Hilda 
Furacão
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Hilda Furacão
de Roberto Drummond

Fontes*

"o feitiço volta-se contra o feiticeiro. Desde que foi lançada a campanha a favor da Cidade das Camélias, a Zona Boêmia é um promontório da alegria. sugere os últimos dias de Pompéia. Tudo lá é encantado. A rua principal, a Guaicurus, conhece noites inesquecíveis. E nunca se viu tanto dinheiro. O vendedor de churrasquinhos triplicou as vendas. No restaurante Bagdá, especialista em comida árabe, é preciso disputar um lugar. As mulheres dos hotéis de primeira, segunda , terceira e quarta categorias jamais foram tão solicitadas. E na noite da última quinta feira, a polícia foi chamada para conter os ânimos dos que disputavam um lugar na fila que vai dar num território mágico: o quarto 304, no terceiro andar do Maravilhoso Hotel onde Hilda Furacão é uma fada sexual."

O romance Hilda Furacão (1991) tem uma proposta narrativa interessante, bem ao gosto pós moderno.

Várias ações transcorrem no texto conferindo uma dinâmica que prende o leitor à narrativa, perseguindo um desfecho que nos é insistentemente prometido. A história central focaliza a personagem que dá nome ao romance, Hilda Furacão.

Entretanto, o lugar de protagonista é disputado pelo narrador que conta a sua história e ao
contá-la, conta várias outras histórias, que se entrelaçam formando um tecido
de conflitos que vamos conhecendo e com os quais muitas vezes nos identificamos.

Os capítulos se sucedem ao modelo dos folhetins, criando um suspense
que buscamos desvendar com a leitura do próximo, sucessivamente.
Essa técnica permite que, a cada capítulo, as personagens se revezem
e ganhem um destaque na trama.

Isto é tão evidente que a obra já foi encaminhada para o teatro pela direção de Marcelo
Andrade e ainda ganhou projeção nacional ao se tornar uma grandiosa mini-série homônima,
na Rede Globo.
O cenário principal da obra é a capital mineira do final dos anos 50 e início dos anos 60
(lembramos que o autor reside em Belo Horizonte e hoje representa um dos grandes nomes do jornalismo mineiro), mas há que se falar no cenário secundário que é a pacata cidade de
Santana dos Ferros.

Personagens

Roberto

É o alter-ego biográfico do jornalista Roberto Drummond. Jovem comunista e idealista que
ama a bela M.

Aramel, o belo

"nunca houve homem mais belo que Aramel", jovem que almeja o estrelato hollywodiano por sua aparência de galã. Acaba por tornar-se um cafetão a serviço do poderoso Antônio Luciano.
Após um desencontro amoroso humilhante vai para os EUA e torna-se gângster

Frei Malthus

o pivô do grande romance _ julgado pela comunidade como "o santo"_ este personagem se apaixonará pela bela Hilda Furacão. O mito da cinderela é passado ao leitor quando do acidente
que deixa o sapato de Hilda sob a posse do frei que tentará fugir do pecado martirizando-se e comendo o seu favorito doce de jabuticaba

As tias Ciana e Çãozinha

são as representantes ( há vários flashes de Santana dos Ferros _ interior mineiro) do conservadorismo e liberalismo. São as tias que Roberto trava correspondência constantemente.

Gabriela

A primeira amada de Aramel, que fora contratado pelo traumatizado, gordo e tímido jornalista
Emecê para representá-lo no encontro marcado.
Antônio Luciano

representante do poder econômico e político. Sua diversão era deflorar virgens_ e Aramel era
o encarregado de receptá-las.


Cenário / tempo / espaço


Alguns dizem que o romance é bairrista, e não é a verdade , pois o que se apura dessa obra é uma grande homenagem à cidade de Belo Horizonte e tudo que faz dela um grande cenário natural para representar o microcosmo político e social do macrocosmo que era o regime militar em seu tempo cultural e estético.

