O governo português abandonou Timor em 1975. A conjuntura da época é hoje mais clara. As Forças Armadas foram para Timor para promover
os 3 D's — descolonização, democracia, desenvolvimento — mas tingidas pelas cartilha marxista. O governador enviado, e primeira figura
militar, era o então Coronel Lemos Pires, prometedor oficial de estado maior com uma missão talvez impossível.
Na sua equipe contava-se o depois vice-ministro comunista dos governos provisórios vermelhos, o Tenente-Coronel Arnão Metelo.Nascem
em Timor-Leste partidos políticos, alguns dos quais advogam a integração na Indonésia.
As divergências degeneram em confrontos armados. Entretanto, as Forças Armadas portuguesas entregaram armas de guerra modernas e munições
à resistência timorense, então FRETILIN, hoje FALINTIL, onde Xanana Gusmão era um membro apagado do comitê central. Tentaram
substituir a liderança dos liurais, chefes tradicionais, por líderes eleitos "democraticamente".
Uma grande parcela de timorenses mais tradicionais se revoltou contra os marxistas com o apoio dos movimentos UDT e APODETI, sendo
algumas das armas fornecidas pela polícia portuguesa do Capitão Maggioli, anti-comunista.
Cumprida o que era sua missão de deixar cair o poder na rua para que a FRETILIN dele se apoderasse, os militares portugueses evacuaram
dia 26 de Agosto de 1975 para a ilha de Ataúro e depois para Portugal. Não foi bonito. Timor está a 11 horas de fuso horário de Lisboa,
e na realidade está tão longe de todos e tão perto da Indonésia...

A guerra civil alastra por todo o território e enquanto se multiplicam as ameaças de intervenção indonésia, a Fretilin, liderada por
Nicolau Lobato, expulsa de Díli os movimentos rivais da União Democrática Timorense e Apodeti e proclama unilateralmente a República
Democrática de Timor-Leste, em 28 de Novembro de 1975, tendo como Presidente Francisco Xavier do Amaral.
Havia indicações tênues dos serviços militares de que Indonésia interviria mas não foram levadas a sério no plano português. Especula-se
hoje se o PC da URSS e o PC português de então contariam com o Vietnam para cumprir o papel de cubanos da Ásia. Em 25 Abril de 1975 os
vietnamitas entravam em Saigon e poderiam fazer novos focos revolucionários na Ásia, como os cubanos na Etiópia e em Angola.
Era a idade de ouro do expansionismo soviético.

Sucedeu então uma santa aliança anti-comunista de EUA, Austrália e Indonésia.
O General Suharto que liquidara 500.000-600.000 indonésios comunistas pró-Sukarno, quando da sua tomada de poder, não iria permitir um
mini-comunismo à sua porta.
Atenção, o exército indonésio é um exército de guerra civil. Nunca defrontou outra nação. Suharto mandou invadir o pequeno território de
Timor-leste. Em 7 de Dezembro de 1975 Tropas indonésias desembarcam em Díli e, nos dias seguintes, atravessam a fronteira e ocupam todo
o território.
Ignorando resoluções da ONU e tornou-o depois a "27ª província indonésia".
Até ver. A Austrália foi o primeiro e único país a reconhecer a anexação. Sabia-se já do Petróleo de Timor Gap que alguns comparam ao
de Cabinda pelas suas ricas propriedades que o tornam importante para destilar combustível de aviação. Em 1989, a Austrália e a Indonésia
assinam um acordo para exploração do petróleo no mar de Timor. Henri Kissinger, sempre pródigo em vacinas sangrentas preventivas nos
outros, considerou que cinco semanas bastariam para resolver o assunto, segundo documentos publicados em The Nation.
Seguiu-se um longo massacre de timorenses. Nos anos seguintes, estima-se que morrem dezenas de milhares em resultado de uma política
de genocídio e assimilação forçada. A população fugiu para as montanhas, fora das áreas urbanas. Mas como é difícil assegurar a
sobrevivência no mato — situação repetida agora em 1999 — a população bombardeada, esfomeada, vítima de doenças foi morrendo. Foram
criados campos de concentração (como em 1999) para os que regressavam, atingindo o número de 200.000 pessoas como então admitiu Holbrooke,
secretário de Estado americano.
