico Veríssimo começou a escrever O Continente, primeira parte de sua trilogia regionalista, onde mitifica
igualmente a história gaúcha, realizando o elogio póstumo da economia pastoril-latifundiária. Também nesse romance, é mínimo o
espaço dedicado às classes subalternizadas no passado – peões pobres e trabalhadores escravizados.
O Tradicionalismo organizou-se em torno dos Centro de Tradições Gaúchas – CTG –, espécie de ludização da fazenda pastoril, onde
peões confraternizam sob a presidência do patrão. Para não perder sua funcionalidade, essa interpretação do passado ignorou o papel
do trabalhador escravizado no passado sulino, em geral, e na grande fazenda pastoril, em especial.
O Tradicionalismo surgia, em 1947, em plena Guerra Fria, em época em que as classes operárias gaúcha e brasileira começavam a
expressar-se no cenário político, em forma tendencialmente autonômica. Ou seja, quando se materializavam nas esfera das relações
políticas e das representações culturais os antagonismos sociais profundos que haviam dividido, desde sempre, o Rio Grande.
No contexto de uma sociedade crescentemente industrial, o novo regionalismo construía discurso ideológico que tentava abafar a
consciência sobre as contradições sociais, através do mito do destino comum de explorados e exploradores, construído em torno do
culto à propriedade pastoril latifundiária e de seu proprietário – o patrão.
Então já hegemônico, o capital industrial sulino apoiou o movimento, solidário com sua essência conservadora, já que a debilidade
econômica do latifúndio descartava-o como força política concorrente. Em setembro de 1964, a Assembléia Legislativa
institucionalizou a Semana Farroupilha, comemorada de 14 a 20 de setembro, através do Rio Grande do Sul.
6. O Mito Fundador – A Democracia Pastoril
Em 1923, a derrota da insurreição armada assisista assinalou a definitiva submissão política do campo pela cidade no Rio Grande do
Sul. Em 1927, desde a ótica do latifúndio pastoril, Salis Jorge Goulart publicou A formação do Rio Grande do Sul, tida como a
primeira tentativa de análise estrutural da história sulina.
Em uma época em que a produção colonial-camponesa do norte gaúcho já superava a produção latifundiária-pastoril do meridião, o autor
baseava sua explicação da formação sulina nos mitos “da democracia pastoril” e da “produção sem trabalho”, aos quais também procurou
dar uma base sociológica sistemática.
Para o jovem ideólogo do latifúndio, o processo de formação sulino diferenciara-se do resto do Brasil que, desde o berço, apoiara-se
na despótica exploração do índio e do negro escravizados. Para ele, ao contrário, a formação social sulina teria nascido e se
desenvolvido à margem das diferenças e contradições de classes.
No Sul, a “influência geográfica” das “vastas extensões territoriais” e a “grande quantidade de alimentos fornecidos pelos rebanhos”
haviam gerado o latifúndio pastoril, “célula social” do “organismo coletivo” rio-grandense, que se apoiara essencialmente no
trabalho solidário e não-compulsório.
Meu patrão, meu amigo
Nessa estranha “terra sem males”, onde o alimento surgia da terra sem exigir o suor humano, com “a subsistência garantida em
qualquer parte”, o “trabalhador” jamais se empregara sob o chicote da necessidade, servindo “espontaneamente” ao “patrão, de quem
era “mais um amigo do que um subordinado”.
Portanto, tratava-se de uma sociedade nascida sob verdadeira “indiferenciação de classes”, formada essencialmente por “uma classe
única, a dos gaúchos” que, fossem “ricos ou pobres”, igualavam-se sempre “pelo garbo dos gestos, pelo amor da guerra, pelo gosto das
aventuras”.
Gaúchos preocupados apenas com a “galhardia do pingo, felizes na roda amistosa do chimarrão, entre relatos guerreiros ou façanhas
dos dias de rodeio”. Gaúchos que possuiriam, “todos, humildes e potentados, os mesmo hábitos, os mesmos costumes, os mesmos
ideais”.
