A obra O Livro das Ignorãças é dividido em três partes: "Uma Didática da Invenção",
"Os Deslimites da Palavra" e "Mundo Pequeno". Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme
racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito
profundo.
Em "Uma didática da invenção", surgem várias questões evidenciando a preocupação de Manoel de Barros quanto as idéias específicas de
poesia. Assim, já no primeiro poema do livro, temos a idéia do desaprender, da necessidade que o poeta vê de a poesia enlouquecer
a língua, tirando-a dos lugares comuns em que se encontra. Nessa primeira parte há um trajeto claro de fugir à linguagem comum e
alcançar uma língua adâmica, original que se aproxime mais da coisa em seu estado bruto, que chegue à "coisidade" da coisa,
em seu âmago de coisa mesmo.
Em "Os deslimites da palavra" o poeta inventa uma lenda e escreve a partir dela: um tal canoeiro Apuleio, que teria passado três dias
e três noites navegando sobre as águas de uma enchente ocorrida em 1922, sem comer nem dormir, registra em um caderno, a partir dessa
experiência, amontoados de frases desconexas. Tempos depois, o poeta encontra esse caderno e tenta "desarrumar as frases", de modo que
elas se tornem poesia, apesar de, em si, elas já serem poesia, pois, como diz o poeta, "nesse caderno, o canoeiro voou fora da asa",
provocou "uma ruptura com a normalidade", ou seja, escreveu fora da língua comum, fazendo poesia.
Na terceira parte, "Mundo pequeno", o autor traz as mesmas questões eleitas por Manoel de Barros, sendo que o primeiro poema já rompe
com a gramática da língua, conforme já vimos
em outros poemas. Nos versos seguintes, os substantivos transformam-se em verbos.
Em O livro das Ignorãças, também há a proposta de, além de tornar-se coisa, "desacostumar as coisas", assim como se deve "desacostumar
as palavras". Do mesmo modo que se deve livrar as palavras de seu estado normal, fazendo-as delirar, há também a necessidade de livrar
as coisas de sua utilidade usual, tirando-as do uso que elas têm no dia-a-dia. É o que o poeta chama de "desinventar objetos.
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http://www.feranet21.com.br/livros/resumos_ordem/o_livro_das_ignoracas.htm |
No primeiro poema do livro, temos a idéia do desaprender, da necessidade que o poeta vê de a poesia enlouquecer a língua, tirando-a
dos lugares comuns em que se encontra:
"Desaprender oito horas por dia ensina os princípios."
Invertendo completamente a lógica tradicional, esse verso vê o aprendizado das coisas não no ato de aprender, mas no ato de
desaprender. Atente-se para o termo "princípios", que aponta para a questão da origem de que se falou antes. Desaprender, segundo o
poeta, permite-nos alcançar os princípios, as origens, o momento anterior às palavras, em que só existem as coisas. Essa mesma
idéia parece reger O livro das ignorãças, já que ela é recorrente em vários poemas e também na obra inteira do poeta. No poema de
número XVI, há um verso que diz dessa idéia de que só as frases opacas e obscuras, que fogem da linguagem comum, é que interessam,
pois são iluminadas:
Há certas frases que se iluminam pelo opaco.
Esse trabalho para "desacostumar as palavras", como diz o próprio poeta, dando-lhe significações novas, inusitadas, antes não
concebidas, atravessa todo o livro, resultando em versos que, muitas vezes, nos causam espanto, tal a desconstrução da linguagem,
tal o "desacostumamento" da língua que eles acabam por fazer. Já que "desacostumar as palavras" é o trabalho da poesia, e do poeta,
Manoel de Barros não hesita em agir assim a todo instante, transformando a sua poesia num jogo de sensações, numa inversão das
características dos objetos e num lugar de imagens inesperadas. São vários os exemplos dessas inversões e desse jogo com imagens
e sensações:
Como pegar na voz de um peixe (I)
E um sapo engole as auroras. (IV)
Eu escuto a cor dos passarinho. (VII)
Hoje eu desenho o cheiro das árvores. (IX)
Não tem altura o silêncio das pedras. (X)
Poderíamos continuar enumerando ad infinitum exemplos como esse, já que eles elucidam muito da estética de Manoel de Barros. Esses
versos alcançam exatamente a sua proposta de poesia, desvestindo as palavras de seus sentidos corriqueiros, de seus significados gastos.
Não é à toa a referência, em vários momentos, à linguagem das crianças, já que elas ainda não aprenderam a totalidade da língua.
