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denominado “A Pacotilha”, de junho de 1852 até julho de 1853, depois
organizado em dois volumes, um em dezembro de 1854 com 23 capítulos, outro
em janeiro de 1855 com 25 capítulos.
Esse romance sofre o silêncio da crítica.
A primeira justificativa para tal atitude está no fato de sua narrativa não
apresentar elementos que atendam ao gosto do público burguês da época, não
só no tom, que é escrachado, irônico, mas também na história apresentada e
no tipo de personagem que a interpreta.
A obra retrata, de forma satírica e crítica, a vida da sociedade carioca do
início
do século XIX, momento marcado política, social e culturalmente pela
regência
de D. João VI.
Ao escolher como centro da narrativa uma família proveniente das camadas
socialmente menos favorecidas, Manuel Antônio de Almeida expõe não só as
características da vida cotidiana dos personagens que circulam nesse espaço,
seus conflitos e dramas, mas também destaca as relações de parentesco e
vizinhança; o funcionamento de instituições sociais como a igreja, a escola,
a segurança pública. Com isso, o autor traça um quadro divertido da época
que retrata.
Manuel Antônio de Almeida pretendia narrar tão-somente a acidentada vida de
uma criança
nascida no começo do século XIX, mas acaba por fazer uma esplêndida
reconstituição da época e
do modo de vida das camadas suburbanas do Rio de Janeiro à época de D. João
VI,
“no tempo do rei”.
Aliando bom humor ao realismo das caracterizações, o autor conta, em forma
de novela, uma série de histórias tendo como elo o personagem Leonardo,
malandro, traquinas com ares de anti-herói.
A mola mestra do livro é o movimento: a um acontecimento segue outro e mais
outro e só pára quando não são mais possíveis as peripécias do protagonista.
Ao lado de Leonardo, surgem personagens como Leonardo-Pataca (o
pai),Maria-da-Hortaliça
(a mãe), o padrinho, a madrinha, o major Vidigal e uma galeria
de outros
personagens que
contribuem para dar ao livro uma visão de uma sociedade em
formação em que se
focam dois universos: o da ordem (a ser instaurado
nas camadas populares) e o da desordem (o dinâmico e
bem-humorado mundo da malandragem).
As histórias dos Leonardos – pai e filho – são o fio condutor da obra que se
inicia com as aventuras
e desventuras de Leonardo Pataca. Desprezado pela mulher, esse personagem
abandona o filho
após um forte pontapé e passa a dividir com ele a narrativa. O novo
protagonista, o filho Leonardo, ao ser abandonado pelo pai, inicia uma saga
de agressões, perdas e vinganças que lhe garantem o desafeto de muitos, na
verdade de quase todos os demais personagens. Apenas o padrinho - um
barbeiro de origem desconhecida -, que assumiu a sua guarda, ignora as
diabruras do menino e vislumbra para ele um futuro seguro, digno, diferente
da vida que ele mesmo leva cotidianamente
à frente da barbearia. O padrinho pretendia tornar o afilhado padre.
Leonardo, entretanto, traçava planos diferentes daqueles sonhados pelo
padrinho.
Resistiu à
escola, debochou do trabalho, levou a vida a procurar pequenas oportunidades
para provocar desarranjos em tudo o que via e por onde passava.
Essa
história conturbada é acompanhada pela madrinha, a comadre, senhora ocupada
em ajudar os vizinhos e acompanhar religiosamente os eventos cristãos,
bastante numerosos naquela época. Além disso, a comadre era parteira.
Esses ofícios faziam dela também mensageira de tudo quanto ocorria nas
proximidades.
Por isso, alinhavava, sempre que necessário, histórias daqui e de acolá.
A vida de Leonardo é uma sucessão de diabruras, até o momento em que ele se
apaixona por Luisinha, afilhada de D. Maria, mulher rica, sempre envolvida
em demandas judiciais.
Desse momento em diante, o rapaz passa a dedicar seus dias e pensamentos ao
objeto de sua paixão. No entanto, surge no meio desse romance um pretendente
mais promissor que Leonardo,
já que ele nem sequer tinha dado qualquer rumo para sua vida. José Manuel,
que se encantara
pelo dote herdado por Luisinha, passa a representar um perigo para o futuro
que o padrinho vislumbrara para o afilhado. E o enamorado se vê, então, em
uma armadilha.
O costume com uma vida confusa, sem grandes projetos, e seu caráter pouco
firme fazem com que Leonardo se enrede em outra situação complicada. Na
tentativa de esquecer a dor de não ser o preferido por sua amada, ele se
apaixona por outra mulher, Vidinha, já cobiçada por dois primos. Inicia-se,
assim, uma nova empreitada para o personagem que, repetindo a vida amorosa
acidentada do pai, vive de novo situações constrangedoras e irônicas. Ao se
dar por vencido na disputa pela nova amada, o rapaz se mete em mais uma
arapuca que o leva à prisão,
exatamente como acontecera com o pai.
Vidigal, o responsável pela polícia, curva-se aos desejos de sua amada e não
apenas liberta Leonardo, como o nomeia granadeiro de seu batalhão. Depois de
muitas diabruras, o rapaz reencontra seu primeiro amor, Luisinha, agora
viúva, e ambos decidem finalmente viver o amor
do qual se privaram.
Para se casar, no entanto, Leonardo precisa desligar-se de seu cargo, o que
consegue a custa de favores da amante de Vidigal, e ganha a nomeação para
Sargento de Milícias.
Enquanto isso, Leonardo Pataca, o pai, vive igualmente aventuras e
desventuras amorosas que
em geral terminam em agressões ou atitudes desesperadas, como a tentativa de
conquistar a
mulher amada por meio de feitiços, o que lhe rende passagem pela cadeia.
