Em outros termos, a narrativa desconstrói o mito romântico de um Brasil superior. Evidencia a distância entre o sonho e a
realidade; critica o idealismo inconseqüente, incapaz de enxergar as verdadeiras dimensões do real.
| Ao abordar o tema do
patriotismo brasileiro, este romance problematiza um dos
conceitos mais arraigados do caráter nacional, expondo-o ao
ridículo, numa impiedosa anatomia da alma coletiva. |
Um Ideário Pré-modernista
Na análise do sonho patriótico de Policarpo Quaresma, Lima Barreto pode
também abordar alguns subtemas importantes para a formação do seu ideário
pré-modernista, como a crítica a posição negativa do brasileiro médio em
relação ao colonizador europeu, a exaltação á terra, a idealização da
natureza virgem, a pesquisa folclórica, a denúncia contra o preconceito
social, a paródia da máquina burocrática e a ojeriza contra os falsos
artistas.
A sondagem do desequilíbrio de Quaresma permitiu-lhe ainda investigar com
tintas fortes as alucinações, os desejos e as manias que caracterizam a
loucura - retratando tanto os seus aspectos humorísticos quanto trágicos.
| A caracterização do
funcionalismo público é um dos subtemas mais interessantes do
romance. O próprio Lima Barreto foi funcionário público. Por
isso pode captar os pequenos traços que caracterizam esse tipo
de serviço no Brasil, transpondo-o de forma magistral para o
plano da ficção. |
Com efeito, o perfil dos funcionários públicos do
romance, dos quais o mais importante é o próprio
Presidente da República
(também caricaturado), resulta em uma interessante alegoria contra a
burocracia formada por pessoas sem consistência moral ou profissional. Neste
sentido, o livro é
uma sátira impiedosa e bem-humorada contra
o Brasil oficial, onde domina
generais sem
batalha (Albernaz) e almirantes sem navio (Caldas).
Estilo Iconoclasta Do ponto de vista literário, Triste Fim de Policarpo Quaresma é um dos
grandes herdeiros do naturalismo em nossa arte, assim como, Os Sertões, de
Euclides da Cunha.
Aliás, toda a literatura pré-modernista recebe razoável influência da
experiência
realista da década de 1889.
Este é um dos fatores que explicam a perspectiva dessacralizadora e
anti-romântica do livro.
A concepção literária
presente em Triste fim de Policarpo Quaresma é mais pessoal que
a dominante no naturalismo,
que era muito preso á idéia do detalhe científico e da
preferência patológica. |
Por ser muito pessoal, este romance transmite uma forte
impressão da realidade, sem se
prender muito aos preceitos do realismo. Apesar disso, Lima Barreto ainda
trabalha com o
conceito de literatura como instrumento de denúncia social, o que ás vezes,
assume tonalidades panfletárias. Isto é, em alguns passos, o narrador toma o
partido dos oprimidos, colocando-se francamente contra os opressores.
Essa idéia de arte engajada em defesa de princípios
humanitários pode ser exemplificada mediante os ataques contra o positivismo
republicano e a defesa da massa sofredora, presente no último capítulo da
segunda parte e, de modo geral, em toda a terceira parte.
Outro exemplo de engajamento social é a descrição
afetuosa das pessoas humildes, quer no subúrbios cariocas (início do
capítulo II, segunda parte), quer na roça (capítulo IV, terceira parte).
No primeiro caso, trata-se da descrição do bairro em que mora Ricardo
Coração dos Outros,
um dos personagens importantes do romance.
No segundo trata-se do esboço moral de personagens secundários, moradores
do
sítio de Quaresma.
Tanto em um como em outro caso, deve-se notar o propósito de uma literatura
empenhada no registro e simples da realidade brasileira, com destaque para
os seus contrastes e suas desigualdades.
| O diagnóstico dos dois "Brasis", o
rico e o pobre, é uma obsessão na ficção do pré-modernismo, do qual esse
romance é uma das maiores expressões. |
Uma Linguagem Despojada
A descontração do estilo é outra característica
importante de Triste Fim de Policarpo Quaresma,
que incorpora vocábulos e freses espontâneas, próprias da linguagem oral ou
jornalística.
O estilo simples da narrativa corresponde ao ideal de objetividade do autor,
que se entende
pelo respeito do artista ás dimensões do objeto retratado, sendo compatível
com o foco narrativo
em terceira pessoa onisciente.
| A vida carioca transpõe-se para as
páginas desse romance com extrema simplicidade e realismo, captada em
diversos níveis, ou seja, o subúrbio, a burocracia, a vida rural e a
política de 1890. |
Há uma passagem em Triste Fim de Policarpo Quaresma
que define com clareza o ideal
estético de Lima Barreto, baseado na frase comum, de expressão espontânea e
natural.
A situação dessa passagem é a seguinte: Armando Borges er médico sem talento
nem
convicção científica. Para obter prestígio, dava-se ao trabalho de compilar
noções de
medicina em artigos recheados de expressões eruditas, que ele copiava dos
clássicos,
sem assimilar ou entender.