Lembremos o que diz o poeta em entrevista já citada: "atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos".
A criança, por não Ter ainda tanto contato com a língua, não perdeu a capacidade de brincar com as palavras, o que as torna poetas
sem que elas saibam. Se a poesia é enlouquecer as palavra, fazendo-as delirar, as crianças fazem poesia ao falar, como mostra o poema de
número VII:
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
Mudar a função das palavras está dentro do conceito de poesia desse poeta, pois é assim que elas podem delirar, enlouquecer, tirar a
língua da lógica. A figura da criança surge novamente em outros poemas, sempre ligada a essa idéia de ilogismo que a poesia deve
buscar. Mais do que o ilogismo, os versos abaixo trazem a questão de coisas que sequer têm nome, sendo estas as preferidas pelas
crianças:
As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças. (VI)
Ora, como pronunciar nomes que nem existem? É justamente aí, como já viu anteriormente, que reside a poesia de Barros, já que ele
busca exatamente aquilo que ainda não recebeu nomes, que ainda não foi aprisionado por definições, por conceitos. Daí sua idéia de
chegar às coisas, sem intermédio da língua, tentando tocar na coisa mesma, em sua origem, sem palavras se interpondo entre o poeta
e a matéria de sua poesia. Muitas vezes, Manoel fala mesmo de ser as coisas, que ultrapassa o simples tocar as coisas, ou,
ultrapassando mais ainda, o falar das coisas. O poema de número IX trata desse ser a coisa:
Para entrar em estado de árvore é preciso partir de
um torpor animal de lagarto às três horas da tarde,
no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato
sair na voz.
Esse poema é quase um ensinamento de como se tornar uma coisa, nesse caso uma árvore.
O processo de ser uma árvore só se completa quando os galhos nascem do próprio corpo, saindo da voz. Isso não é apenas falar da coisa
ou tocar a coisa, mas tornar-se a coisa, ser a coisa em seu estado mesmo.
Em O livro das ignorãças, também há a proposta de, além de tornar-se coisa, "desacostumar as coisas", assim como se deve "desacostumar
as palavras". Do mesmo modo que se deve livrar as palavras de seu estado normal, fazendo-as delirar, há também a necessidade de
livrar as coisas de sua utilidade usual, tirando-as do uso que elas têm no dia-a-dia. É o que o poeta chama de "desinventar
objetos" (poema II):
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.
Percebe-se que essa necessidade de desacostumar as coisas caminha junto com a de desacostumar as palavras. O último verso, que fala
das palavras, vem logo depois dos versos que tratam das coisas, sendo que todos dizem sobre o mesmo ponto: desinventar coisas e
palavras, tornado-os novos, sem sentido pronto, sem definição. Não definir é deixar soltar as palavras e as coisas, é deixá-las
simplesmente ser, sem que haja nomes para aprisioná-las num mundo de conceitos, que se tornam cada vez mais gastos e pobres.
Essa idéia da não-definição é muito bem trabalhado no belo poema de número XIX, em que se pensa no empobrecimento de uma bela imagem
originado por uma definição utilizada para conceituá-la.
O rio que fazia uma volta atrás de nossa cara era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
A substituição de uma bela imagem criada a partir de um rio foi completamente empobrecida por uma definição geográfica. A poesia da
imagem foi rompida pela precisão e redução de um conceito, que nada diz sobre a coisa em si. Assim, percebe-se que a poesia nada tem
a ver com definições, levando ser vista com olhos menos pragmáticos, menos reduzidos pela prática e pela precisão a que o mundo
nos obriga. É o que mostra a poema de número XIII:
As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.
É justamente o olhar de pessoas razoáveis – entenda-se, por pessoas razoáveis, pessoas comuns – que acabam com a poesia das coisas.
O olhar comum sobre as coisas não consegue ver nelas qualquer poesia, acabando por enxergar apenas definições e palavras com seus
sentidos convencionais, pobres.
Assim, na primeira parte de O livro das ignorãças, há um trajeto claro de fugir à linguagem comum e alcançar uma língua adâmica,
original que se aproxime mais da coisa em seu estado bruto, que chegue à "coisidade" da coisa, ao é da coisa, em seu âmago de coisa
mesmo.
