Hilda
Furacão |
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"o feitiço volta-se contra o feiticeiro. Desde que foi lançada a campanha a favor da Cidade das Camélias, a Zona Boêmia
é um promontório da alegria. sugere os últimos dias de Pompéia. Tudo lá é encantado. A rua principal, a Guaicurus, conhece noites
inesquecíveis. E nunca se viu tanto dinheiro. O vendedor de churrasquinhos triplicou as vendas. No restaurante Bagdá, especialista em
comida árabe, é preciso disputar um lugar. As mulheres dos hotéis de primeira, segunda , terceira e quarta categorias jamais foram tão
solicitadas. E na noite da última quinta feira, a polícia foi chamada para conter os ânimos dos que disputavam um lugar na fila que vai
dar num território mágico: o quarto 304, no terceiro andar do Maravilhoso Hotel onde Hilda Furacão é uma fada sexual." |
O romance Hilda Furacão (1991) tem uma proposta narrativa interessante, bem ao gosto pós moderno.
Várias ações transcorrem no texto conferindo uma dinâmica que prende o leitor à narrativa, perseguindo um desfecho que nos é
insistentemente prometido. A história central focaliza a personagem que dá nome ao romance, Hilda Furacão.
Entretanto, o lugar de protagonista é disputado pelo narrador que conta a sua história e ao
contá-la, conta várias outras histórias,
que se entrelaçam formando um tecido
de conflitos que vamos conhecendo e com os quais muitas vezes nos identificamos.
Os capítulos se sucedem ao modelo dos folhetins, criando um suspense que buscamos desvendar com a leitura do próximo,
sucessivamente.
Essa técnica permite que, a cada capítulo, as personagens se revezem
e ganhem um destaque na trama.
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Isto é tão evidente que a obra já foi encaminhada para o teatro pela direção de Marcelo Andrade e ainda ganhou projeção nacional ao
se tornar uma grandiosa mini-série homônima, na Rede Globo.
O cenário principal da obra é a capital mineira do final dos anos 50 e início dos anos 60 (lembramos que o autor reside em Belo
Horizonte e hoje representa um dos grandes nomes do jornalismo mineiro), mas há que se falar no cenário secundário que é a pacata cidade
de Santana dos Ferros.
Personagens
Roberto É o alter-ego biográfico do jornalista Roberto Drummond. Jovem comunista e idealista que ama a bela M.
Aramel, o belo "nunca houve homem mais belo que Aramel", jovem que almeja o estrelato hollywodiano por sua aparência
de galã. Acaba por tornar-se um cafetão a serviço do poderoso Antônio Luciano.
Após um desencontro amoroso humilhante vai para os EUA e torna-se gângster
Frei Malthus o pivô do grande romance _ julgado pela comunidade como "o santo"_ este personagem se apaixonará pela
bela Hilda Furacão. O mito da cinderela é passado ao leitor quando do acidente que deixa o sapato de Hilda sob a posse do
frei que
tentará fugir do pecado martirizando-se e comendo o seu favorito doce de jabuticaba
As tias Ciana e Çãozinha são as representantes ( há vários flashes de Santana dos Ferros _ interior mineiro) do
conservadorismo e liberalismo. São as tias que Roberto trava correspondência constantemente.
Gabriela A primeira amada de Aramel, que fora contratado pelo traumatizado, gordo e tímido jornalista Emecê para
representá-lo no encontro marcado.
Antônio Luciano representante do poder econômico e político. Sua diversão era deflorar virgens_ e Aramel era o
encarregado de receptá-las.
Cenário / tempo / espaço
Alguns dizem que o romance é bairrista, e não é a verdade , pois o que se apura dessa obra é uma grande homenagem à cidade de Belo
Horizonte e tudo que faz dela um grande cenário natural para representar o microcosmo político e social do macrocosmo que era o regime
militar em seu tempo cultural e estético.
ESTRUTURA NARRATIVA
É muito presente nos textos de Roberto Drummond um constante diálogo com o leitor.
A esse diálogo entre textos do mesmo autor damos o nome de intratextualidade.
Outros diálogos intertextuais aparecem ao longo da narrativa, mesclando ditos populares e modinhas ao discurso narrativo. Outro
aspecto intertextual que se observa é a construção da intriga entre Hilda Furacão e Frei Malthus desencadeada a partir do sapato que
a moça perde e do qual o rapaz se apossa, tal ‘L qual acontece no conto da Gata borralheira ou Cinderela.,
Logo na abertura do romance, e nos capítulos que se seguem, Roberto narrador deixa claro que, por toda o texto, vai estar dialogando
com o leitor, fazendo-nos presentes no tempo da
enunciação, presente da narrativa. Essa é uma técnica bastante usada por nossos
escritores, em especial por Machado de Assis. e confere uma dinâmica interessante ao relato, tornando-nos quase cúmplices do
escritor.
Resumo
Como já dito anteriormente o romance é muito desfragmentado, pois possui constantes mudanças de enfoques. Para facilitar o nosso
trabalho proporemos que se faça duas leituras:
a. uma primeira que almeja desvendar o mistério da garota do maiô dourado ( a Hilda que desfilava sua beleza pelo Minas Tênis e
depois tornou-se prostituta);
b. uma segunda que mistura ficção e realidade histórica brasileira (ditadura militar e censura) o mais brilhante é que tudo
começa e termina no dia 1° de abril que simboliza o dia da mentira_ eis então a grande proposta ficcional do autor.
Roberto começa narrando em 1° pessoa a sua própria condição jovem de comunista e idealista. pretendo ser um grande jornalista e
irritadiço por compararem seu sobrenome com o grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Pelo que o narrador fala de si e da cidade
observamos que o tempo precede os anos de 64 (época do golpe militar).
Nesse ínterim, o narrador trava correspondência com as tias de Santana dos
Ferros, Tia Ciana e Çãozinha, que são as interlocutoras do
relato.
A grande trama da obra verifica-se no encontro entre o santo Frei Malthus e a bela Hilda no qual aquele, ao tentar expurgar o mal da
zona boêmia acaba enredado pela paixão que estabelece-se entre ele e Hilda.
Roberto é o jornalista que relatará ao leitor como estão acontecendo os fatos na zona boêmia (lembre-se que Malthus, Aramel e
Roberto são os três mosqueteiros amigos de infância e desta forma Roberto terá maior possibilidade de levantar dados para o leitor).
Após o desaparecimento do seu sapato, Hilda lança um concurso para que o devolvam então inicia-se um conto de
Cinderela às avessas pois
Malthus acabará por reconhecer o seu amor pela bela.
Contudo o final é triste pois ambos desencontram-se quando da fuga para viverem um grande amor Malthus será preso no primeiro dia de
vigência do golpe militar de 64.
Outras estórias entrecortam a narrativa _ a cidade de Santana dos Ferros e seus caso hilários demonstram a habilidade deste escritor o
episódio do Adão nu pintado pela artista Yara Tupinambá no painel da Igreja que foi fiel aos moldes do modelo escandaliza a cidade
entre elas está a tia Ciana, que passa a entrar na igreja de costas. Ou quando do milagre do choro da santa que tia Ciana descobriu
e que depois configurou um erro pois era urina do sobrinho do padre.
A história do Brasil ficcionada, apaixonada e brilhantemente pinçada pelas habilidosas tintas do escritor Roberto Drummond fazem desta
obra um marco da literatura contemporânea nacional.
| Fonte: Prof. Célia Flud Glaeser / Prof. André Lazarotte |
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