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conhecimentos lingüísticos na resolução de problemas concernentes a fala, a
escrita e a leitura.
CONSOANTES OCLUSIVAS: CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO
As consoantes são chamadas oclusivas quanto à maneira ou modo de articulação
das mesmas.
No caso delas, “os articuladores produzem uma obstrução completa
da passagem da corrente
de ar através da boca. O véu palatino está levantado
e o ar que vem dos pulmões encaminha-se
para a cavidade oral. Oclusivas são
portanto consoantes orais.” (SILVA, p. 33). São também chamadas plosivas,
por mérito, exatamente, desta obstrução que, por sua vez, causa uma
explosão
quando o ar é solto.
Quanto aos pontos de articulação, elas se dividirão em
bilabiais (/p/ e /b/), dentais ou alveolares
(/t/ e /d/), e velares (/k/ e
/g/), desvozeadas e vozeadas, respectivamente(quanto à sonorização). Podendo
ainda, haver uma palatalização ou labialização provocada pelos articuladores
chamados secundários, quando encontrados juntos a uma vogais.
As consoantes /p/, /b/, /k/ e /g/ são uniformes na língua portuguesa, pois
não apresentam variação sonora ou articulatória em nenhum dos diversos
idioletos do português falado no Brasil.
Desse modo, o /p/ de [‘pe] que se
fala no Sul é o mesmo de [‘po], falado no Nordeste
ou no Sudeste; o /b/ de
[‘bota] falado no Maranhão é o mesmo de [‘bico], falado no Acre.
E assim
acontece, tanto com o /k/ e o /g/, que indiferentemente do idioleto da
região em que se
falam, os sons são os mesmos.
Por outro lado, as consoantes /t/ e /d/ irão diferir, quanto ao ponto de
articulação, em alguns
idioletos. Em geral, fala-se o /t/ de [‘tato] e o /d/
de [‘dado], da mesma maneira (dentro das suas próprias particularidades
articulatórias) em todas as regiões do Brasil e em seus respectivos
idioletos. Todavia, quando estas consoantes encontram-se diante da vogal i,
elas sofrem o que é chamado de palatalização, que é quando a língua como
articulador ativo, ao invés de ir de encontro aos dentes superiores
incisivos ou aos alvéolos, “direciona-se para uma posição anterior (mais
para frente da cavidade bucal) do que normalmente ocorre quando se articula
um determinado segmento consonantal” (SILVA, p. 35). Então, este segmentos
passam a ser “produzidos com uma articulação secundária”(SILVA: 2002, p.34)
e a ser classificados, quanto ao modo de articulação, como consoantes
africadas (/t/ e /d/).
A TROCA DE CONSOANTES OCLUSIVAS NA FALA E NA ESCRITA
Na alfabetização, em uma escola particular, a professora da menina T. R.,
começa a perceber
falhas na escrita, a partir de ditados, e na fala da
criança.
A menina troca as oclusivas dentais homorgânicas t e d, falando
“tata” ou “tada” em vez de
“data”, e também as bilabiais p e b como em
“bola”, a qual ela falava “pola”.
A professora, então, recomenda a ida a um
fonoaudiólogo, e assim procede a mãe da criança.
Porém, passados um mês e
meio, a fonoaudióloga dá alta à criança, que ainda mostra déficits
fonológicos. Já com 7 anos de idade e na 2ª série, T.R continua tendo a
dislexia, porém,
amenizada pelos estímulos da mãe da menina como ditados e
correções. Por parte das
professoras que a ensinaram até a série atual, não
houve os estímulos necessários para ajudar
no problema, por conta de não
saber avaliar e lidar com o caso devidamente, sendo evidente a
falta de
embasamento teórico para tratá-lo dentro das possibilidades do fator
lingüístico.
Casos como esse não são tão fáceis de serem encontrados na realidade das
escolas, há não ser quando levamos em consideração erros comuns que
acontecem na fala da criança durante o início
do processo de aquisição da
linguagem. No entanto, segundo fonoaudiólogos, quando esta fase de troca de
consoantes persiste após os cinco anos de idade, é necessário ter um pouco
mais de percepção para identificar as causas e buscar as possíveis soluções
para o problema.