A Segunda parte, "Os deslimites da palavra", não foge a esse projeto de linguagem. Nessa parte, o poeta inventa uma lenda e escreve a
partir dela: um tal canoeiro Apuleio, que teria passado três dias e três noites navegando sobre as águas de uma enchente ocorrida em
1922, sem comer nem dormir, registra em um caderno, a partir dessa experiência, amontoados de frases desconexas. Tempos depois, o
poeta encontra esse caderno e tenta "desarrumar as frases", de modo que elas se tornem poesia, apesar de, em si, elas já serem poesia,
pois, como diz o poeta, "nesse caderno, o canoeiro voou fora da asa", provocou "uma ruptura com a normalidade", ou seja, escreveu
fora da língua comum, fazendo poesia.
O resultado do encontro entre as frases do canoeiro, que escreveu fora da normalidade, com o poeta, que também só escreve fora do
comum, é uma desarrumação completa dos padrões, um "desacostumamento" radical. Como diz o poema 2.1, primeiro do segundo dia de
enchente:
Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumar das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.
Novamente, o que se tem é a questão da supremacia da coisa sobre a palavra: "Não oblitero moscas com palavras." Usar palavras para
falar das moscas é uma rasura das moscas, um apagamento, já que se deve chegar à mosca mesmo, e não somente falar dela.
A referência às "oralidades" também é uma fuga à normalidade da língua, já que a fala, a língua oral, apresenta uma série de desvios
em relação à linguagem padrão, daí o poeta/canoeiro dizer que não é tolo (sandeu) de ficar seguindo gramáticas, de respeitar a
língua imposta por elas. Por isso, o que ele escreve não são as palavras, mas o seu rumor: apenas o som, não o sentido. Escrever
apenas o rumor das palavras, sem dar-lhes significado, as aproxima de coisas, de objetos que podem ser quase tocados.
O próprio nome dessa Segunda parte do livro já aponta para essas idéias, pois o poeta escreve além dos limites da palavra, ele atinge
seus delimites, ele toca o que está fora da linguagem, o que se situa além das fronteiras que a língua nos impõe. Não se deixar
submeter pelos limites da língua é o que faz o poeta/canoeiro ao longo de toda essa parte. Um passeio pelos poemas nos mostra isso
de forma evidente:
Ontem choveu no futuro. (1.1)
Estas águas não têm lado de lá. (1.1)
Os nomes já vêm com unha? (1.2)
A chuva atravessou um pato pelo meio (1.6)
A chuva deformou a cor das horas. (1.6)
Um besouro se agita no sangue do poente. (2.4)
O acaso me ampliou para formiga. (2.7)
Uma sabiá me aleluia. (3.6)
O efeito de versos como esses é um grande estranhamento, pois eles fazem a língua delirar em todos os sentidos. A sintaxe delira, os
termos mudam de categorias, substantivos ganham qualidades inusitadas, gerando um sentido completamente novo, totalmente "desacostumado".
A questão da origem, de que já se falou anteriormente, surge de maneira marcante.
A enchente que leva o canoeiro a navegar três dias seguinte remete evidentemente ao dilúvio bíblico, texto que trata das origens, por
excelência. As imagens de origem são semeadas ao longo dessa Segunda parte, sendo as principais o ovo, a água (elemento
sempre ligado à origem), o limo (espécie de lama, de lodo, ambiente úmido que sempre remete a uma origem), assim como bichos que
lembram as coisas do chão, que se ligam diretamente a um universo mais primitivo, mais telúrico, muitas vezes aquático – lagarto,
formiga, coruja, peixe, besouro, vaga-lume, osga (espécie de réptil), aranha, rã, cágado.
Todos esses bichos são diretamente ligados a um mesmo universo mais remoto, às vezes "sujo", viscoso, ou, no mínimo, obscuro, das
trevas, silencioso.
Essa idéia do "sujo" também surge mais explicitamente, não só na Segunda como também na primeira parte do livro, já que os ambientes
úmidos, primitivos, pantanosos têm uma aparência (e só aparência) de imundície, sendo lugares orgânicos por excelência.
A terceira parte, "Mundo pequeno", traz as mesmas questões eleitas por Manoel de Barros, sendo que o primeiro poema já rompe com a
gramática da língua, conforme já vimos em outros poemas. Nos versos seguintes, os substantivos transformam-se em verbos:
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.
Coisa, rã e árvore, que, gramaticalmente, são substantivos, tornam-se verbos, mostrando um desrespeito do poeta pelas regras
gramaticais. O verso final aponta para essa inversão de categorias, representada pela figura do velho que, com sua flauta, inverte os
ocasos, assim como o poeta inverte a língua.
