A Utopia de Thomas Morus se organiza a partir de um relato fictício feito a Morus pelo culto viajante Raphael Hitlodeu que teria
participado da expedição de Américo Vespúcio.
Em viagens, Rafael conhecera a fantástica Utopia, cuja descrição, nos remete a uma ilha paradisíaca, um lugar perfeito.
A fictícia Ilha da Utopia, no livro de Thomas Morus, é fruto de uma imagem criada a partir de histórias contadas sobre a
exuberância da América, por reais desbravadores do continente americano quando do retorno destes à Europa.
A Utopia é uma concepção teórica de um estado perfeito onde se viveria em plena liberdade religiosa. Assim, para Morus, a
sociedade de Utopia é a reação ideal à 
sociedade inglesa de seu tempo; é a cidade de Deus que ele contrapõe a cidade terrestre.
As idéias de Morus demonstram que ele visava libertar os homens para o trabalho. Ao invés de lavradores sem emprego a correr
as estradas, ele queria trabalho para todos; e ao invés de parasitas vivendo à custa de ricos, ele queria todos trabalhando.
Deste modo esperava ele encurtar as horas de trabalho, dando a todos o dia de seis horas.
Com tais idéias Morus se aproxima dos modernos socialistas, embora o seu enfoque não seja, exatamente, em direção ao futuro; o
seu ideal traduzia o ideal medieval, comum a toda a teoria política do Ocidente. Afinal, desde São Tomás de Aquino que a
comunidade cristã consiste de classes diferenciadas que exercem harmonicamente funções próprias, todas necessárias ao bem
comum.
Essa é a sociedade ideal da Utopia de Thomas Morus.
A Utopia de Morus é uma obra que apesar de ter sido pensada no mundo do período renascentista, apresenta questões bem atuais,
anseios de acomodação e resolução de problemas que ainda hoje são vividos pelas sociedades da América Latina, África, Ásia
e Terceiro Mundo em geral. A ausência da miséria, do desemprego, das taxas altas e a valorização do trabalhador são
algumas das principais metas que já naqueles tempos se procurava, se desejava alcançar e que perduram ainda hoje sem que
sejam concretizadas:
“Eis o que invencivelmente me persuade que o único meio de distribuir os bens com igualdade e justiça, e de fazer a felicidade
do gênero humano, é a abolição da propriedade. Enquanto o direito de propriedade for o fundamento do edifício social, a
classe mais numerosa e mais estimável não terá por quinhão senão miséria, tormentos e desesperos.” (MORUS, 1516, p.71)

Foi assim que Thomas Morus, no século XVI, em pleno Renascimento, pintou com palavras o quadro da sociedade perfeita. Morus,
cumprindo um papel de ensaísta político-social, esquematizou uma sociedade ideal, sonhada e formalizada nas páginas de um
livro que infelizmente continua sendo, para tantas pessoas neste planeta, tão atual como o foi quase cinco séculos atrás.
2 - A utopia hoje
Do século XVI até hoje, a utopia foi vivida e alimentada de todas as formas nos diferentes pontos do planeta. A história
registra os vários movimentos e modelos de sociedade e de Estado que povos de todo o mundo criaram, viveram, buscaram.
Desde a época de Morus até agora a humanidade tem vivido ou assistido a guerras e conflitos diversos a favor ou contra as
variadas formas de política e economia que foram surgindo ao longo dos séculos. Tudo em nome de anseios e desejos de bem
estar comum ou individual, conforme a utopia de cada um, de cada nação ou de cada governante em nome de sua nação.
Agora passados esses cinco séculos de busca por um lugar ideal, por um modelo perfeito de política e economia, há quem
acredite havê-lo encontrado, e há quem pensa seguir buscando-o.
Há ainda aqueles que chegaram a pensar que já haviam conseguido alcançar essa utopia, tendo realizado esses anseios de bem estar
comum.
O ensaísta estadunidense Francis Fukuyama, por exemplo, está entre os que chegaram a acreditar no fim de uma história de
buscas, de uma utopia que parece ter nascido junto com a humanidade, e que na sua opinião, vinte séculos seriam suficientes
para realizá-la.
Fukuyama publicou tais pensamentos em Washington, em 1989, através do seu ensaio: The end of History? Este ensaio constitui
uma das versões do “fim da história”, que hoje são contestadas pelo próprio Fukuyama em um novo ensaio onde ele já não
demonstra tanta certeza de haver chegado ao topo das realizações dos anseios humanos.
Para Fukuyama, na análise do argentino Eduardo Fracchia, a democracia liberal vivida hoje pelos Estados Unidos e outras nações
do Globo é o modelo de política econômica que veio como superador de outros modelos que não possuem o mesmo poder totalizante.
Assim ele considera que a vitória do capitalismo sobre o comunismo representa também a superação da monarquia e
do fascismo. Uma superação que deve ser entendida não como mais uma entre várias, mas sim como a última, a definitiva, a ideal;
o ponto mais alto da evolução ideológica da humanidade, que em conjunto, chega ao “fim da história”.