ESTRUTURA NARRATIVA


É muito presente nos textos de Roberto Drummond um constante diálogo com o leitor.
A esse diálogo entre textos do mesmo autor damos o nome de intratextualidade.
Outros diálogos intertextuais aparecem ao longo da narrativa, mesclando ditos populares e
modinhas ao discurso narrativo. Outro aspecto intertextual que se observa é a construção da
intriga entre Hilda Furacão e Frei Malthus desencadeada a partir do sapato que a moça perde e
do qual o rapaz se apossa, tal ‘L qual acontece no conto da Gata borralheira ou Cinderela.,
 

Logo na abertura do romance, e nos capítulos que se seguem, Roberto narrador deixa claro que,
por toda o texto, vai estar dialogando com o leitor, fazendo-nos presentes no tempo da
enunciação, presente da narrativa. Essa é uma técnica bastante usada por nossos escritores, em especial por Machado de Assis. e confere uma dinâmica interessante ao relato, tornando-nos
quase cúmplices do escritor.

Resumo

Como já dito anteriormente o romance é muito desfragmentado, pois possui constantes mudanças
de enfoques. Para facilitar o nosso trabalho proporemos que se faça duas leituras:

a. uma primeira que almeja desvendar o mistério da garota do maiô dourado ( a Hilda que desfilava sua beleza pelo Minas Tênis e depois tornou-se prostituta);

b. uma segunda que mistura ficção e realidade histórica brasileira (ditadura militar e censura)
o mais brilhante é que tudo começa e termina no dia 1° de abril que simboliza o dia da mentira_
eis então a grande proposta ficcional do autor.

Roberto começa narrando em 1° pessoa a sua própria condição jovem de comunista e idealista. pretendo ser um grande jornalista e irritadiço por compararem seu sobrenome com o grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Pelo que o narrador fala de si e da cidade observamos que o tempo precede os anos de 64 (época do golpe militar).

Nesse ínterim, o narrador trava correspondência com as tias de Santana dos Ferros, Tia Ciana e Çãozinha, que são as interlocutoras do relato. A grande trama da obra verifica-se no encontro
entre o santo Frei Malthus e a bela Hilda no qual aquele, ao tentar expurgar o mal da zona boêmia acaba enredado pela paixão que estabelece-se entre ele e Hilda. Roberto é o jornalista que
relatará ao leitor como estão acontecendo os fatos na zona boêmia (lembre-se que Malthus,
Aramel e Roberto são os três mosqueteiros amigos de infância e desta forma Roberto terá
maior possibilidade de levantar dados para o leitor).

Após o desaparecimento do seu sapato, Hilda lança um concurso para que o devolvam então inicia-se um conto de Cinderela às avessas pois Malthus acabará por reconhecer o seu amor pela bela. Contudo o final é triste pois ambos desencontram-se quando da fuga para viverem um grande amor Malthus será preso no primeiro dia de vigência do golpe militar de 64.

Outras estórias entrecortam a narrativa _ a cidade de Santana dos Ferros e seus caso hilários demonstram a habilidade deste escritor o episódio do Adão nu pintado pela artista Yara
Tupinambá no painel da Igreja que foi fiel aos moldes do modelo escandaliza a cidade entre elas
está a tia Ciana, que passa a entrar na igreja de costas. Ou quando do milagre do choro da santa
que tia Ciana descobriu e que depois configurou um erro pois era urina do sobrinho do padre.

A história do Brasil ficcionada, apaixonada e brilhantemente pinçada pelas habilidosas tintas do escritor Roberto Drummond fazem desta obra um marco da literatura contemporânea nacional.

Fonte: Prof. Célia Flud Glaeser / Prof. André Lazarotte


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Eustáquio Lagoeiro Castelo Branco
Webmaster, Webwriter, professor graduado em história e sociologia,
pós-graduado com especialização em informática educacional
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