A busca pela coisa é, mais uma vez, objeto de poesia, propositalmente no poema que encerra o livro (XIV), antes do "Auto-retrato
falado": "Todas as minhas palavras já estavam consagradas de pedras". Esse verso parece apontar para um fim de trajeto, em que as
palavras foram sendo desvestidas de seus significados até chegarem ao estado de coisa, de pedra.
Os versos seguintes a esse elucidam ainda mais essa idéia:
Não era mais a denúncia das palavras que me
importava mas a parte selvagem delas, os seus
refolhos, as suas entraduras.
Foi então que comecei a lecionar andorinhas.
A busca do poeta é pela "parte selvagem" das palavras, pelas suas reentrâncias, o que a aproxima de uma árvore, de uma pedra, de um
bicho. No fim, não se lecionam palavras, mas andorinhas, ou seja, ao invés de o poeta mostrar as coisas através de palavras, ele as
mostra através delas mesmas, alcançando, como já se disse, a "coisidade" da coisa, a coisa em si mesma.
Essas idéias se repetem, mais uma vez, com a imagem da árvore, tão presente na poesia de Barros, fazendo com que as pessoas se
transfigurem em árvores: "Bernardo é quase árvore." (XII), "Estou atravessando um período de árvore." (XIII), ou o já citado
"Ele me árvore." (I).
A recusa a definições ressurge, como no poema III, em que se fala de um vaqueiro, de um "peão de campo:"
Gostava de desnomear:
Para de falar barranco dizia: lugar onde avestruz esbarra.
Rede era vasilha de dormir.
Traços de letras que um dia encontrou nas pedras de
uma gruta, chamou: desenhos de uma voz.
Penso que fosse um escorço de poeta.
O peão do poema faz poesia sem que saiba. A sua recusa em definir, em conceituar, ou, mais do que recusa, a sua ignorância dos
conceitos, faz dele um poeta, no sentido que Manoel de Barros dá à poesia. Ao contrário do homem que chamou de "enseada" a imagem do
rio que passa por detrás da casa, o peão não conceitua, ele cria imagens a partir das próprias coisas, não a partir de conceitos,
criando, assim, belas imagens poéticas.
Esse é o percurso da poesia de Manoel de Barros: da palavra à coisa, do ser à natureza, do agora ao original, dá página à pedra.
O peão do poema pode ser visto como um duplo do poeta, como uma extensão sua, já que é dessa maneira que o poeta tenta fazer poesia:
partindo das coisas, dos bichos, das pedras, de um universo primeiro, situado nas origens: Assim é que o poeta pode "voar fora da
casa", pode alcançar os deslimites da palavra, o além da linguagem, o cerne das coisas – sua matéria é, enfim, o que escapa à
expressão por meio de palavras.
CONCLUSÃO
Por tudo o que foi dito, percebe-se claramente que O livro das ignorãças se insere perfeitamente dentro do perfil das outras obras
selecionadas para o vestibular da UFMG.
Todas elas lidam com a questão de uma linguagem que foge aos padrões, que aponta para uma origem, para um momento anterior à linguagem.
Essa questão da origem, por sua vez, aponta para a comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil, remetendo-nos ao instante de
inauguração de uma nação, ou seja, à sua origem, quando a terra ainda não estava maculada.
A busca de uma língua ainda não maculada pela civilização e a procura por uma maneira de expressão que nos reingresse a um universo
primitivo é justamente o projeto de Manoel de Barros com sua poesia. Essa é também a diretriz que alinhava todas as cinco obras, seja
em relação às temáticas, seja em relação à linguagem. Manoel de Barros, assim, colabora substancialmente para refletirmos também
sobre os inícios do povo brasileiro, ainda que na sua poesia não haja uma referência explícita a essa temática. Mas sua poesia,
possuidora de um verbo primitivo, arcaico, coloca-nos a possibilidade do resgate, mesmo que na linguagem, de uma origem rica e
necessária.
Biografia
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916, filho de
João Venceslau Barros, capataz com influência naquela região. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a
ser considerado corumbaense. Atualmente mora em Campo Grande (MS).
É advogado, fazendeiro e poeta.
Tinha um ano de idade quando o pai decidiu fundar fazenda com a família no Pantanal: construir rancho, cercar terras, amansar gado
selvagem. Nequinho, como era chamado carinhosamente pelos familiares, cresceu brincando no terreiro em frente à casa, pé no chão,
entre os currais e as coisas "desimportantes" que marcariam sua obra para sempre. "Ali o que eu tinha era ver os movimentos, a
atrapalhação das formigas, caramujos, lagartixas.