Esse fim de história, conceito tomado de Hegel, não se refere ao término dos acontecimentos históricos, mas ao fato de se haver
chegado a uma forma institucional de governo que satisfaz os desejos mais profundos do ser humano, como explica Fracchia.
Muitas críticas já foram feitas à teoria de Fukuyama, sobre o fim da história e uma delas diz que ele ignorou a persistência
de desigualdade e miséria dentro das próprias sociedades capitalistas avançadas. Para Fukuyama, a pobreza é um vestígio de
tempos passados que está sujeito a um aperfeiçoamento de atitudes, como se esta fosse um defeito ou um desvio de caráter e não
uma questão social.
Sobre a guerra ele argumenta que é um mau a ser superado, e que vem diminuindo à medida em que os Estados Unidos se aproximam
de sua norma racional. O seu conceito não supunha, é bem verdade, a inexistência de todos os conflitos sociais ou a solução de
todos os problemas institucionais. O que ele afirmava era que o capitalismo liberal é o “nec plus ultra” da vida política
e econômica na Terra. O fim da história que ele quis mostrar, não era a chegada de um sistema perfeito, mas a eliminação
de quaisquer alternativas melhores.
Nesse caso, ele nos levou a pensar através deste seu ensaio, que a utopia acabou, ou melhor, que se realizou.
Aquela utopia pensada e traduzida dos desejos da humanidade no século XVI, por Morus, chegou a sua totalidade.
Para a Drª Marcia Paraquett (pesquisadora e professora da UFF) Fukuyama tem um discurso arrogante e fala baseado no poder
econômico dos Estados Unidos e em suas teorias, que estão caracterizadas pela prepotência da perfeição e em nada se prestam à
realidade latino-americana.
E ainda segundo Marcia Paraquett, se Fukuyama e outros, como o francês Baudrillard que também acredita no “fim da história”,
pudessem ver e sentir um pouquinho de nossa realidade, certamente mudariam seus discursos e, talvez se mostrassem surpresos
ao saberem que por aqui o melhor ainda está por começar. Segundo ela, ou acreditamos nisso ou abandonamos o projeto
de construção de nosso continente. Pois, para ela a nossa história mal começou e precisamos ser protagonistas, agentes
modificadores dessa História. E isso é utopia! Uma utopia que acredita sermos capazes de reverter o quadro de corrupção,
de injustiça, de autoritarismo, de desigualdade social e de violência urbana que estamos vivendo.
Segundo outros comentários de quem hoje analisa a utopia desde Thomas Morus, imensa é a relação das manifestações literárias
ou não, sobre a utopia. São manifestações que já aparecem nos relatos da Bíblia e jogam com a esperança da Terra Prometida e
dos paraísos celestes, passando pelos contos infantis tradicionais que sempre falam de um reino distante onde os personagens
terminam sendo felizes para sempre. Tais manifestações se apresentam neste século como projetos utópicos modernistas e
pós-modernistas que valorizam as ações sociais e políticas, constituindo uma vertente utópico-revolucionária, voltada para uma
mudança social concreta e transformadora.
Sendo assim, o sujeito utópico de hoje se empenha em atingir a plenitude humana por via da ação política, já que atualmente para
a maioria dos que se preocupam com o assunto, a utopia não é considerada somente um sonho, mas uma verdadeira tomada de
consciência diante das problemáticas político-sociais.
O que é importante, diante de tudo isso, é que tanto na fantasia como na prática política, a utopia ajuda o homem a sobreviver,
levando-o a criar novos mundos, reais ou imaginários, que o projetam rumo a um futuro certo, um futuro promissor em direção
ao qual toda a humanidade sempre esteve voltada.
3 -Conclusão
A utopia, que esteve presente desde sempre, de uma maneira ou de outra, no pensamento de todos os povos, em todas as épocas,
representa uma busca que o pesquisador e professor paulista Sergio R. de Almeida analisa como “negação de uma realidade medíocre
e sufocante”. Na Idade Média essa busca se intensifica dado a uma realidade de fome, doenças, trabalho duro e injustiças sociais
de todo tipo que faz com que o homem medieval idealize lugares, ilhas, paraísos terrestres que constituem espaços sem limites
definidos e sem localização exata. Mas após o século XVIII a utopia ganha suporte político e se projeta nos tempos modernos com
mais força, dando margem a uma nova leitura e interpretação. A utopia hoje não é mais a denominação de uma ilha distante e
imaginária, ou seja, um “não lugar”, mas sim, a concretização através das lutas e reivindicações do mundo atual.
Biografia
Thomas More (1478- 1535). A forma latinizada de seu nome é Thomas Morus, e More é a forma inglesa.
More nasceu e morreu em Londres, Inglaterra. Era filho de juízes do banco dos reis. Com quinze anos virou pajem do cardeal Morton,
da Cantuária. Foi um pensador humanista, otimista em relação à solução dos problemas, bastando para isso bem conduzir a razão
e obedecer a natureza. Tinha muitas relações e amizades, apesar de reconhecer injustiças nas nações da Europa.