Ao caracterizar esse pseudo-escritor, Lima Barreto cria uma vigorosa
caricatura do estilo
artificial de nossa Belle Époque (personificada em Rui Barbosa, Coelho Neto,
Afrânio Peixoto, Alberto de Oliveira), que ele decididamente evitava
|
"De fato ele estava
escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o clássico um
grande artigo sobre 'ferimentos por armas de fogo' .
O seu último truque intelectual era este do clássico. Buscava
nisto uma distinção, uma separação intelectual desses meninos
por aí que escrevem contos e romances nos jornais.
Ele, um sábio, e sobretudo um doutor: não podia escrever da
mesma forma que eles.
A sua sabedoria superior e o seu título 'acadêmico' não podia
usar a mesma língua,
dos mesmos modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros e
literatos.
Veio lhe então a idéia do clássico.
O processo era simples: escrevia do modo comum, com as palavras
e o jeito de hoje,
em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e
substitua incomodar
por molestar, ao redor por derredor, isto por esto, quão grande
ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, empós,
e assim obtinha o seu estilo clássico
que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em
geral" |
| Esse fragmento (do capítulo I,
terceira parte) não apenas ridicularizava os escritores 'difíceis' do
final do século, mas também revela a intenção de uma escrita 'fácil',
baseada na espontaneidade da fala cotidiana e da reportagem
jornalística. |
Ao caricaturar o artificialismo literário de seu
tempo, Lima Barreto escreve de forma
descontraída e informal. Neste sentido, Triste Fim de Policarpo Quaresma
contribui para a simplicidade estilística dos artistas modernistas da Semana
de 1922, que também apreciavam a soltura e a descontração da frase, em
certas rápidas do cotidiano dos grandes centros..
De fato, esse romance ensinou ao modernismo como captar de maneira viva a
agitação das ruas do Rio de Janeiro. nele, agitam-se, numa escrita dinâmica e incisiva, as várias camadas da
população: o burocrata, o escriturário, os moleques, os oficiais, os
soldados, o imigrante, a dona de casa, a moça preocupada com a moda, o
seresteiro, a ex-escrava, os trabalhadores.
As Reformas de Quaresma As três partes de Triste Fim de Policarpo Quaresma correspondem a aplicação das grandes reformas propostas pelo personagem
principal para salvar o Brasil.
A Reforma Pela Cultura Relata a vida de Quaresma como funcionário público.
Homem de hábitos arraigados e conservadores, Quaresma era solteirão e vivia
com sua irmã Adelaide num bairro do Rio de Janeiro.
Além de dedicado ao serviço público, era patriota exaltado, possuindo uma
biblioteca só
com obras sobre o Brasil.
De repente viu-se assaltado por uma obsessão: salvar o país por uma reforma
nos costumes.
| Quaresma pensava que o homem do Brasil deveria se expressar como
os primitivos tupinambás, e não como os europeus. Por isso pôs-se a estudar
folclore e o tupi-guarani. Em pouco tempo, pretendeu substituir o idioma
português pela língua dos primitivos habitantes da terra, chegando ao
extremo de redigir documentos oficiais em tupi. |
Essa aventura acabou por metê-lo num sanatório. nessa
altura da vida, Quaresma vivia rodeado
por funcionários públicos sem consistência moral e profissional.
O conjunto dessas pessoas forma uma verdadeira alegoria contra o
funcionalismo público, uma
sátira impiedosa e bem-humorada: O general Albernaz, cuja filha Ismênia tem
um fim trágico, por causa da indecisão do eterno noivo Cavalcanti; o
contra-almirante Caldas, a quem foi dado
comandar um navio inexistente; o major Bustamante, cuja preocupação central
era conhecer a legislação que regeria a sua aposentadoria.
Dentre todos os amigos de Quaresma, apenas um se salva, pela sinceridade e
força do talento: Ricardo Coração dos Outros, violeiro simpático que lhe
dava lições de violão. E esse, por ser humilde, era desprezado pelos demais,
que formavam a "aristocracia do subúrbio"
A Reforma Pela Agricultura
Ao sair do hospício, Quaresma já não pensava em
reformar os costumes nacionais. Agora,
acredita que a solução para os males do Brasil adviria de uma reforma na
agricultura. Muda-se então para o sítio Sossego e, depois de importar
revistas e maquinários agrícolas, incumbe-se
da missão de demonstrar aos compatriotas que a melhor terra do mundo é o
Brasil.
Em pouco tempo, é vencido pela má qualidade do solo, pelas saúvas e pela
mesquinharia
da política local.
Depois de perder tudo o que investira, resolve voltar ao Rio de Janeiro para
salvar a pátria do perigo representado pela Revolta da Armada, que então
eclodira na capital do país.
Reforma Pela Política
No Rio de Janeiro, Quaresma alista-se no exército, a
favor de Floriano Peixoto, comandando
um batalhão de 40 soldados.