Era o apogeu do chão e do pequeno."
Com oito anos foi para o colégio interno em Campo Grande, e depois no Rio de Janeiro.
Não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira: "A frase para ele era mais importante que a verdade, mais
importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem
compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança." Um bom exemplo disso está num verso de Manoel que afirma que "a quinze
metros do arco-íris o sol é cheiroso." E quem pode garantir que não é? "Descobri que servia era pra aquilo: Ter orgasmo com as palavras."
Dez anos de internato lhe ensinaram a disciplina, os clássicos e a rebeldia da escrita.
Mas o sentido total de liberdade veio com "Une Saison en Enfer" de Arthur Rimbaud (1854-1871), logo que deixou o colégio. Foi quando
soube que o poeta podia misturar todos os sentidos. Conheceu pessoas engajadas na política, leu Marx e entrou para a Juventude
Comunista. Seu primeiro livro, aos 18 anos, não foi publicado, mas salvou-o da prisão.
Havia pichado "Viva o comunismo" numa estátua, e a polícia foi buscá-lo na pensão onde morava.
A dona da pensão pediu para não levar o menino, que havia até escrito um livro.
O policial pediu para ver, e viu o título: "Nossa Senhora de Minha Escuridão". Deixou o menino e levou a brochura, único exemplar que
o poeta perdeu para ganhar a liberdade.
Quando seu líder Luiz Carlos Prestes foi solto, depois de dez anos de prisão, Manoel esperava que ele tomasse uma atitude contra o
que os jornais comunistas chamavam de "o governo assassino de Getúlio Vargas." Foi, ansioso, ouvi-lo no Largo do Machado, no Rio.
E nunca mais se esqueceu: "Quando escutei o discurso apoiando Getúlio — o mesmo Getúlio que havia entregue sua mulher, Olga Benário,
aos nazistas — não agüentei. Sentei na calçada e chorei. Saí andando sem rumo, desconsolado. Rompi definitivamente com o
Partido e fui para o Pantanal".
Mas a idéia de lá se fixar e se tornar fazendeiro ainda não havia se consolidado no poeta.
Seu pai quis lhe arranjar um cartório, mas ele preferiu passar uns tempos na Bolívia e no Peru, "tomando pinga de milho". De lá foi
direto para Nova York, onde morou um ano.
Fez curso sobre cinema e sobre pintura no Museu de Arte Moderna.
Pintores como Picasso, Chagall, Miró, Van Gogh, Braque reforçavam seu sentido de liberdade.
Entendeu então que a arte moderna veio resgatar a diferença, permitindo que "uma árvore não seja mais apenas um retrato fiel da
natureza: pode ser fustigada por vendavais ou exuberante como um sorriso de noiva" e percebeu que "os delírios são reais em
Guernica, de Picasso".
Sua poesia já se alimentava de imagens, de quadros e de filmes. Chaplin o encanta por sua despreocupação com a linearidade. Para
Manoel, os poetas da imagem são Federico Fellini, Akira Kurosawa, Luis Buñuel ("no qual as evidências não interessam") e, entre os
mais novos, o americano Jim Jarmusch. Até hoje se confessa um "...'vedor' de cinema.
Mas numa tela grande, sala escura e gente quieta do meu lado".
Voltando ao Brasil, o advogado Manoel de Barros conheceu a mineira Stella no Rio de Janeiro e se casaram em três meses. No começo do
namoro a família dela — mineira — se preocupou com aquele rapaz cabeludo que vivia com um casaco enorme trazido de Nova York
e que sempre se esquecia de trazer dinheiro no bolso. Mas, naquela época, Stella já entendia a falta de senso prático do noivo poeta.
Por isso, até hoje Manoel a chama de "guia de cego".
Stella o desmente: "Ele sempre administrou muito bem o que recebeu." E continuam apaixonados, morando em Campo Grande (MS). Têm três
filhos, Pedro, João e Marta (que fez a ilustração da capa da 2a. edição do "Livro das pré-coisas") e sete netos.
Escreveu seu primeiro poema aos 19 anos, mas sua revelação poética ocorreu aos 13 anos de idade quando ainda estudava no Colégio São
José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro, cidade onde residiu até terminar seu curso de Direito, em 1949. Como já foi dito, mais
tarde tornou-se fazendeiro e assumiu de vez o Pantanal.