Portugal apresentou protestos na ONU, então órgão terceiro-mundista, e conseguiu que fossem votadas resoluções que mantinham Timor
como território sob a administração portuguesa in absentia. Era uma consolação moral e uma vitória do direito internacional que de pouco
aproveitou aos timorenses. Mas em torno dela cristalizou uma verdadeira união sagrada portuguesa, da extrema direita à extrema esquerda,
dos ex-colonialistas aos neo-libertacionistas que viam talvez no povo sofredor de Timor o avatar de todos os injustiçados que eles
sentiam presentes no fim do último império colonial (europeu) o português. Timor passou a fazer parte do inconsciente português e é de
justiça que foi Duarte de Bragança, uma das primeiras personalidades públicas a realçar o caso.
Depois, sucedeu o inesperado. A Fretilin aguentou-se. Como os irlandeses do Norte desde Bloody Sunday. Com poucos homens mas esmagador
apoio da população é possível fazer sobreviver uma guerrilha mesmo que insignificante militarmente como a Fretilin.
Os líderes morreram, nasceram outros líderes. Xanana (José Alexandre) Gusmão afirmou-se a partir de 1979, começando a percorrer o
território com um mini-grupo de 50 homens, procurando agrupar outras forças e iniciando a guerrilha contra o ocupante indonésio.
A 10 de Junho de 1980 estavam em condições de atacar posições militares em Dili. Em resposta, o exército indonésio volta ao ataque. O
resultado é um empate.
Em 1981 Xanana é eleito líder da Resistência timorense, culminando um processo de reagrupamento de forças.
Em 1983 os indonésios pedem conversações. O coronel Purwanto dialoga com Xanana em Março de 1983, e este exige a auto-determinação.
O comandante indonésio e substituído pelo general Murdani que promete liquidar a resistência timorense até 5 de Outubro, dia das
forças armadas indonésias, ou ABRI. A Indonésia inicia a política de "transmigração", instalando em Timor-Leste habitantes de outras
ilhas.

A luta continua mesmo sem apoios do exterior. Os timorenses são povos guerreiros e as armas capturadas ao inimigo são o mínimo
suficiente. Em 1987, as Falintil são despartidarizadas e no ano seguinte é criado o Conselho Nacional da Resistência Maubere. Mário
Carrascalão, nomeado governador pelos indonésios pratica uma política do prato de lentilhas e de melhoramentos materiais.
Solicita a entrada de capitais indonésios para criação de emprego para os jovens timorenses.
A pressão internacional abre o território aos compagnons de route do capital: alguns turistas e jornalistas, nem todos pró-indonésios.
Os timorenses aproveitam as oportunidades para fazer reivindicações. A visita do papa João Paulo II a Dili em Outubro de 89 e a do
embaixador americano a Jacarta em Janeiro de 90 e do Núncio Apostólico em Setembro do mesmo ano ocasionam manifestações pela
independência que são duramente reprimidas. O dilema das autoridades é muito claro; ou reprimem os timorenses e se isolam ou então
reprimem toda a população que vem para rua.
Em 12 de Novembro de 1991 o massacre do cemitério de Santa Cruz, em Díli, em que as tropas indonésias assassinam centenas de
timorenses, é testemunhado por jornalistas estrangeiros. O mundo viu pela CNN as imagens daquele massacre e pela primeira vez em vinte
anos a causa da independência de Timor e a denúncia do genocídio contra o povo de Timor-Leste tornou-se global. Xanana reitera o que
sempre disseram todos os patriotas "Convém não esquecer a razão de ser profunda de cada povo: o orgulho de ser ele próprio". Em
Novembro de 1992, Xanana é capturado, em Díli, por tropas indonésias. Julgado em Maio do ano seguinte, é condenado a prisão
perpétua. O Presidente Suharto reduz a pena para 20 anos de prisão, em Djakarta. A guerrilha nas montanhas continuou. Os timorenses
nunca comeram o prato de lentilhas que os indonésios lhes davam. E passaram sete anos.
Entretanto, sucedera muita coisa. O muro de Berlim caíra. A aliança EUA-Indonésia Austrália era redundante e a insatisfação sofreu
uma aceleração rápida. A Igreja católica continuou a fazer pressão pela emancipação dos timorenses. Em 10 de Dezembro de 1996, o
bispo Ximenes Belo e José Ramos-Horta recebem, em Oslo, o Prêmio Nobel da Paz; foi uma poderosa chamada de atenção do mundo para
a violação dos direitos humanos em Timor-Leste.
