Em "História do Brasil", o poeta Murilo brinca com nossa história
ao compor 60 poemas mal-comportados que abrange desde a
descoberta, até a Revolução de 1930.
É uma obra indicada para o vestibular 2007 da UFMG |
Murilo Mendes não é um historiador, é um poeta. Um dos mais importantes poetas modernistas
brasileiros
do inicio do século XX. Em 1930, inaugurava sua carreira com o livro Poemas. História do Brasil foi seu segundo
livro, publicado em 1933 e nele, o poeta mostra a sua cumplicidade com o movimento modernista de 1922, que seduzia a
intelectualidade naquela época. Nesta obra, pouco conhecida, Murilo Mendes, confirmou seu compromisso com o estilo
modernista dos manifestos de Oswald de Andrade (Manifesto da Poesia Pau-Brasil e Manifesto Antropófago) e sua adesão
ao espírito crítico-irônico de obras como Macunaíma, de Mário de Andrade.
Em "História do Brasil, percebemos, predomina a linguagem descontraída e coloquial.
O humor e a ironia são usados como instrumento crítico, revelando um posicionamento ao mesmo tempo satírico e elogioso
sobre os fatos de nossa história, com o estilo intencionalmente chocante que não dispensa a retórica ufanista.
São os poemas-piadas, recurso já utilizado por Mário e Oswald em seus escritos:
"Minha terra tem macieiras da Califórnia onde cantam gaturamos de
Veneza. (...)
Eu morro sufocado
Em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia."
Aliás, Murilo Mendes faz poemas num estilo "bem Oswald" proclamando sua
aversão, mas sem perder contato com "...a realidade social, vestida e
opressora..." preocupando-se em buscar uma identidade cultural do
homem brasileiro e trabalhando-a ludicamente. Satirizando as figuras e
os fatos históricos. Carnavalizando o estilo, usando palavras em duplo
sentido, abusando da
anáfora - repetição da primeira palavra em cada verso, ás vezes, sem
métrica e sem rimas:
“A terra é mui graciosa,
Tão fértil eu nunca vi.
A gente vai passear,
No chão espeta um caniço,
No dia seguinte nasce
bengala de castão de oiro.
Tem goiabas, melancias,
Banana que nem chuchu.
Quanto aos bichos, tem-nos muito,
De plumagens mui vistosas.
Tem macaco até demais
Diamantes tem à vontade
Esmeralda é para os trouxas.
Reforçai, Senhor, a arca,
Cruzados não faltarão,
Vossa perna encanareis,
Salvo o devido respeito.
Ficarei muito saudoso
Se for embora daqui”.
Na opinião do professor, poeta e crítico Júlio Castañon Guimarães,
esse livro rejeitado "é importante não só para a compreensão da
poesia de Murilo, mas também para uma leitura da produção modernista..
Trata-se de uma seqüência de poemas-piadas mais longos que recontam
satiricamente nossa história" (Guimarães,1993)
Em "História do Brasil", o poeta Murilo brinca com nossa história ao
compor 60 poemas
mal-comportados que abrange desde a descoberta, passando pela chegada da
família real,
passeando pela República velha até a Revolução de 1930.
Uma obra construída com uma pitada de irresponsabilidade inocente, juvenil e proposital, uma brincadeira de roda onde
os personagens de nossa história dançam e se revezam representando involuntariamente papeis que ridicularizam a visão
oficial da historiografia brasileira, onde o único compromisso é um humor caustico, mordaz, surrealismo e com
um leve toque de crítica social.
Breve Análise
Os 60 poemas encontrados no livro aborda períodos específicos da nossa história:
Os cinco primeiros destaca aspectos da descoberta do Brasil. Inicia com uma referência ao
possível descobridor, o espanhol Vicente
Pinzón, que teria chegado ao Brasil antes de Cabral e fecha com fatos da mitologia indígena, o
"Testamento de Sumé".
Em relação a esse período, no segundo poema, "1500", nota-se uma certa complacência com os estratos oprimidos.
As simpatias do narrador se inclina, de forma parcial, para os habitantes índios.
Em vez de crítica, uma certa autoridade nativa demonstrada na atitude do indiozinho que expulsa do Brasil, Pedro Álvares Cabral,
com uma flechada e uma frase: "sai, azar!".
Na seqüência, do poema VI ao XII, a brincadeira é realizada ironizando a fase da colonização brasileira, as invasões ocorridas
no período e as possível contribuições européia a colonização:
....os ingleses nos emprestariam dinheiro a cinco por cento ao mês;
os holandeses, trariam queijos e regras de asseio;
os franceses, perfumes e romances de adultério,...
os italianos, lavradores e opera.....
posteriormente, os poemas de números XII ao XX, envolve fatos e figuras sobre o ciclo das conquistas e dos conflitos
internos entre séculos XVII/XVIII. Destaca-se aqui uma abordagem positiva "....àqueles heróis
oriundos das classes populares, sejam eles defensores de uma idéia de Brasil independente ou não.
Com a exceção de Tiradentes, cujo heroísmo é alvo de certa zombaria, todos são vistos com benevolência,
recebendo um tratamento entre respeitoso e folgazão...".
