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Conhecer a violência urbana ou escolar é algo que extrapola histórica,
social e juridicamente a questão da segurança pública e nos conduz ao
campo dos valores, crenças, maneira de pensar, disposições psíquicas e
morais da coletividade. |
Encontro-me com um grupo de professores da educação básica. O bate-papo é
inicialmente informal
e ameno. Aos poucos, porém, a conversa torna-se confragosa, crua e empedrouçada. Ouço, atento, o relato das dificuldades
pedagógicas dos mestres, em sala de aula, sobretudo as relacionadas ao
ensino e à aprendizagem da leitura, escrita e ortografia. Logo me
incomoda a descrição da escola enquanto palco de situações de violência.
A violência escolar nas escolas, públicas e privadas, é um problema
pedagógico.
Diretores e professores de escolas públicas me descrevem, apavorados,
ocorrências de depredações dos prédios, casos de arrombamento de salas e
laboratórios, ameaças e casos de detenções ou prisões e, não poucas
vezes, situações de constrangimento e amedrontamento envolvendo pais,
professores e alunos.
Um professor me diz que a situação está tão grave que um puxão ou uma
tapinha entre alunos, dentro ou fora da escola, já pode não ser sinal de
uma simples brincadeirinha infanto-juvenil, mas de safanão que logo será
desferido contra o colega de sala, a ser deflagrado com intenção de dano
físico, moral e requinte de perversidade Agora, uma pergunta advém: em
que a universidade pude ajudar as escolas públicas? Onde podemos
encontrar, na Academia, respostas concretas para uma situação real e
preocupante das escolas públicas?
Uma solução simplista, imediata e necessária é, decerto, o policiamento
e a colocação de grades. Mas isso não basta.Quase sempre as medidas
coercitivas e paliativas parecem reforçar, apenas, a violência escolar.
São nas crenças, atitudes e reações dos mestres e na descrição do que se
passa efetivamente na ambiência escolar que um novo olhar de todos nós,
educadores, pais e poder público, deve ser proativo e, desde logo, vale
começar por uma questão fundamental: de onde vem a violência? E, em
seguida, levantar dúvidas do tipo: onde há a exclusão social se
manifesta de modo mais acentuado a violência escolar? Onde as causas?
Onde as soluções?
As respostas que nos vem à consciência nos mostra que as escolas não
ficam isoladas do contexto social uma vez que, realmente, estão muito
próximas das famílias e da sociedade. A escola, para
lembrar Louis Althusser, é o principal aparelho ideológico do Estado. As
boas experiências de superação da violência escolar sairão, pois, do
interior dos próprios estabelecimentos de ensino.
Os gestores escolares sabem que medidas tradicionais como gradeamento,
vigilância e policiamento, a médio ou longo prazos, não são suficientes
nem atingem os pontos centrais do problema da violência escolar ou
urbana.
Se tomarmos, como referência a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDBEN), a Lei 9.394/96, ela, ao certo, dar-no-á pistas para
uma resposta mais contumaz e convincente para a violência escolar.
O artigo 22, da LDBEN, referindo-se à educação infantil, ao ensino
fundamental e médio, estabelece que é tarefa das instituições de ensino
assegurar aos alunos a formação para cidadania e fornecer-lhes meios
para progredir no trabalho, nos estudos posteriores e na vida. Agora,
novos questionamentos: a escola tem cumprido esta missão? A escola tem
se preocupado em formar os alunos para viver em sociedade, a saber-estar
na vida social, ou tem se limitado a repassar conteúdos curriculares?
Sei que nada disso é fácil. E a primeira tarefa é sairmos do discurso ou
espírito da Lei e ingressarmos na ação concreta. Então, com o fim de
colaborar nessa missão, eis algumas sugestões ou passos em direção ao
que chamaria aqui de práxis cidadã.
O primeiro passo para uma práxis cidadã, certamente, pode ser o de seguir
alguns procedimentos de gestão participativa como, por exemplo, o de
ouvir todos os segmentos envolvidos na comunidade escolar, em especial,
os alunos.
O segundo passo é o de explicitar as contradições existentes na escola.
Um terceiro passo é o de trabalhar as contradições internas da escola
para que, em quarto momento, possa propor melhorias para as relações
humanas. Um quinto procedimento é o de organizar comissões para
aprofundar as discussões sobre violência e sobre a segurança possível na
escola, no bairro, na cidade. E, por fim, duas ações são fundamentais
para uma escola com menos violência e mais cidadania: os gestores devem
abrir as escolas para dentro e para fora, inclusive aos finais de
semana, e fazer funcionar, sem medo, e efetivamente, as estruturas
democráticas das escolas.