Um mundo em que “patrões e empregados alimentavam-se com o mesmo churrasco e o mesmo chimarrão, cavalgavam os mesmo animais e juntos
entregavam-se às mesma fainas dos campos, às mais velozes correrias [...].” Sociedade onde o “empregado” “não criava interesses
opostos aos do patrão”, identificava-se “com ele”, tornava-se “seu amigo e, por assim dizer, seu igual.”
Poucos e tarde
Era clara a contradição posta à proposta da democracia pastoril pela importância do cativo no Sul. Na solução do paradoxo que se
elevava entre o mito e a história, Salis Goulart simplesmente negou a importante introdução de cativos desde os primórdios sulinos e
sua contribuição às atividades criatórias.
Segundo ele, a origem singular do Rio Grande deveria-se ao “pouco” “contingente de escravos” e ao fato de que o “espírito
democrático” sulino “se formara antes da grande introdução do elemento negro”, que teria conhecido no Sul condições de vida
superiores às do resto do Brasil.
“Julgamos que o nosso espírito democrático já se formara antes da grande introdução do elemento negro. Esse ponto de vista explica o
fato de serem, como relatam os historiadores, os escravos melhor tratados aqui [...].” Para ele, o Rio Grande, em geral, e a fazenda
pastoril, em especial, seriam sobretudo produto do trabalho livre.
Salis Goulart não inventou nada. No preciso momento em que se consolidava a superação do latifúndio pastoril pela produção colonial
e urbana, sistematizou, com inteligência e criatividade, os mitos já existentes da “democracia pastoril” e da “produção pastoril sem
trabalho”.
A invenção da memória
As romantizações históricas não são simples resultados de uma conspiração consciente de intelectuais com o objetivo de escamotear
as contradições étnico-sociais do passado, para melhor domesticar as classes subalternas do presente. Não são meras estórias
construídas por imaginações fantasiosas a partir de elucubrações arbitrárias.
Não é condição suficiente à universalização das apologias que sejam profusamente difundidas pelas elites. Em geral, elas são
produtos de uma longa elaboração coletiva das classes que as patrocinam, através da potenciação-generalização de fatos
circunstanciais, da ocultação-distorção de fenômenos essenciais, da projeção no passado de expectativas sociais jamais
cumpridas.
A apologia pastoril da identidade entre fazendeiros e trabalhadores apoiava-se na ausência de movimentos multitudinários de luta de
peões pela terra. No século 19, para estabelecer-se como criador, o gaúcho pobre necessitava de talvez não menos de mil hectares.
Realidade que dificultava, naquele então, objetivamente, a luta pela divisão dos latifúndios.
Fenômeno que não impediu o confronto social incessante, expresso no abate selvagem de gado, pelo gaúcho, pela carne e pelo couro, e
na sua luta por um naco de terra onde levantar seu rancho. A ojeriza do latifundiário ao sem-terra, nos dias de hoje, repete o
horror, no passado, de seu ancestral, do peão em busca de um lugar onde levantar um rancho.
Luta social no campo
As apologias pastoris sobre as condições idílicas de vida dos trabalhadores escravizados sulinos extremam e generalizam para todo
o Rio Grande as relativamente melhores condições de trabalho dos cativos campeiros, em relação aos negros das charqueadas, das
olarias, dos curtumes, das plantações, no Sul e no resto do Brasil.
A produção pastoril era atividade extensiva semi-natural, que se baseava nas condições naturais das fazendas – pastagens, aguadas
etc. – e no esforço humano. Realidade que restringia, e não abolia, a produção crescente de lucro monetário através da
intensificação de extração de trabalho excedente. Para o peão e o cativo, o trabalho pastoril era um jogo, apenas se comparado ao
trabalho duro na charqueada e na plantação.
