O narrador e o monstro
Em O monstro, (1994), Sérgio Sant’Anna retoma o pastiche da linguagem da imprensa que já havia experimentado em obras dos anos 70
e 80. Aqui, o monstro é um professor universitário que concede duas entrevistas para explicar como e por que participou do
assassinato de uma jovem cega.
O tema policial e o formato da história são extraídos do jornalismo. Trata-se do que se chama, em jargão, de pingue-pongue, uma
entrevista de perguntas e repostas, na qual a intervenção do jornalista se resume à introdução e às questões, deixando o maior espaço
ao entrevistado, que assume diretamente a fala, em função do interesse do depoimento.
No caso do conto, a personagem do professor Antenor Lott Marçal é quem narra o crime que ele mesmo cometeu.
A construção em primeira pessoa acrescenta complexidade à narrativa, porque
a apresenta do ponto de vista do sujeito que procura se conhecer. Além disso, como o narrador é testemunha participante da ação,
suas palavras ganham concretude e produzem empatia no leitor:
Mas, como procurei esse tempo todo não ser complacente comigo, vou permitir-me agora expor sentimentos meus muito profundos, de um
modo que nunca seria possibilitado numa investigação policial ou julgamento. (SANT’ANNA, 1994, p.62)
A linguagem adotada por Antenor é, apesar de sua participação nos acontecimentos, predominantemente objetiva. Por isso pode
apresentar as demais personagens da trama utilizando artifícios próprios também da narrativa impessoal, como o relato da ação
para deduzir características.
Tanto no caso da assassina Marieta como no da vítima Frederica, alguns traços essenciais são repetidos à exaustão, para caracterizar
as personagens de modo convincente, em função da economia da trama. (CANDIDO, 1992, p.58-66)
Os retratos da co-autora do crime, Marieta, e da vítima, Frederica, são sentenciosos, resultado de uma análise quase onisciente.
Segundo Antonio Candido, esse tipo de síntese oferece ao leitor o conforto das explicações definitivas para ações e caracteres
que, normalmente, não seria possível compreender senão fragmentariamente. Mas em “O monstro” os retratos são também ambíguos.
Sant’Anna não deixa nunca de provocar no leitor o desconforto de duvidar da completude da percepção e da linguagem:
ANTENOR: (…) Ali de pé, no centro do banheiro, de frente para mim, era como se ela
[ Frederica ] ocupasse um espaço próprio e olhasse para dentro de si mesma, séria, compenetrada, sem qualquer afetação ou consciência
da sua beleza, de que pudesse estar sendo objetodo amor e da cobiça de outros olhares.
FLAGRANTE: É sabido que os cegos, ou mesmo os quase cegos, possuem os sentidos muito aguçados. Não lhe ocorreu, ainda que não naquele
momento, que Frederica possa ter pressentido a presença e o olhar do senhor, sem reagir a isso?
ANTENOR: Não… É claro que não… Não pode ser. Qualquer dúvida nesse sentido lançaria uma nova luz sobre os acontecimentos, não
menos terrível, ou ainda mais terrível. (SANT’ANNA, 1994, p.53)
O conto incentiva esse tipo de cotejamento entre literatura e jornal ao mimetizar as convenções da linguagem jornalística.
Na primeira página de cada uma das duas partes em que o conto se divide, o cabeçalho indica a data da publicação, à maneira dos
periódicos: 2 e 9 de junho de 1993.
A própria divisão em duas partes é justificada como procedimento técnico, devido à extensão da entrevista, preservada pelo seu
interesse jornalístico. Os textos que introduzem a narrativa do assassino, feitos em nome da edição da fictícia revista Flagrante,
especificam detalhes das circunstâncias da entrevista, reproduzindo cacoetes do jornalismo num tom ligeiramente caricato.
A linguagem é em geral objetiva. Os verbos escolhidos para organizá-la são típicos do campo do jornalismo: Antenor conta, explica,
revela. O texto inclui ainda inúmeros detalhes próprios do efeito de real buscado pela narrativa jornalística, como os nomes
próprios completos, as datas exatas e locais precisos, a idade do entrevistado. É assim que se abre o conto:
Em sessão do 2º Tribunal do Júri, em 4 de março passado, no Rio de Janeiro, o professor universitário Antenor Lott Marçal, de 45
anos, após ter sua culpa reconhecida unanimemente pelos jurados, foi condenado pelo juiz Irailton Catanhede à pena de trinta
anos de reclusão, pelo estupro e co-autoria do assassinato de Frederica Stucker, de vinte anos, no dia 18 de junho de 1992.