É interessante observar que diversos personagens da trama são referidos pela
profissão que exercem e não têm um nome próprio: o barbeiro, a parteira, a
cigana, o mestre-de-cerimônias.
Essa estratégia narrativa tipifica grupos sociais que integram as cenas
vividas pelos
personagens centrais. A cada episódio, o leitor recebe informações a
respeito da época em
que os fatos aconteceram.
O livro preserva em sua estrutura o caráter de folhetim: cada capítulo
encerra-se em si mesmo,
mas deixa uma ponta para o episódio seguinte. Os eixos dos capítulos são as
aventuras, quase sempre amorosas, de um dos Leonardos. A narrativa é
bem-humorada, leve e instigante e, ao
mesmo tempo, informativa e densa.
Essa obra nos conduz a um passeio pela vida carioca do início do século XIX,
mesmo que a linguagem possa apresentar alguma dificuldade, uma vez que o
autor utiliza o português coloquial
de sua época, o que pode provocar algum estranhamento aos leitores de hoje.
Não se trata de obra sentimentalista. Ao contrário, sua leitura nos faz
recordar as peças de
Martins Pena pelo tom satírico, pela movimentação dos personagens que entram
e saem de cena.
O texto nos remete também a Machado de Assis, em suas “Memórias Póstumas de
Brás Cubas”, quando o narrador dirige-se com certa freqüência ao leitor,
para instigar-lhe a atenção e fornecer dados para que possa continuar
acompanhando o desenvolvimento da história.
Finalizando....
O enredo acima é elemento suficiente para mostrar o caráter sui generis da
obra. Não há aqui a visão idealizada da realidade, mas uma inversão
escrachada desses padrões.
No lugar de heróis perfeitos, há anti-heróis, como Leonardo, que é vadio, e
Luisinha, que é
destituída de beleza e força de caráter.
Tais elementos fazem com que alguns considerem a obra uma antecipação do
Realismo, o que constitui um exagero, pois falta aqui o cientificismo, além
da visão pessimista da existência humana.
Aliás, a classificação desse romance é um tanto problemática. Se ao menos
enxergar nela uma antecipação do Realismo é inadequado, é também impróprio
considerá-lo um romance de costumes, em especial os do Rio de Janeiro do
início do século XIX. Seria argumento favorável a essa classificação o
expediente comum de quase todos os capítulos iniciarem-se com a descrição de
um costume, como a festa dos ciganos, a procissão dos ourives, o desfile das
baianas. Outro argumento seria a pobreza de nomes, o que faria suas
personagens tornaram-se tipos, ou seja, representantes das diferentes
classes sociais fluminenses da época (o Barbeiro, o Mestre de Cerimônias, o
Tenente-Coronel, o Mestre de Rezas).
No entanto, há como derrubar tal tese lembrando que esse simples fato pode
ser na realidade creditado à fidelidade ao comportamento das classes baixas.
Outro contra-argumento é a ausência na obra de muitos costumes da época.
Pode-se lembrar, também, que Memórias de um Sargento de Milícias seria um
romance picaresco. É, porém, outra classificação problemática, pois esse
termo refere-se a um tipo de narrativa espanhola que apresentava personagens
dos baixos estratos sociais e que praticavam crimes para driblar as
dificuldades, principalmente fome. Não se deve esquecer que Leonardo não é
um
autêntico pícaro, pois está fixo ao Rio de Janeiro, não passa por
dificuldades, nem sequer é personagem carregada de malignidade.
Aceita-se, no entanto, tal rótulo se se adaptar a ele a idéia de
malandragem. Assim, Leonardo
seria o representante do malandro carioca. Até essa identificação merece
ressalva, pois suas características não se prendem ao Rio de Janeiro,
podendo ser encontradas em várias
partes do país.
Aceitando-se tais restrições, percebe-se que a obra cumpre um postulado
romântico ao exibir um
tipo brasileiro, apesar de bem diferente do índio, do sertanejo ou do
burguês dos outros
romances contemporâneos.
Na realidade, para compreender Memórias de um Sargento de Milícias, deve-se
aceitar todos
essas classificações com cuidado e buscar outro aspecto marcante: a
capacidade de descrever formas de comportamento social que espantosamente
ainda são comuns hoje.
O primeiro deles está nas constantes relações de apadrinhamento. As leis são
sempre rígidas, mas com uma relação subterrânea, com os contatos certos,
muito se consegue.
Basta lembrar como a Comadre arranja emprego para Leonardinho, a
possibilidade
de D. Maria também lhe arranjar um emprego de rábula em algum cartório e até
a maneira como Leonardo Pataca sai da prisão graças ao Tenente-Coronel.
O outro aspecto está na confusão fácil que se faz entre Ordem e Desordem.
Basta lembrar em que condições o Mestre de Cerimônias foi preso (de roupa
íntima), ou mesmo como Major Vidigal recebeu as três advogadas do
protagonista – meio formal (farda), meio informal (camisolão e tamancos).
Mas o principal exemplo disso seria Vidigal, representante da ordem, ceder a
impulso carnais e (passando para a desordem) soltar Leonardinho, que,
representante da
desordem, é promovido a sargento de milícias (passando para a ordem).
Biobiblio Nascido no Rio de Janeiro em 1831, Manuel Antônio de Almeida teve existência meteórica,
pois morre tragicamente, em 1861, com apenas 30 anos de idade, vitimado por um naufrágio na costa fluminense, ao viajar num
vapor com destino a Canipós, no Estado do Rio.
Fontes Neide Aparecida de Almeida - Equipe EducaRede
http://www.educarede.org.br/educa/html/index_biblioteca.cfm
http://www.lol.pro.br
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