Amor de Perdição, 1862, seu romance mais conhecido, e Amor de Salvação, 1864, foram lançados como uma aparente continuação,
portanto não confunda as duas obras.
Comparando-as, percebemos semelhanças e diferenças entre as quatro personagens femininas fundamentais: Tereza e Mariana (Amor
de Perdição); e Teodora e Mafalda (Amor de Salvação). São elas que realmente agem nos romances.
Com elas notamos a presença de algumas características comuns, se não a todas, a um grande número de obras camilianas,
características, como a presença do amor e do dinheiro, como grandes responsáveis pela ação dos protagonistas.
Amor de Salvação
......lágrimas e alegrias de romance é tudo fútil.
O leitor folheia duzentas páginas deste livro, e o amor de felicidade e bom exemplo não se lhe depara, ou vagamente lhe preluz.
Três partes do romance narram desventuras do amor de desgraça e mau exemplo......
...... a felicidade, como história, escreve-se em poucas páginas: é idílio de curto fôlego.
É no sentir intraduzível da consciência que ela encerra epopéias infinitas - enquanto que a desgraça não demarca balizas
à experiência nem à imaginação.
Para o amor maldito, duzentas páginas; para o amor de salvação, as poucas restantes do livro.
Um Volume ou história que descrevesse um amor de bem-aventuranças terrenas seria uma fábula.
O Autor
No Minho, em 1864
O Tema
Camilo Castelo Branco pertence à Segunda fase do Romantismo português, chamada Ultra-Romantismo – corrente literária da
segunda metade do século XIX que leva ao exagero os ideais românticos.
Escreveu vários gêneros de novelas: satíricas, históricas e de suspense. Mas foram suas novelas passionais – como Amor
de Perdição e Amor de Salvação – que lhe deram maior projeção dentro da literatura portuguesa.
Amor de Salvação é uma novela passional, considerada pela crítica uma das obras mais bem acabadas do autor.
A história relata lembranças que são contadas ao narrador pelo protagonista, em uma noite de Natal, após um reencontro
entre os dois que não se viam há quase doze anos.
Afonso e Teodora foram prometidos um ao outro, por suas mães que eram amigas desde os tempos em que estudavam num convento.
Após a morte da mãe, Teodora vai para um convento e tem como tutor seu tio, pai de Eleutério Romão.
Teodora e Afonso estão sempre em contato aguardando o
tempo certo para casarem. Afonso resolve
estudar fora por dois anos. Teodora influenciada pela amiga Libana quer casar-se o mais rápido possível. A mãe de Afonso,
D. Eulália, pede-lhe para aguardar. Mas com a saída de Libana do convento Teodora se desespera e resolve casar-se com seu primo,
Eleutério, para libertar-se das grades do convento.
Eleutério era o oposto a beleza de Teodora, era rude e vestia-se de forma hilariante. Apesar da grande tentativa de seu tio, o
padre Hilário, em ensinar-lhe a ler, nada conseguiu. Vencido pela incapacidade de seu sobrinho, Padre Hilário desistiu
afirmando que somente através de uma fresta no cérebro, aberta a machado, seria possível tal façanha. Teodora viveu em
pompas, trajes de sedas, cavalos, bailes, etc., mas nunca esquecera Afonso, enviava-lhe cartas de amor mas nunca
obtivera resposta.
Afonso sofreu muito com a notícia do casamento de Teodora, pediu a mãe permissão para se ausentar de Portugal. Contava sempre com
o apoio e o consolo das cartas de sua mãe e sua prima Mafalda, que o amava pacientemente. Após anos de amargura, sofrimento
e luta contendo-se diante das cartas de Teodora, para não fugir aos ensinamentos religiosos aos quais sua mãe o educou,
foi fulminado pela influencia do amigo José de Noronha que o incentivou a escrever à Teodora. Relutou mas não conseguiu.
A tal carta foi cair nas mãos de Eleutério, leu mas nada entendeu. Pediu então a um amigo ajuda para interpretá-la.
A carta acabou sendo rasgada por Fernão de Teive, dando a desculpa de serem grandes sandices, após junto com sua filha
Mafalda, reconhecer as intenções do remetente, seu sobrinho Afonso de Teive.
Não conformado Afonso parte ao encontro de Teodora. Eleutério quando os encontra juntos, pede-lhes explicações. Teodora
responde-lhe que é uma mulher livre a partir daquele momento, e vai viver com Afonso. Passam momentos, ilusoriamente, felizes.
Afonso abandona até a sua própria mãe para viver ardentemente esta paixão que sempre o consumiu.
Sua mãe sempre afetuosa, apesar da grande tristeza, sustenta a vida luxuosa que Afonso tem ao lado de Teodora .
Afonso quando fica sabendo da morte de sua mãe, através de carta escrita por Mafalda, se desespera. Teodora tenta consolá-lo, mas
ele sente em suas palavras ironia e sente nojo de tamanho fingimento. Procura isolar-se de Teodora e dos amigos.
Durante este período, Tranqueira, velho criado da família, alerta-o sobre as intenções do amigo José de Noronha por Teodora.
No início se revolta contra o criado, mas acaba escutando-o e passa a observá-los. Encontra umas cartas que confirmam as suspeitas.
Certo dia os pega juntinhos com gestos de muita familiaridade. Aborrece-se pede para que Noronha saia de sua casa.
Teodora dissimulada como sempre, tenta enganá-lo, mas ele atira-lhe as cartas. Teodora desmaia enquanto Tranqueira
derruba Noronha na cisterna para vingar seu patrão.
Afonso passa alguns dias fora de casa, quando retorna encontra uma carta de Teodora informando os pertences que havia
levado consigo. Apesar de traído sente saudade da encantadora Teodora. Vende tudo e parte para Paris atrás de
um amor que o salve.