(SANT’ANNA, 1994, p.39)
Nos dois textos introdutórios também aparecem indícios de uma preocupação em legitimar o relato como verdadeiro e mesmo
justificativas para o que, na sua estrutura, foge aos padrões do formato escolhido. Vejamos alguns trechos:
O pouco de edição que foi feito na matéria obedeceu a critérios de melhor ordenamento da mesma e obteve a concordância do
entrevistado, que introduziu algumas alterações no texto final, revelando sobretudo preocupações de ordem sintática e de clareza,
para depois colocar sua assinatura em todas as folhas originais.
(…) a exemplo do que aconteceu com a primeira parte da entrevista, preferimos não antecipar com subtítulos ou destaques na
matéria, para que suas etapas com as correspondentes revelações possam ser acompanhadas pelos leitores em sua ordem e mecanismos
próprios. (SANT’ANNA, 1994, p.40 e 69)
No entanto, o conto contrapõe a essa pretensão de busca da verdade declarações do entrevistado que questionam qual seria o caminho
para a verdade e problematizam a relação entre realidade e ficção, incluindo o
papel do jornalismo e dos meios de comunicação na formação da visão de mundo dos indivíduos. “É necessária muita cautela para se
chegar a alguma verdade quando se trata de atos humanos”, adverte Antenor, ecoando a reflexão já empreendida por
Sérgio Sant’Anna vinte anos antes, em “Notas de Manfredo Rangel”.
De certa forma, confirma-se a observação feita por Silviano Santiago, no artigo “O caminho circular da ficção (ou: não será outra
a verdade)”, quando do lançamento de “Notas de Manfredo Rangel”. O mundo ficcional de Sant’Anna se caracteriza pela seriedade com que
os temas são repetidamente abordados, sempre num horizonte de utopia e de atribuição de valores que contrasta com
a linha geral atópica e suplementar da ficção contemporânea. (SANTIAGO, 1973, p.167-178)
Ainda que faça uso do pastiche e adote ironicamente as regras de gêneros variados, especialmente os da mídia, Sérgio Sant’Anna
não abre mão de um tom moralizante que grande parte da ficção abandonou em favor do amoralismo e da valorização do jogo da
linguagem por si mesmo. É uma literatura obsessiva, que retoma e reelabora infinitamente seus temas metalingüísticos.
Assim, a personagem de Antenor cumpre o papel de colocar em evidência os limites humanos da percepção e do registro da realidade,
além do papel da mídia em sua conformação.
O professor explica como precisou elaborar os acontecimentos experimentados no assassinato e assimilá-los, para continuar
a viver. “Durante os dias eu ficava sozinho e a história de Frederica se transformava ao sabor do que se publicava nos jornais”,
observa. (SANT’ANNA, 1994, p.72)
Ainda outras indicações desse questionamento:
É curioso o poder da palavra impressa. Eu mesmo tentei colocar em dúvida, intimamente, algumas coisas. Por exemplo, se Frederica
não teria buscado conosco uma aventura amorosa.
E se a sua morte não teria ocorrido por uma fatalidade.
(…) Está certo, não lhe posso dar essa certeza. E, ainda quando se trata de fatos concretos, como os que levaram à morte de
Frederica, eu próprio duvido, algumas vezes, se a reprodução deles que tenho em mente e procuro transmitir é a mais correta
possível. No decorrer desta entrevista, pareceu-me, várias vezes, que enxergava os acontecimentos sob novos ângulos e que
eu mesmo me transformava, falando deles. As coisas acontecem velozmente, não podemos fixá-las nos momentos em que as vivemos(…)
(SANT’ANNA, 1994, p.71, 77 e 78)
A combinação das reflexões com o pastiche de entrevista que é o formato do conto não se mostra gratuita. A maior contribuição da obra
de Sant’Anna pode ser vista na pesquisa sobre a relação entre linguagem e realidade. (SANTOS, 1992, p.13) Na primeira fase, cujo
texto exemplar é Confissões de Ralfo, o exercício metalingüístico é radical, a denúncia das farsas da linguagem e da
literatura se faz quase que diretamente. A segunda etapa seria de experimentação com os intervalos da linguagem, com o silêncio.
Seu marco é O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, o concerto que não houve.