Cabe aos pais e professores observarem a criança e, se diagnosticada a troca
de letras tanto
na fala quanto na escrita, a mesma terá que passar por
atividades específicas orientadas pelo professor e, principalmente, ser
encaminhada ao fonoaudiólogo. O acompanhamento destes dois profissionais em
conjunto, poderá ter excelentes resultados.
Mas, como o professor poderá ajudar nesse processo de correção da fala e da escrita, se a
sua formação é
Pedagogia, ou outra área de conhecimento, onde não acontece um estudo mais
aprofundado da Fonética?
Bem, o primeiro passo será a sua capacitação.
Quando o professor se encontra totalmente despreparado, numa situação
dessas, ele poderá acabar refletindo este despreparo na criança
em forma de
repreensão, até mesmo forçando-a a corrigir-se com estímulos inadequados, o
que poderá causar a ela constrangimento e apreensão, quando, porventura,
tiver que falar,
ler ou escrever novamente.
A posição mais acertada do
professor, é se utilizar de todos as tecnologias possíveis para obter
conhecimentos de Lingüística, ou, mais especificamente, no âmbito da
Fonética.
Como já foi dito, é a ciência que estuda a língua em suas
peculiaridades.
Ela poderá ajudar o docente a descobrir o que está causando
esta confusão na linguagem da
criança. O professor e pesquisador da área,
Vicente Martins, da Universidade Estadual Vale
do Acaraú, em um de seus
artigos que circulam pela Internet, aborda esta problemática citando
um caso
de uma professora que tinha um aluno com, segundo ela, um “déficit
fonológico”, e ele atribui como causa a questão da sonorização, já que, de
acordo com ele “os fonemas sonoros
exigem mais da criança durante a produção
da consoantes, especialmente
as oclusivas e fricativas”.
Os argumentos
utilizados no artigo citado têm pressupostos na Fonética, o que reafirma a
importância de que todo educador que trabalha com a alfabetização de
criança, deveria ter um
bom embasamento teórico nesta área.
O estudo completo do primeiro caso citado, nos remeteria a um maior
aprofundamento tanto no campo da Fonética quanto da Fonoaudiologia.
No
entanto, focalizar-se-á apenas algumas particularidades do caso no que se
refere à
substituição das consoantes oclusivas surdas (ou desvozeadas) pelas
sonoras (ou vozeadas).
O problema da sonorização pode sim, ser um fato
gerador desse problema, como já dissertou
sobre, o professor Vicente. Essa
distinção sonora é ocasionada por conta da glote estar, em
alguns momentos,
em repouso e, em outros, em atividade de vibração.
Quando o ar é solto pelo
pulmão encontrará como obstáculo, logo na abertura da laringe,
a glote e
suas cordas vocais. Quando estas últimas estão tensas, ocorre um leve
fechamento
da glote e uma vibração na passagem do ar, que é, então, chamada
se sonora.
Se as cordas vocais estiverem relaxadas, o ar passará
tranqüilamente, dando-se ao segmento a classificação de surdo.Essa
consciência fonêmica, do que é surdo e do que é sonoro, só irá
acontecer se
a criança for estimulada, e também será “a última consciência fonológica que
ela desenvolverá na aquisição da linguagem”, segundo a fonoaudióloga Lilian
Cristine Ribeiro Nascimento, mestre e doutoranda em educação pela Unicamp.
Então, voltando-se novamente para as consoantes oclusivas, a troca dos
segmentos /t/ por /d/ e /p/ por /b/, pode ocorrer devido à falta de
associação da criança do som
com a letra. A similaridade sonora entre ambas,
pode ser facilmente notada quando pronunciadas
em voz compassada. Por
exemplo, se ditas em voz alta e lentamente, as palavras pomba e
bomba, é
quase imperceptível a diferença de sons entre /p/ e /b/, nas quais, a
primeira é surda
e a segunda, sonora. Isso com certeza pode causar uma
confusão durante o aprendizado.
Em outro exemplo semelhante, podem ser ditas
as palavras dedo e teto, onde também ocorrerá
uma similaridade fonética
entre os segmentos /t/ e /d/, onde o primeiro é surdo, e o outro, sonoro.