Ao longo de 1997, a comissão de Direitos Humanos da ONU aprova uma resolução condenando Jacarta, com algum peso para Nelson Mandela.
O dinheiro governamental português nunca faltou à resistência timorense. Mas nada mudara na frente interna indonésia. A Indonésia
reforçava o seu dispositivo militar em Timor-Leste.
Uma minha antiga aluna timorense disse-me uma vez "Que se pode esperar de um país em que a palavra 'liberdade' se diz merdeka"?
Os argumentos morais apenas calaram fundo quando, em termos sérios para os senhores deste mundo, a Indonésia foi gravemente atingida
a crise dos mercados asiáticos. Era uma crise de há muito antecipada por vozes como a da Transparência Internacional que alertavam
que a corrupção desequilibrava o crescimento dos tigres asiáticos. Caiu a confiança dos mercados e das entidades financeiras
multinacionais. Em Maio de 1998, Suharto é forçado a demitir-se depois de meses de revolta popular ateada pela profunda crise
econômica. O novo Presidente indonésio, Iussuf Habibie, lança reformas democráticas.
Em Janeiro de 1999, Portugal e a Indonésia abrem secções de interesses nas duas capitais.
Em 5 de Maio, os ministros dos negócios estrangeiros de Portugal e da Indonésia e o secretário-geral da ONU assinam um acordo para a
realização de um referendo de autodeterminação em Timor-Leste, sob a égide das Nações Unidas.
É um ponto misterioso sobre o qual ainda falta informação. Por que razão o presidente Habibi decidiu-se pela abertura democrática em
Timor ? Habibi era um seguidor de Suharto que era um general de Sukarno.
E está por decidir-se o que os generais de Habibi, como Wiranto, farão do atual presidente.
Mas o certo é que Habibi permitiu a realização de um referendo com observadores da ONU enquanto o exército de ocupação indonésio permitia
e acalentava uma onda de terrorismo desencadeado pelas milícias pró-indonésias. Formam-se milícias armadas — AITARAK — em parte com
elementos do exército de ocupação, em parte com outros indonésios, em parte com etnias da fronteira com Timor indonésio que ameaçam
massacrar e estruir.
A 30 de Agosto de 1999 — 98,6% dos recenseados votam no referendo de autodeterminação. O resultado, anunciado às 9h (hora de Díli) de
4 de Setembro, é uma esmagadora vitória da independência, com 78,5% dos votos. O pequeno povo timorense uma vez mais surpreendeu o
mundo. Os indonésios também. As milícias e o exército indonésio lançam imediatamente uma campanha de assassínios, deportações em massa,
pilhagens e incêndios, forçando a população a refugiar-se nas montanhas e obrigando a ONU a deixar Díli.
Desconhecemos números e esse inventário e começa a ser feito.Rompeu-se então a máscara da aliança EUA Austrália Indonésia.
A Austrália — que vai ser uma república em 2000 e está em Timor a liderar a INTERFET, a força multinacional — cumpre a sua primeira
missão de poder emergente no Pacífico e regulador pró-americano dos conflitos regionais.
O seu protagonismo fá-la intervir maciçamente em Timor e inverter 180º a sua política externa para com a Indonésia. Os EUA estão por
detrás a apoiar. A França está por causa da Nova Calcedônia.
A Indonésia tem que salvar a face e Timor é apenas uma pequena dor de cabeça para os 270 milhões de ilhéus, muçulmanos e cristãos.
Tudo isto é previsível.O que pode continuar a surpreender é o pequeno povo timorense.
Ele tem um papel histórico a cumprir: o de demonstrar que os bens se começam a conquistar pela força dos valores morais antes do poder
desordenado. Creio decisivo para Timor ser um povo lusófono, de falar e sentir o português que o projeta numa área cultural global e
que o abre para além das suas pertenças regionais imediatas; como é decisivo a pertença cristã que o projeta numa área que cria por
vezes expectativas que não se podem cumprir.
Por tudo isto, é viável a independência de Timor dentro das suas pertenças lusófonas longínquas e pacíficas próximas. Miticamente,
creio que se trata de um pequeno povo corajoso que não comeu o prato de lentilhas que lhe ofereceram e, como Jacob, emerge vitorioso
das suas terríveis provações.
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