| No final do século XIX a Ásia se mostrava muito mais avançada, em termos de organização social do que o
continente africano, que vivia sob uma organização tribal. Isto dificultou, mas em hipótese alguma,
impediu o imperialismo
europeu naquela região do planeta. |
O curso do imperialismo ocidental na Ásia foi consideravelmente diferente e mais complexo.
Em primeiro lugar, alguns Estados europeus tinham ali grandes possessões que datavam da época inicial da colonização.
Os ingleses estavam solidamente instalados na Índia; os holandeses possuíam a maior
parte das Índias Orientais; os portugueses e
franceses mantinham ainda resto de seus antigos impérios.
Em segundo lugar, a Ásia não era um continente de tribos primitivas, como a maior parte
da África; continha muitos povos de
culturas antigas e complexas com tradição de unidade e grandeza.
O sentimento nacional do tipo moderno podia ser mais facilmente estimulado na Ásia, e a interferência européia estava em boas
condições para provoca-lo.
Em terceiro lugar, uma das grandes potências da Europa, a Rússia, desde muito tempo ocupara a tremenda extensão da Sibéria e,
portanto, contava com facilidades especiais para expandir suas fronteiras na Ásia.
Como na África, o imperialismo ocidental na Ásia, intensificou as rivalidades das grandes potências
e produziu repetidas crises
internacionais.
No sudeste da Ásia, os principais disputantes eram a França e a Inglaterra.
Os franceses tinham posto os pés na Conchinchina, sob Napoleão III. O produto do esforço francês foi uma federação complexa, sob
a etiqueta de Indochina Francesa. Ao mesmo tempo, os britânicos se expandiram para o leste, da Índia, e absorviam a Birmânia,
Cingapura, no sul organizando uma faixa de pequenos protetorados.
No fim do século, a Tailândia era a única a permanecer como Estado independente no sudeste asiático, embora ameaçada de um lado
pelos franceses e do outro pelos ingleses.
Felizmente para todos os interessados, a Tailândia achava – se em localização ideal para servir
como área - tampão. O acordo
franco-britânico de 1904 envolvia a garantia da independência tailandesa e assim eliminou uma fonte de atrito entre as duas
potências imperialistas.

Nas fronteiras setentrional e ocidental da Índia, era a Rússia que rivalizava com a Inglaterra.
Por volta de 1880, os russos haviam entrado pelo Turguestão, quase até os limites da Índia.
Por certo tempo houve rumores de guerra entre as duas potências.
Os ingleses rapidamente enviaram uma expedição ao Estado
limítrofe do Afeganistão e instalaram um novo rei, que se comprometeu a conservar os russos de
fora. Quando a pressão russa
se virou mais para o leste, os
ingleses igualmente cuidaram de impedir a influência russa no Tibet.
Ainda mais séria, era a
rivalidade anglo-russa no reino da Pérsia (atual Irã).
Desde muito vinha os russos gozando de situação especial na Pérsia do Norte, junto a fronteira russa, e nas últimas décadas do
século XIX havia aumentado seu controle através de várias concessões de comércio e investimento.
Os ingleses preocupados com o destino da Índia procuravam formar uma fogueira á retaguarda, buscando ativamente concessões no sul
da Pérsia.
As escaramuças russo-britânicas na Pérsia continuaram até 1907, quando os dois rivais se
juntaram numa das mais importantes
transações comerciais do período.
A Pérsia foi dividida em duas esferas de influência, com uma zona de tampão no meio. Ao mesmo tempo, os russos prometeram não
lançar mãos contra o Afeganistão e ambas as partes concordaram em deixar o Tibet sossegado.
Nas duas orlas existentes da Ásia, o Oriente Próximo e o Extremo Oriente, havia dois grandes impérios, ambos em adiantado estado
de decadência no final do século XIX.
Esses impérios, China e Turquia, tornaram-se alvos das ambições imperialistas e fonte de sérias rivalidades.
A China fora aberta ao comércio ocidental em resultado de duas grandes guerras em meados do século XIX. Embora os chineses
houvessem sido derrotados nas duas vezes, persistia a ilusão de que a China era ainda uma grande potência, capaz de se defender
em tempo de crise.
Veio então, em 1894-1895, a Guerra sino-japonesa. Para espanto do mundo, o pequeno império insular ganhou uma série de vitórias
esmagadoras, que mostrava a olho nu a decadência chinesa.
A conseqüência foi uma brava avançada imperialista na China. A maioria das grandes potências forçou o governo chinês a
conceder-lhes arrendamentos a longo prazo de portos da China para uso como bases navais. Além disso, asseguraram "esferas de
influência" de que esperavam
apoderar-se quando e se sobrevivesse a derrocada da China.
O alvo da Rússia era a Mandchúria; o da Inglaterra, o vale do Iangtsé, na China central:
o do Japão, a região fronteira a formosa
(que o Japão anexara em 1895); o da França, a parte meridional vizinha da Indochina.
Das grandes potências, apenas a Itália deixou de arrancar dos chineses, pelo medo, concessões de arrendamentos ou direitos
especiais, e apenas os Estados Unidos se recusaram a participar do avanço.
Mas o colapso iminente da China nunca chegou de todo. Embora a Rebelião dos Boxers houvesse sido esmagada por uma expedição
internacional , as potências se certificaram de que a China não podia ser esquartejada sem luta. Além disso, a tensão
internacional na Europa
havia chegado a tal ponto que nenhuma potência se sentia segura em empreender uma ação intensa no
Extremo Oriente.
Outro fator contribuinte era a política abertamente manifestada do governo dos Estados Unidos
de preservar a integridade da China.
Gradativamente, a idéia da derrocada chinesa se desvaneceu e as esferas de influência perderam sua principal importância. Só a
Rússia tentou absorver sua esfera diretamente, com risco de
guerra. O exército russo recusou se retirar da mandchúria após a
Revolta dos Boxers e os russos começaram também a investir e intrigar na Coréia. O resultado não foi uma guerra com a China,
mas
com o Japão, que via essa expansão russa ameaçar suas próprias ambições e
sua segurança nacional.
Em 1904-1905 os russos foram batidos em terra e mar e os japoneses se apoderaram das
ferrovias, dos arrendamentos e dos direitos
especiais de comercio que os russos
tinham na Mandchúria.
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SAVELLE, Max. O Mundo em que Vivemos:Imperialismo Ocidental e Conflito Mundial. BH, Ed. Vila Rica, 1990
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