Então, como tratar ou como estimular a criança de maneira correta para que
perceba e entenda
essa diferenciação quanto à sonoridade das consoantes? No
artigo do professor Vicente Martins,
ele dá a seguinte sugestão:
“Pedir que a criança coloque a mãozinha na garganta para
sentir as vibrações ou não das cordas vogais durante a produção
das consoantes sonoras (vibram) e surdas (não vibram) pode ser
exercício extremamente mnemônico, eficiente e suficiente para a
criança compreender as
distinções entre os fonemas surdos e
sonoros, e, doutra sorte, levá-la à consciência fonêmica,
utilizando, para isso, e ludicamente, o próprio corpo, manto do
ser e templo do espírito” (MARTINS: 2007) |
Para um professor que tenha certos conhecimentos teóricos sobre Fonética,
essa atividade será bastante significativa e seus resultados poderão trazer
para o mesmo, uma visão mais ampla de alfabetização, e ele também terá uma
posição mais profissional quando diante de outro caso parecido. Já que esta
troca de letras, principalmente das oclusivas, são de certa forma comuns,
sendo que, elas não ocorreram somente nos aspectos aqui tratados. Mas também
poderão
aparecer em outra roupagem. Por exemplo, há crianças que trocam a
consoante oclusiva bilabial sonora /b/ por uma consoante também oclusiva
dental e surda /d/. Só que nesta situação temos,
não só uma similaridade
quanto aos pontos de articulação, pois são muito próximos, mas,
principalmente, a semelhança na escrita das consoantes. Muitas vezes,
acontece em um ditado,
o fato de a professora dizer a palavra e pra melhor
ser compreendida, especificar: “/d/ de dado,
ou então, /b/ de bola. É até
mais uma maneira de intensificar a distinção entre as duas consoantes.
Já as
autoras do artigo Português: Como vencer o desafio da Alfabetização, Luzia
Fonseca,
Graça Branco e Elody Nunes, sugerem uma outra atividade de valor
significativo na
aprendizagem: que “a cada produção de texto, (o professor)
informe ao aluno quantas palavras
ele acertou, mas (que) evite focalizar as
críticas sobre as trocas”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A problemática abordada vem instigar o professor a refletir sobre as
limitações pedagógicas
que os próprios professores impõem a si mesmos,
deixando às vezes de lado o fio da meada,
o ponto de partida para o ensino
da língua, que básicas as noções teóricas básicas de Fonética.
Não é tão
comum, mas acontece com muitos educadores que, ao se depararem com esse
problema da troca de consoantes oclusivas, tendem a procurar se dispersar do
problema de
alguma forma, se os mesmos não são capacitados para lidar com a
situação. Isto pode fazer com
que ela se agrave ou perdure por muito tempo,
o que, com certeza, trará problemas
futuros à criança.
Sendo assim,
reitera-se que é necessária a busca de conhecimentos sobre a área aqui
tratada.
As consoantes oclusivas são comumente encontradas dentro destes
problemas. As informações
aqui expostas poderão ajudar tratá-los e servir de
base para um estudo
mais audacioso das mesmas.
Referências Bibliográficas
SILVA, Thais Cristófaro. Fonética e fonologia do português: roteiro de
estudo e guia
de exercícios. São Paulo: Contexto, 2002.
MARINHO, Luzia, BRANCO, Graça e MORAIS, Elody Nunes. Português: Como vencer
o desafio da Alfabetização. Revista Presente. Disponível em Internet:
http;//www.projetopresente.com.br/revista/ver_presenteportuguês.pdf.
Acessado em: 04 de Março de 2007.
MARTINS, Vicente. Como ajudar crianças que trocam gê por chê. Disponível em:
http://www.fonoesaude.org/consfonologica.htm. Acessado em: 02 de Fevereiro
de 2007.
NASCIMENTO, Liliane Cristine Ribeiro. Consciência Fonológica. Disponível em:
http://www.neteducacao.tv.br/site/reportagem/n_artigo.asp?id=253.
Acessado em: 18 de janeiro de 2007.
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Veruska M. Sousa , José Maria V. Maranhão, Mayumi P. Lopes e Rita Helena A. P. Fontenele
fazem parte do Grupo de Estudos Lingüísticos e Sociais(GELSO), coordenado pelo professor Vicente Martins,
da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Ceará. E-mail: vicente.martins@uol.com.br |
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