Nesta altura, esta empenhado nas reformas políticas do Florianismo, pelas
quais se alista
na batalha. Obtém uma entrevista com o presidente da república, mas sai
absolutamente decepcionado com a figura displicente e preguiçosa do líder.
Abafada a revolta, é enviado para a ilha das Enxadas, com a função de
carcereiro. Nesta ilha, estavam os prisioneiros de guerra, ex-membros da
marinha.
Uma noite, diversos prisioneiros são levados para sumário fuzilamento por
ordem expressa
de Floriano Peixoto.
Quando Quaresma toma consciência da manobra, redige uma carta de censura ao
presidente, exigindo dele que se respeitasse os direitos humanos dos
rebeldes. Em conseqüência de sua
carta, o grande florianista é preso e enviado para a Ilha das Cobras.
Teria o mesmo fim dos prisioneiros por cujos direitos protestara.
Vida e Obra
Uma Literatura a Serviço da Indignação
Afonso Henriques de Lima Barreto era mestiço e de origem
humilde.
nascido no Rio de Janeiro, em 1881, fez parte dos estudos preparatórios no
Colégio Pedro II. Ingressou na Escola Politécnica, que abandonou antes da
formatura para assegurar o sustento no funcionalismo público.
Dedicou-se de uma forma polêmica ao jornalismo e a literatura de crítica
social.
Seu pai foi considerado louco e ele próprio esteve internado em cada de
desajustados mentais.
A boêmia e o alcoolismo parecem não ter prejudicado seu trabalho
intelectual, mas o levaram á morte prematura, em 1922, aos 41 anos.
Passou por grandes desenganos e humilhações
Uma Obra com Lances Autobiográficos
Lima Barreto produziu romances, contos, crônicas, sátiras
políticas, críticas literárias e um livro de memórias:
Entre suas obras destacam-se:
Recordações do Escrivão Isaias Caminha(1909)
Triste Fim de Policarpo Quaresma(1915)
Numa e a Ninfa (1915)
Vida e Morte de M.J. Gonzaga (1919)
História e Sonhos(Contos, 1920)
Os Bruzundangas (sátira política,1922)
Clara dos Anjos
O Cemitério dos Vivos(sobre sua experiência no hospício)
Nem tudo o que Lima Barreto escreveu foi publicado em vida.
Boa parte dos escritos que formam os 17 volumes de sua obra completa teve
que ser coligida dos jornais e das revistas com as quais colaborou.
Sua obsessão pela literatura pode ser explicada por uma irreprimível
necessidade de explorar temas ligados á sua própria vida
Dentre os temas que abordou, destaca-se o preconceito da sociedade da época
contra os
mestiços e pobres.
Seus romances apresentam sempre indignação contra a insensibilidade dos
ricos, a
superficialidade dos burocratas, a corrupção dos políticos, a
esterilidade dos falsos artistas.
A Principal contribuição de Lima Barreto para a literatura contemporânea
consiste no abandono
do modo artificial e erudito de escrever, dominante em
seu tempo.
Adotou em seus romances a informalidade estilística própria do jornalismo e
da fala cotidiana.
Nesse sentido contribuiu para a soltura e descontração da frase, o que
agradou parte dos
escritores modernistas da Semana de 1922.
Soube registrar com minúcia muitos aspectos da vida social e política do Rio
de Janeiro no
tempo da Primeira República.
Suas obras fornecem um interessante painel das pessoas remediadas do Rio de
Janeiro.
Embora mostrasse simpatia pelo folclore e pela vida das camadas pobres da
periferia,
Lima Barreto não soube admirar o futebol como expressão de
cultura popular. Era também
contra a liberação feminina.
Entretanto fora capaz de admirar a Revolução Russa.
Essas e outras posturas revelam um intelectual contraditório com algumas
antecipações
avançadas e outras posturas conservadoras. Esse traço de
indecisão aparece também em
Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Augusto dos
Anjos.
A obra de Lima Barreto demonstra a influência de Machado de Assis,
Dostoievski e dos
positivistas franceses, como Taine e Brunetiere.
Apesar dessas influências é um dos autores mais independentes de nossa
ficção. Partilhava da
idéia de que a literatura devia expressar diretamente
os sentimentos e as idéias pessoais do
escritor. Por isso quase todos os
seus romances possuem lances autobiográficos.
Julgava ainda que a função primordial da literatura é unir os homens e
desmascarar os falsos
valores e as instituições que exploram a inconsciência
popular.
Fontes de Referências
Coleção Livros O Globo
Leia Também....
Riobaldo Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa
Um Certo Capitão Rodrigo de Érico Veríssimo
Laços de família - ponto máximo da prosa de Clarice Lispector
Relato de um Certo Oriente Milton Hatoum
O Livro das Ignorãças de Manoel de Barros


Procure na BUSCA pelo autor ou pelo título. Se tiver dúvida insira apenas parte do título ou autor |
|

Fique atento ao valor do frete. Adquira mais livros. Até 1 kilo, o preço do frete tem o mesmo valor |
 |
Fontes Coleção Livros O Globo |
|
|
|