Finalmente, A senhorita Simpson seria o exemplo da terceira fase, em que Sérgio Sant’Anna continua fazendo exercícios
metalingüísticos, mas os subordina ironicamente à história que conta. (SANTOS, 1992, p.64)
Assim acontece com “O monstro”. A leitura que faço dos sinais críticos à linguagem da mídia é apenas uma faceta do conto, obra que se
sustenta no enredo emblemático e envolvente desenvolvido pelo narrador-personagem.
Conclusão
Em estudo sobre “O monstro”, Karl Schöllhammer aponta como, ao realizar um mimetismo perfeito da objetividade jornalística, a
linguagem cristalina adotada na narrativa do professor herói do conto só faz realçar a sombra do inexplicável. (SCHÖLLHAMMER,
1995, p.282-284)
Ela se projeta por detrás do discurso jornalístico, que pretensamente mostra tudo e toda a verdade na sua objetividade. Alegar que se
mostra tudo é fazer espetáculo, e não alcançar a verdade.
A personagem do professor Antenor também aponta essa espetacularização provocada pelo jornalismo e pela exposição pela mídia da
realidade pública e privada. Na segunda parte da entrevista, conta como foi procurado por representantes de duas editoras para
escrever livros sobre seu caso.
Um deles veio com uma conversa mole de que eu poderia mostrar, no livro, o meu lado humano (Antenor ri sarcasticamente). O outro,
pelo menos, não procurou escamotear os objetivos comerciais da proposta e disse-me, apenas, que minha história com Marieta,
Frederica, seria de grande interesse para os leitores. É verdade e não é outra a razão pela qual a sua revista está me
ouvindo. Eis uma questão importante: as pessoas querem compartilhar de tudo o que aconteceu nessa história. Tirarão dela um
prazer que não gostariam de admitir. (SANT’ANNA, 1994, p.75)
O prazer também é nosso, a afirmativa é uma deixa para lembrarmos disso. Ao final da leitura de “O monstro”, percebemos que
devoramos a história do professor, cativados exatamente pela forma direta, distanciada e controlada com que o narrador expõe a
violência, falando em primeira pessoa. Santos caracteriza esse tipo de narrador, freqüente na obra de Sant’Anna, como
testemunha, dono de um olhar ao mesmo tempo participante e postado num ângulo externo aos acontecimentos. No caso de “O monstro”, a
exterioridade é garantida pela personificação do narrador como professor de filosofia, racional e interessado na verdade, pelo
afastamento no tempo e pela objetivação proporcionada pelas perguntas do repórter. Como se um vidro isolasse
o narrador e, pela mesma propriedade de transparência, permitisse a inclusão do leitor.
O jornalista, ao pontuar a narrativa, funciona como o observador neutro descrito por Santos, que amplia o horizonte da narração
no seu posicionamento que é, simultaneamente, de questionamento e corroboração do narrado. O que se revela é o efeito poderoso de
aproximação com o leitor obtido pelos formatos tidos e apregoados como objetivos, em especial o jornalístico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SANT’ANNA, Sérgio. O concerto de João Gilberto no Rio
de Janeiro. São Paulo: Ática, 1982.
SANT’ANNA, Sérgio. O monstro. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
p.37-80:
O monstro.
SANT’ANNA, Sérgio. Notas de Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer).
2. ed.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991. p.175-206: Notas de Manfredo
Rangel, repórter
(a respeito de Kramer).
SANT’ANNA, Sérgio. A senhorita Simpson. São Paulo: Companhia das Letras,
1989.
BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988.
CANDIDO, Antonio et. alii. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva,
1992.
SANTOS, Luís Alberto Ferreira Brandão. Um olho de vidro. A narrativa de
Sérgio Sant’Anna.
Belo Horizonte: Fale/ UFMG, 1992. (Dissertação de
Mestrado.)
SCHÖLLHAMMER, Karl Erik. O monstruoso e o indizível. Notas sobre a relação
entre
violência e literatura a partir de um conto de Sérgio Sant’Anna.
Comunicação e Política, Rio
de Janeiro, Cebela, n.s., v.1, n.2, p.281-292, dez.1994 - mar.1995.
SÜSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária: polêmicas, diários e
retratos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
SÜSSEKIND, Flora. Papéis colados. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1993.
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Cláudia Lemos (Doutoranda em Literatura Comparada na UFMG e professora de Jornalismo
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