Seu primeiro livro foi publicado no Rio de Janeiro, há mais de sessenta anos, e se chamou "Poemas concebidos sem pecado". Foi feito
artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele.
Nos anos 80, Millôr Fernandes começou a mostrar ao público, em suas colunas nas revistas
Veja e Isto é e no Jornal do Brasil, a poesia de Manoel de Barros. Outros fizeram o mesmo: Fausto Wolff, Antônio Houaiss, entre eles.
Os intelectuais iniciaram, através de tanta recomendação, o conhecimento dos poemas que a Editora Civilização Brasileira publicou,
em quase a sua totalidade, sob o título de "Gramática expositiva do chão".
Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil.
Guimarães Rosa, que fez a maior revolução na prosa brasileira, comparou os textos de Manoel a um "doce de coco".
Foi também comparado a São Francisco de Assis pelo filólogo Antonio Houaiss, "na humildade diante das coisas. (...)
Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade.
Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por
sua obra a mais alta admiração e muito amor."
Segundo o escritor João Antônio, a poesia de Manoel vai além: "Tem a força de um estampido em surdina. Carrega a alegria do choro.
" Millôr Fernandes afirmou que a obra do poeta é "'única, inaugural, apogeu do chão." E Geraldo Carneiro afirma: "Viva Manoel
violer d'amores violador da última flor do Lácio inculta e bela.
Desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica".
Manoel, o tímido Nequinho, se diz encabulado com os elogios que "agradam seu coração".
O poeta foi agraciado com o “Prêmio Orlando Dantas” em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro “Compêndio para
uso dos pássaros”.
Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pela obra “Gramática expositiva do chão” e, em 1997, o "Livro sobre
nada” recebeu o Prêmio Nestlé, de âmbito nacional.
Em 1998, recebeu o Prêmio Cecília Meireles (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura.
Numa entrevista concedida a José Castello, do jornal "O Estado de São Paulo", em agosto de 1996, ao ser perguntado sobre qual sua
rotina de poeta, respondeu:
"Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo 'lugar de ser inútil'.
Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc.
Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho
bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro séculos para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e
ler "Vozes da Origem". Gosto de coisas que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem". Está
no livro "Vozes da Origem", da antropóloga Betty Midlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador
para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento."
Diz que o anonimato foi "por minha culpa mesmo. Sou muito orgulhoso, nunca procurei ninguém, nem freqüentei rodas, nem mandei um
bilhete.
Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Estou esperando até hoje",
conta.
Costuma passar dois meses por ano no Rio de Janeiro, ocasião em que vai ao cinema, revê amigos, lê e escreve livros.
Não perdeu o orgulho, mas a timidez parece cada vez mais diluída. Ri de si mesmo e das glórias que não teve. "Aliás, não tenho mais
nada, dei tudo para os filhos. Não sei guiar carro, vivo de mesada, sou um dependente", fala.
Os rios começam a dormir pela orla, vaga-lumes driblam a treva. Meu olho ganhou dejetos, vou nascendo do meu vazio, só narro meus
nascimentos."
Obras
1937 — Poemas concebidos sem pecado
1942 — Face imóvel
1956 — Poesias
1960 — Compêndio para uso dos pássaros
1966 — Gramática expositiva do chão
1974 — Matéria de poesia
1982 — Arranjos para assobio
1985 — Livro de pré-coisas (Ilustração da capa: Martha Barros)
1989 — O guardador das águas
1990 — Poesia quase toda
1991 — Concerto a céu aberto para solos de aves
1993 — O livro das ignorãças
1996 — Livro sobre nada (Ilustrações de Wega Nery)
1998 — Retrato do artista quando coisa (Ilustrações de Millôr Fernandes)
1999 — Exercícios de ser criança
2000 — Ensaios fotográficos
2001 — O fazedor de amanhecer
2001 — Poeminhas pescados numa fala de João
2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo (Ilustrações de Martha Barros)
2003 — Memórias inventadas - A infância (Ilustrações de Martha Barros)
2003 — Cantigas para um passarinho à toa
2004 — Poemas rupestres (Ilustrações de Martha Barros)
|
Os dados acima foram obtidos em livros do autor, no livro "Inventário das Sombras", de José Castello, no site da Fundação Manoel de
Barros, na revista "Veja", edição de 05/01/94, artigo de Geraldo Mayrink, e em outros sites da Internet. |
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