Porém, o trabalho escravizado negava, essencialmente, as representações de uma sociedade pastoril edênica. Assim sendo, em
verdadeira limpeza étnica, as narrativas apologéticas simplesmente ignoraram, como o fez Salis Goulart, o papel sistêmico do cativo
campeiro nas ricas fazendas criatórias.
A Idade de Ouro
As representações sobre a fazenda pastoril no passado sulino foram levantadas sobretudo através da generalização das condições de
trabalho das pequenas fazendas de subsistência, exploradas pelo fazendeiro e seus familiares, já que incapaz de comprar um cativo
ou assalariar um peão.
A facilidade com que as narrativas sobre a democracia pastoril universalizaram-se no Rio Grande atual, processo que se registra
sobretudo através da grande adesão popular aos relatos nativistas, deve-se igualmente a fenômenos recentes.
Estressadas pelas contradições da sociedade capitalista, em forma inconsciente, os segmentos sociais populares e médios, sem forças
e canais para concretizarem suas expectativas no presente, voltam-se para o passado, recriando uma imaginária idade de ouro,
solidária e fraterna, onde o trabalho alienado era aventura lúdica e criativa.
Manipuladas pela elites, as mitificações do passado assumem sentido social negativo ao escamotear a história real das classes
trabalhadoras e a verdadeira essência da formação social sulina, apresentando-as como mundos em que o lobo apascentava o cordeiro,
em que o explorador fraternizava com o explorado.
7. O MTG contra o Capitão Gay
O turista mostra apreensivo na alfândega italiana a mala com o valioso cálice etrusco comprado a peso de ouro ao arqueólogo furtivo.
Displicente, o policial pouca atenção dá à peça contrafeita rusticamente que repousará sobre centenas de lareiras de incautos e
orgulhosos compradores norte-americanos.
Movimento Tradicionalista Gaúcho não busca no passado valores originais que iluminem o presente. Simplesmente apresenta como bens
pretéritos visões do presente avelhentadas rusticamente para parecerem desterradas do tempo.
Em Nativismo: um fenômeno social gaúcho, Barbosa Lessa confessou com grande honestidade intelectual como o tradicionalismo procedeu,
não raro na “votação”, a “invenção das tradições” gaúchas. “Quando algum elemento faltasse para a nossa ação, nós teríamos de suprir
a lacuna de um jeito ou outro.”
Criado por filhos de fazendeiros, o MTG leu o passado com os olhos do latifúndio moderno. Suas interpretações romantizadas da
sociedade pastoril-latifundiária monopolizaram o passado, esterilizando a real, rica, contraditória e semi-desconhecida história
sul-rio-grandense.
A alegoria do latifúndio feliz dissolveu a diversidade e a contradição do passado. Ela negou espaço histórico ao nativo sulino e ao
missioneiro e a suas lutas pela defesa da terra ancestral; ao peão pobre e ao gaúcho vago e quarteiro, na sua oposição ao criador;
ao trabalhador escravizado, trabalhador, fujão, quilombola e justiceiro.
Diversidade e Contradição
O tradicionalismo desconheceu a rica e dolorosa trajetória histórica da mulher. A sua pretensa doce submissão ao marido, no passado,
teatralizada na submissão da prenda do CTG ao peão e ao patrão, no presente, apresenta imagem idealizada da fazendeira como sinônimo
de toda mulher sulina.
Na sociedade pastoril-latifundiária, o trabalho era monopólio do pobre e do cativo. O ato produtivo transformador da natureza era
signo de inferioridade. Nesse universo mandonista, os fazendeiros sobreviviam impondo-se pela violência aos subalternizados.
A coragem era a qualidade paradigmática senhorial. O gaúcho-fazendeiro devia ser macho, pouco importando sua disposição ao trabalho.
Personagem-síntese do gaúcho em O continente, de Érico Veríssimo, o capitão Rodrigo era femeeiro e pouco amigo do trabalho. Mas
brilhava pela macheza.
O grande signo da sociedade pastoril não foi a enxada, mas o rebenque. Com ele, o fazendeiro domesticava o animal bravio e,
protegido pelo capataz, chegava-se às costas do cativo desobediente e ao rosto do peão impertinente, em castigo físico degradante.