Passando adiante, nos próximos 8 poemas, do XXI ao XXVIII, Murilo, alegoriza passagens históricas abrangendo
desde a chegada da família real ao período regencial. Nestes,
as vitimas, D. João VI, Frei Caneca, D. Pedro I, Feijó, são envolvidos em situações grotescas.
O ciclo do Segundo Reinado é tratado nos próximos 4 capítulos e se desenvolve em torno dos quase 50 anos
do governo D Pedro II.
A "Fazenda", como é denominado o Brasil por Murilo, vive momentos de sonolência política
e a Guerra do Paraguai, que poderia quebrar esse marasmo, era descrita, bem como seus "heróis",
em tom de escárnio.
Por fim, as duas últimas partes do livro, faz referencias a Proclamação da Republica, 6 poemas, e fatos
ocorridos durante a República Velha, 21 poemas. Todos, tem suas ocorrências transfiguradas de forma debochada e burlesca.
"...A Revolução de 30 é vista como “um pic-nic com carabinas”...;
os fatos relacionados com os governos, são impiedosamente retratados em situações ridículas;
os militares vaidosos passeando embuçados em suas fardas engalanadas não são poupados pela pena mordaz de Murilo,
....as campanhas educacionais governistas, em que se constroem escolas onde não há estradas e estradas em lugares
onde não há escola:
Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada pra lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá
Porque lá não tem escola.
Concluindo, Murilo Mendes, propõe em sua obra fazer da história brasileira uma folia de acontecimentos caricaturados,
bem ao gosto, da intelectualidade modernista. Um brasileiro ocasionalmente protestante que parece, daí a pouco, se
arrepender de sua estripulia, abominando e tornando "História do Brasil" a "ovelha negra" de
sua produção literária.
 Biografia
Murilo Monteiro Mendes nasceu em Juiz de Fora MG, no dia 13 de maio de 1901 e morreu em Lisboa Portugal em 1975.
Muda-se definitivamente para o Rio em 1920 e vai estudar no Colégio Salesiano, em Niterói RJ. Iniciou o curso de Direito, mas
não o concluiu. Na década de 1920, foi arquivista no Ministério da Fazenda e empregado do Banco Mercantil.
Nesse período publica poemas em revistas modernistas como "Verde" e "Revista de Antropofagia".
Publicou seu primeiro livro, Poemas, em 1930; no ano seguinte recebeu o prêmio de Poesia Graça Aranha.
Á partir de 1934, converteu-se ao catolicismo; a religiosidade é um dos temas mais marcantes de sua obra. Em 1935, foi
secretário da Comissão de Literatura para a Infância do Ministério da Educação e inspetor federal de ensino médio.
Muda-se para a Itália em 1957, onde se torna professor de Cultura Brasileira na Universidade de Roma. Foi também professor
na Universidade de Pisa.
Seus livros são publicados por toda a Europa. Em 1972, recebe o prêmio internacional de poesia Etna-Taormina. Publicou,
em 1968, o livro de memórias A Idade do Serrote.
Em 1977 ocorreu a publicação póstuma de Ipotesi, livro de poesia escrito originalmente em italiano, organizado por Luciana
Stegagno Picchio, em Roma.
Sua obra poética inclui os livros Tempo e Eternidade (1935), escrito com Jorge de Lima,
A Poesia em Pânico (1938), Visionário (1941), Mundo Enigma (1944), Tempo Espanhol (1964), Poliedro (1972), entre outros.
Murilo Mendes é um dos principais nomes da segunda geração do Modernismo.
O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu, sobre ele: "Peregrino europeu de Juiz de Fora,/ telemissor de
murilogramas e grafitos,/ instaura na palavra o seu império.".
OBRAS
"Poemas" (1930), "Bumba-meu-poeta" (1930), "História do Brasil"
(1933), "Tempo e eternidade" - com Jorge de Lima (1935), "A poesia em
pânico" (1937), "O Visionário" (1941), "As metamorfoses" (1944), "Mundo
enigma" e "O discípulo de Emaús" (1945), "Poesia liberdade" (1947),
"Janela do caos" - França (1949), "Contemplação de Ouro Preto" (1954),
"Office humain" - França (1954), "Poesias (Obra completa até esta data)"
(1959), "Tempo espanhol" - Portugal (1959), "Siciliana" - Itália (1959),
"Poesie" - Itália (1961), "Finestra del caos" - Itália (1961), "Siete
poemas inéditos" - Espanha (1961), "Poemas" - Espanha (1962), "Antologia
Poética" - Portugal (1964), "Le Metamorfosi" - Itália (1964),
"Italianíssima (7 Murilogrami) - Itália 1965), "Poemas inéditos de
Murilo Mendes" - Espanha (1965), "A idade do serrote" (1968),
"Convergência" (1970), "Poesia libertá" - Itália (1971), "Poliedro"
(1972), "Retratos-relâmpagos, 1ª série" (1973),"Antologia Poética"
(1976) e "Poesia Completa e Prosa" (1994).
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