Em 1497 foi terminar os estudos em Oxford, onde tomou contato com Desiderius Erasmo, filósofo e teólogo de Rotterdam, Holanda.
Se tornaram grandes amigos, e More era como um discípulo de Erasmo, mais velho, que dedicou à ele seu principal livro Elogio
da Loucura. Mantiveram correspondência. Thomas More chegou à chanceler da Inglaterra e escrevia para Erasmo: "Não podes
avaliar com que aversão me encontro nesses negócios de príncipe, não há nada de mais odioso do que essa embaixada."
More falava de sua missão diplomática de resolver uma importante dissidência entre Henrique VIII, a quem chama de invencível e
dono de um gênio raro, e o príncipe Carlos da região de Castela.
Henrique VIII fundou o anglicanismo, religião oficial da Inglaterra, para poder se casar de novo.
Isso não era permitido pela Igreja Católica, e Henrique, consultando o Papa, descobriu que só podia casar com outra mulher em
caso de morte da atual.
Certamente por algum problema genético, Henrique só tinha filhas mulheres. Mas achando, que o defeito estava nas mães, mandou
matar diversas esposas. Ele queria um descendente homem. O principal motivo da fundação do anglicanismo foi a permissão do
divórcio. More era católico e não aceitou a nova religião.
Em 1532 pediu demissão do cargo. Em 1533 ofendeu Ana Bolena, uma das esposas de Henrique VIII, não assistindo sua coroação e não
prestando fidelidade aos seus descendentes. Na religião anglicana o chefe de estado era o chefe de religião. Desgostado, Henrique
condenou More a prisão perpétua e depois à morte por crime de alta traição. Foi decapitado em 1535.
Seu principal livro é um livro político, A Utopia, que em grego significa "não lugar, lugar que não existe".
A Utopia é uma ilha afastada do continente europeu, mas no livro, Rafael Hitlodeu (Hitlodeu quer dizer aproximadamente
nonsense, contador de disparates) não especifica em que oceano ela fica, só diz que foi parar lá depois de embarcar numa das
viagens de Américo Vespúcio, e voltou lá depois.
A ilha de Utopia abarca a sociedade ideal, esse termo depois virou sinônimo de coisa ideal, inatingível, mas esse significado
semântico foi dado por More. Há jogos de palavras também com o nome do rio Anidro, sem água, do príncipe, Ademo, sem povo e
da capital Amauroto, evanescente, que some como miragem.
BIBLIOGRAFIA:
- The Workes of Sir Thomas More Knyght, sometyme Lorde Chauncellour of England,
wrytetn by him in the
Englysh tongue. Ed. William Rastell, London, 1557.
- Thomae Mori Opera Omnia Latina. Lovaina, 1565. Reimpresso em Frankfurt, 1963.
- Um homem para todas as horas (Correspondência de Tomás Moro).
The Correspondence of Sir Thomas More.
Princeton: Elizabeth F. Rogers Edit., 1947.
- Thomas More's Prayer Book. Louis L. Martz & Richard S. Sylvester. New Haven, Connecticut, 1969.
- Diálogo da fortaleza contra a tribulação.
- A Agonia de Cristo.
- A Apologia
- Um homem só (Cartas da torre).
- Os Novíssimos.
- Réplica a Martinho Lutero.
- Diálogo contra as heresias.
- Súplica das Almas.
- Refutação da Resposta de Tyndale.
- Debelação de Salem e Bizancio.
- Tratado sobre a Paixão de Cristo.
- Expositio Passionis.
- Tratado para receber o Corpo de Nosso Senhor.
- Piedosa Instrução.
- Orações.
- Epitáfio.
- Vida de Pico della Mirandola.
- História de Ricardo III.
- Utopia.
Fontes de Consulta 1. ALMEIDA, Sergio Rubens Barbosa de. As duas visões da utopia medieval.
O correio, Rio de Janeiro, n.85, p.7
2. ANDERSON, Perry. O fim da história, de Hegel a Fukuyama; Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
3. BAUDRILLARD, Jean. La ilusión del fin. Barcelona: Anagrama, 1997
4. DE LA PARRA, Marco Antonio. Carta abierta a Pinochet. Santiago: Planeta, 1998.
5. FRACCHIA, Eduardo. Filosofia de la Resistencia. Corrientes: UNNE, 1997.
6. MORUS, Thomas. A Utopia. São Paulo: L&PM, 1997.
7. MOTTA, Alfredo Dolcino. A antemanhã da realidade. O Correio, Rio de Janeiro, n.85, p.14
8. PARAQUETT, Marcia. O melhor está por começar. O Correio, Rio de Janeiro, n.85, p.7
9. SECCO, Carmem Lucia Tindo. A globalização da economia e a utopia do poético. O Correio, Rio de Janeiro, n.85, p.7
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