Nas cavalgadas urbanas, tradicionalistas expõem valiosos rebenques de cabos de prata.
Nos gestos, falas e canções, os tradicionalistas cultuam a imagem mítica do gaúcho-fazendeiro que defendia seus latifúndios,
impondo-se despótico as suas mulheres, peões, cativos e lindeiros. Reconstrução funcional em momento em que milhares de
trabalhadores sem terra lutam por um naco de terreno onde possam trabalhar.
Surge o Capitão Gay
Sem maior sucesso, o movimento gay brasileiro tem lançado candidatos a cargos legislativos. Em fins de 2002, procurando a exposição
à mídia, imprescindível ao sucesso eleitoral, candidato gay ao legislativo sulino por partido conservador, já derrotado como
candidato a vereador em Pelotas, assumiu a personagem do Capitão Gay, em referência aos personagens do humorista Jô Soares e do
ficcionista Érico Veríssimo.
A transfiguração possuía múltiplas mensagens e reivindicações, implícitas e explícitas, conscientes e inconscientes. Entre elas, o
direito do homossexual masculino de participar de pleno direito do MTG e a proposta de que a destemerosidade pessoal é também
qualidade do gay. Idéia que é um quase truísmo. E se alguém dela duvida, que vá separar uma dessas desesperadas e furiosas disputas
urbanas de travestis, à navalha, por um pedaço de calçada.
O Capitão Gay trazia também à discussão tabu da história sulina. Ou seja, a sexualidade do peão, trabalhador pastoril do passado, eternamente solteiro, devido à negativa do fazendeiro de ceder naco de terra para arranchar-se com sua china. Em geral, na fazenda, fora o patrão, apenas o capataz casava e procriava, fenômeno que determinou a débil expansão demográfica pastoril do meridião do RS, uma das razões de seu atual atraso.
Reduzido ao celibato, vivendo em latifúndios onde escasseavam as mulheres, o gaúcho concretizou os impulsos erótico-sexuais como
pôde. Em geral, se reconhece seus hábitos bestialistas, mantendo-se porém silêncio sobre suas relações homoeróticas, finamente
abordadas no conto A intrusa, de Jorge Luis Borges que inspirou a sensível obra cinematográfica homônima de Carlos Christensen
[1979].
Gaúcho desinteressado
O francês Nicolau Dreys viveu no Sul em 1817-27. Em relato, anotou que o gaúcho não tinha “mulheres”, mostrando por elas “pouca
atração” [sic]. Pesquisas históricas demonstrarão certamente que o gaúcho destemido do passado podia eventualmente ser um gay, por
natureza ou necessidade.
Em Porto Alegre, durante o desfile de 20 de Setembro de 2002, ao desfraldar a bandeira arco-íris do movimento homossexual, diante
do palanque oficial, o Capitão Gay foi perseguido e surrado a rebenque, como anunciado, por cavalarianos tradicionalistas. Em 7 de
setembro, já fora impedido de entrar no mega-acampamento ruralista, promovido anualmente em parque público municipal de Porto
Alegre, cidade que jamais se rendeu aos farroupilhas.
Em uma metáfora histórica, os regionalistas perseguiram e golpearam, matreiramente, em grupo, um tradicionalista que ousou
enunciar, isolado, sua diversidade, ao igual que os fazendeiros surravam no relho, no passado, protegidos pelos prepostos, o peão
e o cativo alçado. A covarde violência do presente espelhou-se e inspirou-se no barbarismo do passado.
Há quase meio ano dos fatos, o cidadão ofendido, em especial, e a população sul-rio-grandense humilhada, em geral, não conheceram
a devida reparação mínima através da expulsão pública e notória pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho de seus associados siderados
pelo ódio homofóbico.
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Um Certo Capitão Rodrigo


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MÁRIO MAESTRI
Professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS.
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