Gasta tudo o que tem. Por fim, pede ao seu tio Fernão para comprar-lhe a casa onde viveram seus pais e avós, pois não
queria ofender a memória de sua mãe que o havia pedido, em carta antes morrer que não a vendesse. Mafalda com seu coração
generoso e cheio de amor pelo primo, pede a seu pai que o atenda, e este assim o faz mas, com a condição de que a
casa continuaria sendo de Afonso. Afonso afunda-se cada vez mais em seus vícios e extravagâncias a ponto de
querer suicidar-se. Tranqueira, que nunca o abandonou, percebeu sua intenção e disse-lhe severas palavras que o
livraram de tamanha loucura. Mudou de vida, passou a trabalhar e a estudar com apoio de seu criado.
Fernão de Teive adoece, e prestes a morrer pede ao padre Joaquim que vá a Paris entregar a Afonso, os documentos de propriedade
da casa a qual comprara, apenas com intuito de ajudar o sobrinho. Após a morte de Fernão,
Mafalda sentindo-se sozinha, resolve viajar com o padre Joaquim para Paris com a objetivo de juntar-se as irmãs de caridade.
Quando o padre Joaquim encontra Afonso e conta-lhe da morte do tio, este chora e corre ao encontro da prima que ficara
em uma hospedaria.
Mafalda conta ao primo sua decisão, mas padre Joaquim pede-lhes, pelo amor de Deus, que ao invés
disso, casem-se. Afonso aceitou de imediato e
agradeceu à Deus por ter ouvido os pedidos de sua mãe. Afonso e Mafalda voltaram para sua cidade, casaram-se,
tiveram oito filhos e foram muito felizes.
Apesar do título “Amor de Salvação” a novela relata em quase toda sua extensão, um “amor de perdição” entre Afonso de Teive e
Teodora Palmira. Ao amor de salvação, Mafalda, são dedicadas somente as ultimas páginas do romance.
Biobliografia
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (1825 - 1890) teve uma vida que pode ser confundida com uma de suas próprias novelas,
ou seja, uma vida dramática e tão cheia de atribulações que chega a espelhar as histórias que escreveu.
Nascido em Lisboa a 16 de Março de 1825, na freguesia dos Mártires, Camilo ficou órfão de mãe aos dois anos e de pai aos
dez, passando a ser criado por uma tia e uma irmã. Aos 16 anos casou-se com Joaquina Pereira e, dois anos depois, em 1843,
matricula-se na Faculdade de Medicina, porém, não conclui o curso. A partir de 1848, passa a viver do jornalismo e a
freqüentar a boêmia.
Quando completa 21 anos, rapta Patrícia Emília e vai viver com ela na cidade do Porto.
Logo depois é acusado e preso por bigamia. Depois de conseguir a liberdade, Camilo tem alguns amores passageiros até
encontrar, por volta de 1856, Ana Plácido, a "mulher de sua vida".
Essa nova relação amorosa, no
entanto, não é nada tranqüila, uma vez que Ana é casada com Pinheiro Alves, um rico comerciante local.
Na impossibilidade de concretizar o seu amor, Camilo busca refúgio na religião e ingressa no Seminário do Porto, porém passa a
ter um caso amoroso com a freira Isabel Cândida. Camilo permanece nesse seminário por dois anos e, depois de tentar
o suicídio, consegue viver junto à sua amada, que abandona o marido para viver com o escritor. Logo depois o casal é preso
pelo crime de adultério. Os dois são julgados, absolvidos e vão morar em Lisboa.
Camilo e Ana têm dois filhos com problemas de saúde e, por isso, enfrentam sérios problemas financeiros. Para garantir a
sobrevivência da família, Camilo passa a escrever por encomenda, tornando-se o primeiro escritor português a viver exclusivamente
da literatura. Em 1888 Ana e Camilo finalmente se casam. Ainda nesse ano o escritor começa a sentir os primeiros
sintomas de cegueira, causada por uma sífilis crônica. Em 1890, a novela da vida de Camilo chega ao fim.
Ele suicida-se com um tiro de pistola em 1º de junho.
O fato de ter de sobreviver da literatura fez com que Camilo Castelo Branco concentrasse seus esforços na produção de novelas
(narração, usualmente curta, ordenada e completa, de fatos humanos fictícios, mas, por via de regra, verossímeis). Isso se deu
porque esse gênero literário agradava ao novo público consumidor, tornando-se assim de fácil consumo.
Obras literárias
Dentre a vasta obra composta por Camilo Castelo Branco podemos encontrar novelas de terror, satíricas, históricas e as passionais.
Essas últimas compõem o gênero que mais caracteriza o ultra-romantismo português. Nelas são apresentadas personagens que,
devido os obstáculos encontrados para a realização do amor, tornam-se verdadeiros mártires desse sentimento.
As obras que merecem maior destaque são:
Carlota Ângela (1858),
Amor de Perdição (1862);
O Irônico Coração (1862);
Cabeça e Estômago (1862);
Amor de Salvação" (1864)
A Queda dum Anjo (1866),
A Doida do Candal (1867),
Novelas do Minho (1875-77),
Eusébio Macário (1879),
A Corja (1880),
A Brasileira de Prazins(1882)
Os Brilhantes do Brasileiro
Coisas que só eu sei
Uma Praga Rogada nas Escadas da Fôrca
*Fontes de Consulta
http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/biografias/autores/camilo_castelo_branco
www.mundocultural.com.br Dados contidos na
edição do livro vendida pelo jornal
O Estado de São Paulo a seus assinantes.
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/amordeperdicao
Luiz Antônio da Silva - professor de literatura da USP e do
Colégio Bandeirantes -
Especial para o Fovest
Sueli Rodrigues
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