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Qual a explicação pela explosão de violência no meio escolar? o que está
passando em nossa sociedade, especialmente nas escolas de educação
básica, para que fatos dessa natureza possa ocorrer? |
Há dias, o massacre em Erfut me incomoda insistentemente ao final da
tarde. Em outros momentos,
fiz poemas crepusculares. Agora, algo me diz
que devo insistir, bater na mesma tecla, à guisa do meu adorável Teodor
Adorno, a insistir, nas rádios, jornais e livros, sobre o horror
nazista, do mesmo mod que Joseph Ratzinger, ou nosso Bento 16, agora,
também, retoma, em tom de provocação, para uma reflexão de todos que
lutam em favor da paz e da liberdade.
Refiro-me ao massacre escolar no Instituto Johann Gutemberg, em Erfurt,
ao leste da Alemanha, no dia 26 de abril de 2002, que trouxe um saldo
macabro para a história da violência escolar no mundo: dezoito mortos.
Eu nunca me esquecerei dessa data. Como ficou a educação escolar, na
Alemanha e no mundo, após o incidente em Erfurt? Por que, em educação,
não temos medo do lobo mau?
O presente artigo objetiva retomar uma questão, por mim, colocada, há
mais de quatro anos, para nós educadores. Gostaria de levantar e obter,
também, respostas para algumas das questões que me incomodam e sei que
inquietam educadores de todos os países: qual a explicação da explosão
de violência no meio escolar? Que está passando em nossa sociedade,
especialmente nas escolas de educação básica, para que ocorra um
desastre dessa proporção? O que levou Robert Steinhaeuser , de 19 anos,
a abrir fogo contra seus companheiros e professores?
Levantamos, aqui, a hipótese de que o mau professor tem sido um dos
patrocinadores da barbárie
em Erfurt, Freising, Brandenburgo, Meissen, Colorado, Jonesboro,
Kentucky, Mississipe,
Yemen, Reino Unido e América Latina.
A sociedade prefere, porém, encarar a problemática da violência escolar,
envolvendo armas e
jovens, como uma questão meramente jurídica ou de controle social: o
porte ou não de armas. A intolerância escolar é a mais poderosa arma
mortífera que uma sociedade pode produzir.
A educação escolar, em qualquer parte do mundo, após o crime em Erfurt,
não pode continuar a mesma: indiferente às vítimas e à fúria assassina
de um Robert Steinhaeuser. As universidades e
as escolas, nessa sociedade capitalista, têm produzido e reproduzido, em
larga escala, muitos
Robert Steinhaeuser. Eles se manifestam nos maus professores ou em suas
vítimas, os maus
alunos, na verdade, ambos, também vítimas de uma pedagogia da
intolerância que os lançam
numa voluntária e iníqua disposição para a perversidade.
Alunos ferozes são o produto mais apurado da intolerância e da felonia,
dois males das escolas
pós-modernas no seio da sociedade globalizada. Nós, educadores, não
podemos esperar mais
pelo pior em se tratando de horror escolar. O crime em Erfurt é
reincidência da fúria escolar.
O massacre, no Colégio Gutemberg, é endemia multinacional. Erfurt deve
ser sinônimo
de intolerância escolar.
Em crimes dessa proporção, os governantes, se pudessem, voltariam no
tempo. São eles, também, que encontram, de imediato, explicação
simplista para a violência escolar: mais rigor no porte de armas. Os
políticos legislam sobre educação, mas muitos deles não sabem o real
significado da escola em suas vidas.
Nós, educadores, ao contrário dos políticos, devemos encarar, de frente
e com o olhar mais demorado, a violência escolar, pois sabemos que suas
causas não vêm apenas do afrouxamento das leis ou ausência do controle
social por parte dos aparelhos do Estado. Não se trata de a criança ou
jovem ou adulto ser controlado quanto ao porte ou não de armas, mas, de
a criança, desde à educação infantil, aprender a respeitar à vida como o
bem mais precioso da humanidade.
Por trás de todo crime escolar, há um mau professor que o justifica na
boca do aluno delinqüente. Não são poucos os maus professores que, no
cenário do crime, à guisa de Robert Steinhaeuser, vestem-se de cores
escuras para não dissimular seu comportamento radicalmente sóbrio e seu
olhar sombrio sobre a tarefa de instruir. Desde cedo, alunos, candidatos
ao fracasso escolar, descobrem nos professores amargos o primeiro sinal
de uma pedagogia da intolerância.
Quase sempre, quando os maus professores embargam a voz, não é sinal de
emoção, mas de repressão que logo se lançará, como flecha, num alvo
certo: os perdedores, os que fracassam nas avaliações escolares.
O mau professor, em geral, é inflexível, e suas palavras são as mais
duras que os alunos escutarão no decorrer de suas vidas. Suas aulas não
são ministradas, mas executadas, com pontualidade e exatidão alemã que
lembram mais máquinas, tiranas ou servas do tempo, não levando em conta
que todo magistério tem por fim a formação de seres vivos e humanos e
que o tempo de aula é tempo de se olhar feliz e contemplativamente sobre
o tempo de viver.
O mau professor, quando severo, pode ser elegante, mas sua presença não
traz prazer, e sim, medo. O professor severo é bem definido e acentua
sua ideologia de ser. Por isso, os professores intolerantes, em sala,
são as maiores vítimas da cola e dos desvios morais e éticos dos alunos.
Nos massacres, sempre são os primeiros a serem mortos, vítimas daqueles
que eles mesmo batizaram de “perdedores” ou “ fracassados”.
O mais grave é que muitos professores e diretores de escolas, públicas e
privadas, ainda não tomaram consciência de que a sociedade escolheu a
escola para ministrar o ensino com base nos princípio de uma pedagogia
do amor, do pluralismo de idéias, de concepções pedagógicas e de
respeito à liberdade.
Com o horrível crime em Erfurt, nós, educadores, aprenderemos a lição do apreço à tolerância?
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Vicente Martins
Professor Assistente de Língua Portuguesa e Lingüística dos Cursos de
Letras e Pedagogia da Universidade
Estadual Vale do Acaraú (UVA). Graduado e pós-graduado em Letras pela
Universidade Estadual do Ceará (UECE) com mestrado em Educação e área de
concentração em política educacional, pela Universidade Federal do Ceará
(UFC). Coordena, desde 1995, o Núcleo de Estudos Lingüísticos e
Sociais(NELSO/UVA). |
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