A atuação de cada docente pode se materializar em projetos especiais nas
escolas públicas. Como professor de língua materna, sem hesitação,
montaria um projeto “ Ler Mais para uma Vida Melhor”. Sim, começar, pela
leitura. Não é, por certo, um projeto original, mas, para o modelo de
escola que temos no Brasil, não há dúvida de que há de ser inovador, um
novo olhar sobre a problemática escolar. Um bom exemplo (e é bom imitar
o que é bom) é o projeto Círculos de Leitura, do Instituto Fernand
Braudel, com grande atuação em Diadema, São Paulo.
O nome do Instituto é inspirativo: Fernand Braudel, um historiador
francês e um dos mais importantes representantes da Escola dos Annales.
Esta escola foi pioneira na abordagem de um estudo de estruturas
histórias de longa duração nos eventos. Conhecer a história é, de alguma
maneira, conhecer a geografia, cultura material, as mentalidades e a
psicologia da época. Da mesma forma, conhecer a violência urbana ou
escolar é algo que extrapola histórica, social e juridicamente a questão
da segurança pública e nos conduz ao campo dos valores, crenças, maneira
de pensar, disposições psíquicas e morais da coletividade.
Pois bem. As atividades do Instituto começaram assim: um grupo de
estudiosos da problemática social, ao conduzirem pesquisas de campo nas
escolas públicas da periferia da Grande São Paulo, em 1999, documentaram
a falta da prática da leitura, reflexão e debate no cotidiano da sala de
aula. A partir do diagnóstico, desenvolveram uma política de apoio às
bibliotecas escolares, através de mutirões e capacitação de voluntariado
em parceria com a comunidade escolar.
O método da Fundação Fernand Braudel é fantástico, por sua
simplicidade e eficácia e, mais do que isso, por seus resultados. Eles
trabalham com grupos pequenos e interativos de educadores pagos e
voluntários que trabalham de forma interativa com grupos de 10 a 15
jovens. Com esta medida, o Instituto oferece melhores condições para o
jovem dialogar e formar vínculos com outros alunos e professores.
Outra interessante atividade é o desenvolvimento da capacidade de
aprendizagem a partir da leitura de temas universais e clássicos da
literatura. Vale destacar que trabalham com obras literárias que trazem
em suas histórias (e estórias) temas universais, com que o jovem pode se
identificar, ampliando seu repertório cultural e relacionando suas
experiências com relatos que sobrevivem ao tempo.
Entre as atividades de lectoescrita, a Fundação faz um trabalho de
desenvolvimento da leitura em voz alta e em grupo. A Fundação acredita,
e isso é verdade, que para aquisição da capacidade cognitiva, alunos
necessitam de instrução efetiva em cinco áreas: fonêmica, fonética,
fluência, vocabulário e compreensão do texto. Em pequenos círculos,
participantes se alternam lendo em voz alta e parando periodicamente
para discutir sobre o significado dos trechos lidos.
Ainda
no campo da lectoescrita, os voluntários da Fundação Fernand Braudel
desenvolvem atividades como produção textual para que o aluno reflita e
escreva sobre o que foi lido e discutido em grupo. As redações
desenvolvidas durante as sessões do Círculo são utilizadas para
acompanhar o progresso de cada aluno e do grupo. Ao final de cada
encontro, os participantes lêem e refletem sobre os conteúdos dos poemas
e textos encontrados ou escritos por eles.
Por fim, outras ações da Fundação, não menos significativas, são a
participação voluntária do jovem, peça-chave para a construção de sua
cidadania, e sua contribuição na melhoria das condições do espaço
escolar. As atividades culturais também têm lugar na missão da Fundação.
São elas que auxiliam no aprendizado do jovem e ampliar seu universo de
referência cultural a partir das obras lidas, além de organizar
atividades e passeios culturais, incluindo visitas a bibliotecas,
parques e teatros.
O que sei, depois de duas décadas de magistério, é que a privação da
leitura interfere no desenvolvimento da personalidade dos alunos. Um
sem-leitura é como um sem-terra sem a posse legal da terra em que vive e
trabalha. Um aluno sem leitura não compreende os códigos lingüísticos e
sociais e, o mais grave, não sabe interpretar, naquela visão
paulofreiriana, a vida em sociedade. Não é à toa que um aluno
sem-leitura é rechaçado e rechaçador, triste e deprimido, agressivo e
angustiado, potencialmente um excluído do convívio social. .
Numa sociedade de informação, ler ou escrever bem é condição de
superação da desigualdade social. A leitura vai além do repertório de
palavras que brotam do alfabeto. Ler é compreender, interpretar,
descobrir, criar e, sobretudo, desfrutar do reino do conhecimento.
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Vicente Martins
Professor Assistente de Língua Portuguesa e Lingüística dos Cursos de Letras e Pedagogia da
Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Graduado e pós-graduado em Letras pela Universidade
Estadual do Ceará (UECE) com mestrado em Educação e área de concentração em política educacional, pela
Universidade Federal do Ceará (UFC). Coordena, desde 1995, o Núcleo de Estudos Lingüísticos e Sociais(NELSO/UVA). |
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